20 mil léguas fictícias

Das selvas submarinas com lulas gigantes e tubarões anabolizados até a indústria de exploração da água e as catástrofes ambientais, a saga da literatura de ficção científica sobre o fundo do mar

Crédito: Nina Gazire

N° Edição: 5

Publicado em: 23/06/2012

Categoria: A Revista, Reportagem

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Júlio Verne (1828-1905) escreveu mais de 40 livros e fundou a ficção cientifica sobre as viagens pelo espaço. O livro Viagem à Lua é um de seus trabalhos mais conhecidos, mas talvez a produção mais visionária do escritor francês tenha sido 20.000 Mil Léguas Submarinas, de 1870, e que não tem nada a ver com viagens espaciais. Tão desconhecidos quanto o universo eram os oceanos. Sobre eles o escritor narrou a jornada guiada pelo Capitão Nemo, que comandava uma embarcação submergível movida a energia elétrica, antes nunca imaginada. O Náutilus de Júlio Verne foi o primeiro submarino pensado na história e posteriormente tornou-se uma realidade que desempenhou papel crucial durante os períodos das grandes guerras do século 20.

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O clássico 20 mil Léguas Submarinas, escrito por Júlio Verne em 1870, ganhou versão cinematográfica em 1954, dirigida por Robert Fleischer e estrelada por Kirk Douglas (Fotos: Reprodução)

Júlio Verne (1828-1905) escreveu mais de 40 livros e fundou a ficção científica sobre as viagens pelo espaço. O livro Viagem à Lua é um de seus trabalhos mais conhecidos, mas talvez a produção mais visionária do escritor francês tenha sido 20.000 Mil Léguas Submarinas, de 1870, e que não tem nada a ver com viagens espaciais. Tão desconhecidos quanto o universo eram os oceanos. Sobre eles o escritor narrou a jornada guiada pelo Capitão Nemo, que comandava uma embarcação submergível movida a energia elétrica, antes nunca imaginada. O Náutilus de Júlio Verne foi o primeiro submarino pensado na história e posteriormente tornou-se uma realidade que desempenhou papel crucial durante os períodos das grandes guerras do século 20.

Mas a verdade é que demorou muito para as águas inundarem as páginas da ficção científica. Foi só na década de 1950, muito depois de Verne, que elas voltaram a ocupar com destaque o gênero literário. O marco foi The Undersea Trilogy (Trilogia Submarina), de 1954, dos escritores americanos Frederik Pohl e Jack Williamson, que contava as aventuras de uma frota de exploradores marinhos formados por uma espécie de academia naval localizada em uma cidade no fundo do mar. Se em 20.000 Mil Léguas Submarinas os mares eram perscrutados como uma selva virgem, na trilogia de Pohl e Williamson a paisagem marinha era problematizada a partir de questões como a colonização do fundo dos oceanos e a exploração de seus recursos naturais. Ainda assim, serpentes e monstros marinhos dividiam o cenário com histórias detetivescas lideradas pelo herói Jim Eden.

Contudo, é importante notar que a referência ao imaginário do fundo do mar como selva inexplorada é uma constante hoje na ficção científica cinematográfica e televisiva. No início da década de 1990, o diretor Steven Spielberg produziu a série de tevê SeaQuest, que narrava a história da tripulação de um submarino que era uma espécie de descendente do Náutilus de Júlio Verne. Além de explorar os potenciais recursos dos oceanos, a tripulação do SeaQuest protegia as colônias subaquáticas fundadas após um conflito mundial. A ação se passa no ano de 2032, e a série foi ao ar de 1993 a 1996. Todos os capítulos começavam com a narração de Nathan Bridger, o capitão do submarino: “Século 21. A humanidade colonizou as últimas regiões inexploradas na Terra, o oceano!” Diga-se de passagem que o capitão Nathan era interpretado pelo falecido Roy Scheider, o mesmo ator protagonista dos dois filmes da franquia Tubarão (Jaws), também dirigida por Spielberg. Nesse clássico do terror oceânico, Scheider caçava pelos mares um tubarão anabolizado que destruía embarcações e devorava pessoas com apenas uma bocada.

Do fundo do mar

Polvao

No campo da literatura, dentro do circuito das novas gerações, o tema dos oceanos ainda parece chamar atenção. Kristine Kathryn Rusch, escritora e uma das roteiristas da série Star Trek, trata do assunto em sua série The Diving Universe, iniciada em 2009, que lança para um universo futuro as viagens de caçadores de tesouros e navios piratas da literatura do século 19.

