6 por meia dúzia

Juliana Monachesi

Publicado em: 07/10/2011

Categoria: Da Hora, design

Seis objetos cujo design permanece clássico e imutável

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Paradas na linha do tempo da criatividade, as mais fossilizadas invenções da humanidade estão entre os produtos que os executivos da indústria chamam de “categoria dos pouco pensados”. Mas isso não significa que sejam ótimos do jeito que estão. O vaso sanitário, a gravata e a roda estão longe de ser razoavelmente satisfatórios. Por que ainda não inventaram um guarda-chuva impossível de ser perdido?

A indústria da iluminação recuperou o ânimo criativo, letárgico desde Thomas Edison (1879), com o anúncio de que a lâmpada incandescente será banida até 2012 nos Estados Unidos (no Brasil, a meta é acabar com o item ecologicamente incorreto até 2016). Nos últimos meses, dispositivos emissores de luz estão sendo virados do avesso em busca do Santo Graal da iluminação: o substituto definitivo da lâmpada de filamento. Por que não fazem o mesmo por alguns clássicos involuntários do design?

Quem apertou meu tubo de pasta de dente bem no meio?

Aos pintores impressionistas devemos não apenas a invenção da arte moderna. Não fosse pela prática da pintura plein air com bisnagas descartáveis de tinta e estaríamos tirando nossa pasta de dente de canhestros potes de vidro até hoje. Pasta de dente feita em casa foi regra até o fim do século 19, apesar de a invenção datar de 5.000 a.C., quando um manuscrito egípcio descreve uma mistura de mirra, pedra-pomes, cinzas de casco de boi, casca de ovo, concha de ostra e outros abrasivos suaves para aplicar com o dedo. Para refrescar o hálito, os romanos adicionaram à mistura original carvão, casca de árvore queimada e condimentos.

No século 18, o bicarbonato de sódio (abrasivo mais comum nas pastas até hoje) já era a base da receita dos cremes dentais. No início do século 19, a glicerina foi adicionada para transformar o dentifrício em uma pasta palatável (ainda o principal umectante utilizado na fabricação de qualquer creme dental). Em 1873, a pasta de dente começou a ser fabricada em larga escala. O doutor Washington Sheffield, de Connecticut, nos EUA, foi quem inventou o tubo dobrável para embalar o produto, em 1892. A ideia foi importada de Paris, onde seu filho Lucius estudava, e se inspirou nos tubos de metal em que as tintas eram comercializadas. Durante a Segunda Guerra Mundial, soldados americanos trouxeram da Europa a novidade, difundindo a cultura da higiene bucal nas Américas.

Será que não dá pra fazer um pneu que não fure?

De Duchamp a Allan Kaprow, passando por Richard Prince, para quem pneus são os ícones do american way of life, muitos artistas já reinventaram a roda. Nenhum deles desfez a grande dúvida: quem nasceu primeiro, a roda ou o carro? A teoria mais aceita sobre a invenção da roda é que ela e o carro foram desenvolvidos simultaneamente por volta de 3.500 a.C., pelos mesopotâmios, com base em trenós com trilhos puxados sobre troncos.

Entre as obras de infraestrutura para habilitar o Brasil a receber a Copa do Mundo em 2014, nenhuma é mais candente do que a ampliação dos sistemas sobre trilhos, do metrô ao VLT. Com cidades intransitáveis e serviços igualmente dependentes da roda, considerando que 90% de todo e qualquer produto consumido no estado de São Paulo chega às gôndolas graças ao transporte rodoviário, é de se questionar por que ainda não houve imaginação criadora capaz de nos tornar menos dependentes dessa mais que paradigmática invenção humana?

Quando o guarda-chuva vai sair do chove-não-molha?

