20 mil léguas fictícias-entrevista com Kristine Kathryn Rusch

Nina Gazire

Publicado em: 29/06/2012

Categoria: Entrevista, Reportagem

Vencedora do prêmio Hugo, a escritora fala sobra a importância dos oceanos na literatura de ficção científica

Kristine Kathryn Rusch

Foto: cortesia Kristine Kathryn Rusch-acervo pessoal

A americana Kristine Kathryn Rusch
já escreveu vários livros em gêneros diferentes como o da literatura fantástica, policial e romance, mas foi a sua produção em Ficção Científica que a tornou conhecida. Em 2001, Rusch recebeu Prêmio Hugo_ um dos mais importantes da categoria_ com sua novela “Bebês do Milénio” e já participou como roteirista de diversos episódios da série Jornada nas Estrelas. Sua série de livros, Diving Universe, ainda não publicada em português, conta a história de uma exploradora espacial que vagueia pelo universo atrás de naves abandonadas_ algo parecido com o os caçadores de tesouros dos mares da Terra. Em entrevista por e-mail para a seLecT, Rusch _ que foi uma das escritoras citadas na matéria 20 mil léguas fictícias como um dos nomes a atuais a escrever sobre a questão da água na literatura de Ficção Científica_ fala sobre o mito da Atlântida e o porque do fato de poucos escritores atuais escolherem ambientar suas em oceanos e mares terráqueos:

Em suas origens, como no caso dos livros de Jules Verne, a ficção científica sempre se voltou para o espaço e para os oceanos como cenários para suas histórias. No século 20 com as descobertas sobre o universo, histórias sobre esse ambiente parecem ter prevalecido no gênero? Por que atualmente a Ficção Científica explora tão pouco os mares e oceanos da Terra?

Vários escritores escreveram sobre o oceano da Terra, mas acho que as histórias insuperáveis neste âmbito são as de Herman Melville e Patrick O’Brien. Há todo um universo sobre histórias passadas no mar e eu pessoalmente gostaria de ver mais histórias que explorassem a questão dos oceanos e da água. Minha experiência com as pessoas que trabalham ou pesquisam sobre o universo áquatico é esta: eles não são escritores. Eles são muitos aventureiros para ficarem parados e escrever sobre suas vidas ou sobre histórias passadas nos oceanos. São diferentes de outros literatos e cientistas que pesquisam o espaço ou outros universos científicos. Eu vivo próximo ao Oceano Pacífico e interajo com mergulhadores e oceanógrafos o tempo todo. Eles preferem estar em um oceano violento do que trancados em seus quartos com um computador. Quanto aos escritores de FC, apenas recentemente é que eles voltaram a olhar para a Terra como um lugar para a exploração futurista. E mesmo assim, eu acho que eles esqueceram o quão exótico este mundo ainda pode ser.

O mito da Atlântida perdida foi abordada de maneiras diferentes dentro da literatura de fantasia e da Ficção Científica. Jules Verne escreveu sobre isso em 20 Mil Léguas Submarinas, e até mesmo Jacques Cousteau fez uma expedição para encontrá-la. Apesar de muitos escritores não apreciarem o caráter místico que essa história envolve
, como o mito vem influenciando o gênero da Ficção Científica?

Eu acho que a Atlântida é um mito muito importante para a Ficção Científica e para a literatura fantástica_ não apenas nas histórias sobre a água_mas em todas as histórias que voltam-se para a questão da exploração arqueológica. A Ficção Científica desde o seu início fala sobre as histórias de mundos perdidos. William Burroughs escreveu um monte delas, assim como Jules Verne. O mito não surgiu no meu trabalho, embora eu esteja escrevendo sobre um mundo perdido na série Diving Universe (ainda não publicado no Brasil). Nesta série falo sobre uma exploradora que é uma espécie de caçadora de naves perdidas_ algo parecido com o caçadores de tesouros de navios naufragados_ que lida com um clima próximo ao das histórias já escritas sobre a Atlântida. Eu não estou falando sobre este mito em si, mas ele é uma grande influência no gênero da FC como um todo.

Na maioria das narrativas atuais os oceanos são alienígenas ou mares de outro planetas. Você acredita que a água será sempre um paradigma para existência de vida fora da Terra?

Primeiro, os seres humanos são feitos, principalmente, de água. Então entendemos melhores as criaturas que possuem uma constituição parecida com a nossa. E é sobre seres assim que preferimos escrever. Há muito venho me queixando de que os seres extraterrestres da FC não são alienígenas
o suficiente. Temos criaturas nesta Terra mais aliens do que os próprios seres imaginados em qualquer romance sci-fi. E não acho que isso aconteça só na literatura. A ideia de pensar na vida inteligente sempre sobre a perspectiva de um humanóide permeia a ciência também. Os cientistas acreditam que a vida só pode existir em dois níveis: só existe vida na terra ou ela existe fora, mas tem que ser parecida com a que temos aqui. Na década de 1960, o seriado Star Trek teve um episódio sobre uma forma de vida baseada em um mineral que fez com que a tripulação da Enterprise não a reconhecesse porque achavam quer era uma pedra apenas. Esse episódio me marcou para sempre. Mas acho que isso está começando a mudar agora. A água é importante, mas não pode ser o único referencial para a existência da vida.

Ao longo da história do gênero da Ficção Científica, muitos autores fizeram previsões sobre o futuro ou sobre invenções que estão agora no nosso dia a dia. É possível falar, neste contexto, de alternativas imaginadas para a preservação da Terra que poderão se tornar realidade?

Ao longo dos meus muitos anos como escritora, tenho tido a sorte de conhecer muitos cientistas que se disseram influenciados pela FC. O que eu aprendi com eles é o seguinte: se podemos imaginar qualquer coisa, tudo pode ser inventado. Então eu acho que é imperativo que nós escritores continuemos a dar asas a imaginação para inventar soluções ou mecanismos para resolver, inclusive, os problemas ligados ao meio ambiente. Inevitavelmente, vai chegar alguém com uma mente científica / mecânica para descobrir como fazer a ideia tornar realidade. Estou escrevendo para você em uma máquina que não existia quando eu nasci, e estamos nos comunicando de uma forma que quando eu era uma criança não passava de FC, mas muitos escritores já tinham-na imaginado. Isso precisa acontecer no âmbito das soluções para os problemas ambientais também.

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