Para a autora, a justificativa da presença ainda desproporcional de histórias sobre os oceanos na ficção científica reside sobre a falta de autores interessados no assunto. “Muitos autores escreveram sobre os mares, como Herman Melville. Eu gostaria de ver mais histórias do ponto de vista científico, mas os mergulhadores e oceanógrafos que conheço são muito aventureiros para sentar e escrever”, disse Kathryn Rusch em entrevista à seLecT.

Mas nem só de hard sci-fi (narrativas que se apropriam com muita fidelidade das teorias científicas) as histórias são feitas. Grande parte da diversão nesse gênero está em imaginar o improvável – mas com alguma chance, nem que mínima, de acontecer. Nesse quesito os monstros marinhos, alienígenas ou não, são um espetáculo à parte. O Kraken, lula gigante que nas histórias escandinavas destruía os navios e embarcações no Atlântico Norte, reaparece repaginado no livro The Deep Range (Faixa de Profundidade), de 1957, do respeitado Arthur C. Clarke, também responsável por 2001 – Uma Odisseia no Espaço. The Deep Range traz uma narrativa em que um monstro marinho semelhante à lula mítica é descoberto.a

Outro mito que invade a produção literária é a lenda da cidade perdida de Atlântida. Descrita originalmente como uma potência naval por Platão, por volta do século 5o a.C., há pouco consenso sobre sua veracidade, a não ser o fato de ter sido uma ilha que foi destruída. Muitos autores a imaginaram como uma civilização submersa e outros que suas ruínas estariam perdidas no fundo mar, guardando tesouros inestimáveis. Até mesmo os tripulantes do Náutilus, em uma de suas viagens em 20.000 Mil Léguas Submarinas, teriam avistado as ruínas de Atlântida. Séries televisivas como The Man of Atlantis (O Homem do Fundo do Mar), de 1977, abordaram o tema sob a perspectiva científica, onde um homem anfíbio emergia da cidade perdida.

Planeta Água

Estatua

Se, na primeira metade do século 20, novas descobertas científicas sobre o espaço influenciaram a popularização de publicações e revistas, como a Amazing Stories (Histórias Surpreendentes) – dedicada inteiramente à publicação de contos do gênero –, foi somente a partir da década de 1960 que os oceanos e a questão da água como recurso de subsistência entraram na pauta. Nessa época, inúmeros autores começaram a se preocupar com questões ligadas à ecologia e à preservação dos recursos naturais.

Em The Drowned World (Mundo Inundado), escrito por J.G. Ballard em 1962, os continentes norte-americano e europeu submergem depois do derretimento das calotas polares. A história tem como protagonista o biólogo Dr. Robert Kerans, que luta contra as hostilidades ambientais causadas pela catástrofe climática. Gêneros mais recentes como Steampunk – cujas obras são retratadas de acordo com a estética vitoriana dos tempos da Revolução Industrial britânica – também têm se dedicado a realizar uma produção que esteja concatenada com as causas ambientais. “A ideia é levar a sério o bordão punk do ‘faça você mesmo’ e buscar soluções para os problemas ambientais”, explica o catarinense Romeu Martins, jornalista e escritor do gênero Steampunk.

O escritor britânico Alastair Reynolds, autor da série Revelation Space, abandonou suas histórias transcorridas em planetas longínquos para publicar a trilogia Poseidon’s Children (Crianças de Poseidon), em 2012. No primeiro livro da série, Remembered Blue Earth (Terra Azul Relembrada), o autor descreve um futuro utópico em que o continente africano surge como uma rica potência política e tecnológica. Questões como o meio ambiente e a influência dos negócios de uma rica família queniana e a indústria de exploração da água não ficam de fora. “Acho provinciano quando especialistas dizem que a África nunca será um continente desenvolvido. O título da série Poseidon’s Children, que se refere ao deus dos mares na mitologia grega, fala justamente sobre essa capacidade que os africanos têm de sobreviver às secas, inundações e tempestades”, explica Reynolds em entrevista à seLecT. Com previsões improváveis ou não, seu exemplo é uma contrapartida para um campo da literatura que durante muito tempo se contaminou com teorias pessimistas e menosprezou a importância da água para a espécie humana. Sem ela não chegaríamos nem na estratosfera.

*Publicado originalmente na #select5. Colaborou Fábio Fernandes.

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