Os palácios de Nínive, capital da Mesopotâmia durante o apogeu do Império Assírio, são coalhados de esculturas em baixo-relevo, representando cenas de batalha e da vida cotidiana: ali está, sem tirar nem pôr, o moderno guarda-chuva. A única diferença é que era utilizado como sombrinha e não para se proteger da chuva, que na região (hoje Iraque) é e sempre foi muito rara. A invenção tem pelo menos 4 mil anos. De guarda-sol e item aristocrático a mercadoria de R$ 5 em qualquer esquina chuvosa do mundo, o guarda-chuva sofreu pouquíssimas alterações de design ao longo desses milênios.

O ritual mais nobre de todos os tempos

Recentemente, a revista Time elaborou uma lista das top ten toilets de todos os tempos: além dos suspeitos usuais – o urinol de Duchamp, o cenário da morte de Elvis Presley e a escatológica cena de Trainspotting, em que o ultraviciado protagonista (Ewan McGregor) mergulha de cabeça no pior vaso sanitário da Escócia atrás de um supositório de ópio–, a lista menciona o banheiro espacial da Nasa, o escândalo envolvendo o senador Larry Craig em um (hoje famoso) banheiro no aeroporto internacional Saint Paul, em Minneapolis, e o sanitário multifuncional Toto, fetiche de estrelas hollywoodianas e item recorrente nos lares japoneses (72%).

Invenção de pelo menos 4,5 mil anos, de quando datam achados arqueológicos no Vale do Indo que localizaram um sistema de sanitários com encanamento e água corrente, os banheiros públicos foram regra indiscutível até a invenção, pelo afilhado da rainha Elizabeth I, Sir John Harrington, do sanitário privado, em 1596. Foram necessários outros 200 anos até que a primeira patente fosse registrada por Alexander Cummings, em Londres, em 1775, e a produção em série começasse. O primeiro vaso nosso de todos os dias (de cerâmica) data de 1885.

Mania de se enforcar

Umberto Eco já afirmou que dar o nó na gravata pela manhã é como fazer uma opção ideológica. Ideologia à parte, o ritual diário do nó em volta do pescoço é, sem dúvida, dos mais antigos códigos da liturgia que alicerça essa estranha entidade de classe que são os homens. Patti Smith que o diga. Quem visitou a mostra Guerreiros de Xi’an e os Tesouros da Cidade Proibida, na Oca, em São Paulo, em 2003, deve ter reparado no cachecol com nó em volta do pescoço dos soldados de terracota que datam de 200 a.C.

O precursor da gravata dos nossos tempos era figurino corrente na China do imperador Qin Shi Huangdi, assim como entre os egípcios, mas seu advento no Ocidente é atribuído ao impacto que o acessório dos mercenários croatas causou no obcecado por luxo rei Luís XIV (que não saía da cama sem seu salto alto). Cravate, em francês, seria uma corruptela de croate.

Menino veneno

O primeiro registro iconográfico conhecido do ato de fumar é um vaso de cerâmica datado de antes do século 11, que retrata um cidadão maia fumando um rolo de folhas de tabaco amarradas com um laço. Teriam sido alguns dos marinheiros de Cristovão Colombo que, após se depararem com indígenas Arawak e Taino fumando, adotaram o hábito e terminaram por espalhá-lo mundo afora. Entre os incontáveis usos do tabaco ao longo da história, de moeda corrente nas colônias – cujo status de padrão monetário ao longo dos séculos 16 a 18 durou duas vezes mais que o padrão-ouro – a medicamento, sua função recreativa é objeto de eternas disputas.

Na Turquia, em 1647, chega a ser banido por se associar ao vinho, ao café e ao ópio como uma das quatro “almofadas no sofá do prazer”.No século 17, inúmeras leis são promulgadas proibindo o fumo por completo ou nas proximidades de casas, celeiros e plantações: nenhuma histeria avant la lettre de uma protogeração saúde, a medida visava apenas evitar incêndios. No século 20, o cenário de ataques, defesas, regulamentação governamental e cerceamento das liberdades ganha tons dramáticos e, claro, vira roteiro de cinema, como em Obrigado por Fumar e O Informante.

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