Ai Weiwei: Crise humana

Artista, arquiteto, documentarista e ativista, o dissidente chinês Ai Weiwei fotografa compulsivamente e usa a rede social Instagram para mostrar os campos de refugiados, assunto principal de sua obra nos últimos dois anos

Márion Strecker
Site specific realizado para a exposição Law of the Journey, em cartaz até 7/1/2018 na Galeria Nacional de Praga (Foto: Genevieve Hanson/ Cortesia Jeffrey Deitch Inc.)

Desde que recuperou o passaporte, em julho de 2015, o chinês Ai Weiwei (1957) instalou-se com a família em Berlim e deu início a viagens para campos de refugiados na Europa e no Oriente Médio, tema central em seu trabalho atual. Em 2011, ele havia ficado 81 dias preso sem acusação formal, depois sofreu um processo por evasão de divisas e ficou quatro anos detido em Pequim, sem passaporte.

Tirando o atraso, nos últimos dois anos visitou campos de refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia, na fronteira da Macedônia, na Turquia, no Líbano, na Síria e na Jordânia. Fez milhares de fotografias, parte delas publicada em seu Instagram (@aiww), mostrando as agruras e o cotidiano dos que tentam entrar na Europa. Seu Instagram tinha 312 mil seguidores até o fechamento desta edição. Nas viagens, ele coleta materiais para obras de impacto que está inaugurando em vários países da Europa e nos EUA. Faz também performance, como quando se deixou fotografar de bruços, à beira-mar, na mesma posição em que o menino sírio Aylan Kurdi foi encontrado morto numa praia da Turquia, em 2015. Ele entende bem o poder da imagem. Já disse que costuma tirar até 500 fotos por dia, nem todas autorizadas.

  • Fotos reproduzidas do Instagram de Ai Weiwei com o making of de obras, cenas das viagens a campos de refugiados na Europa e no Oriente Médio e recordações afetivas (Fotos: Instagram @aiww)

 

A temática política e a defesa dos direitos humanos já estavam presentes em sua obra há muito tempo. Crítico ao governo chinês, ele havia investigado corrupção e falsidades em seu país, em particular no caso do desabamento das “escolas de tofu” em Sichuan, no terremoto de 2008. “Construções de tofu” é o nome que os chineses dão a edifícios frágeis, que podem desabar a qualquer momento. Muitos denunciaram que as escolas haviam sido construídas com material de baixa qualidade, enquanto o dinheiro corria para os bolsos de construtores e autoridades. Só nas “escolas de tofu” morreram 5.335 crianças no dia do terremoto, segundo dados oficiais do governo chinês divulgados um ano depois da tragédia. Muitos eram filhos únicos, nascidos sob a rígida política de controle da natalidade.

Ai Weiwei visitou os locais da tragédia e passou a fazer o que o governo não estava realizando naquele momento: coletar nomes, idade, gênero, escola, local da morte e contato dos familiares de cada estudante morto. Publicava tudo em um blog, posteriormente censurado. Em 2009, quando tentou testemunhar no julgamento de um ativista que denunciava a corrupção na construção dessas escolas, levou uma surra. Várias obras de arte surgiram em consequência, como instalações com as mochilas das crianças ou com os vergalhões retorcidos retirados das escolas.

Extremismos
Weiwei é filho do prestigiado poeta chinês Ai Qing (1910-1996), ele também preso político em mais de uma ocasião. Em 1957, Qing foi acusado de “direitismo” pelo governo comunista e mandado para a Manchúria. Em 1959, quando Weiwei tinha 1 ano, Qing foi transferido com a família para um campo de trabalho no Deserto de Gobi e por cinco anos foi forçado a lavar os banheiros públicos da vila. A temporada forçada durou 16 anos. Com o fim da Revolução Cultural, em 1976, a família voltou a Pequim.

Fotos reproduzidas do Instagram de Ai Weiwei com o making of de obras, cenas das viagens a campos de refugiados na Europa e no Oriente Médio e recordações afetivas (Foto: Instagram @aiww)

 

Um dos trabalhos de Ai Weiwei cujas imagens rodaram o mundo foi Dropping a Han Dynasty Urn (1995). O artista foi fotografado deixando cair propositalmente uma cerâmica de 2 mil anos atrás, numa referência à destruição deliberada de edifícios históricos e objetos durante a Revolução Cultural maoísta. Ele usou esse tipo de cerâmica em outros trabalhos, inclusive pintando sobre um vaso o logotipo da Coca-Coca.

Ai Weiwei estudou animação na Academia de Cinema de Pequim. De 1981 a 1993, morou nos Estados Unidos, parte na Califórnia, parte em Nova York, onde conheceu, entre outros, o poeta Allen Ginsberg, que já era muito amigo de seu pai. Foi em Nova York que Weiwei desenvolveu a mania de fotografar tudo o que via ao redor.

Embora sem educação formal em arquitetura, tornou-se um arquiteto reconhecido dentro e fora da China, depois que projetou seu próprio ateliê e passou a ser chamado para projetar outras edificações. Foi colaborador dos arquitetos suíços Herzog & de Meuron no projeto do Ninho de Pássaro, o Estádio Nacional de Pequim construído para as Olimpíadas de 2008.

O período de sua prisão em 2011 foi retratado na instalação, S.A.C.R.E.D. (2013), mostrada no interior da Igreja de Sant’Antonin, em Veneza, durante a 55ª Bienal. Vários contêineres mostravam cenas do cotidiano do artista quando preso, como no banho ou ao dormir, sempre acompanhado de uma dupla de militares. O visitante podia espiar cada uma das cenas por frestas.

  • Laundromat (2016), Ai Weiwei (Foto: Genevieve Hanson/ Cortesia Jeffrey Deitch Inc.)
  • Fotos reproduzidas do Instagram de Ai Weiwei com o making of de obras, cenas das viagens a campos de refugiados na Europa e no Oriente Médio e recordações afetivas (Fotos: Instagram @aiww)

 

Salva-vidas
No ano passado, na galeria Deitch Projects, em Nova York, o artista mostrou Laundromat, com roupas e sapatos deixados para trás em campos de refugiados na fronteira da Grécia com a Macedônia. As peças foram respeitosamente recolhidas e lavadas, antes de virar arte.

Outro trabalho que ele inaugurou em 2016 é F. Lotus, com 1.005 coletes salva-vidas boiando num espelho d’água do Palácio Belvedere de Viena. Ele já havia posto 14 mil coletes salva-vidas nas colunas de um teatro em Berlim. Teriam sido deixados 500 mil coletes salva-vidas usados em Lesbos.

  • Fotos reproduzidas do Instagram de Ai Weiwei com o making of de obras, cenas das viagens a campos de refugiados na Europa e no Oriente Médio e recordações afetivas (Fotos: Instagram @aiww)

Este ano, Ai Weiwei inaugurou a exposição Law of the Journey na Galeria Nacional de Praga, que ficará em cartaz até 7/1/2018. Ali ele fez um site specific enorme em plástico inflável preto. Um bote de borracha em escala monumental aparece suspenso com mais de 300 refugiados com coletes salva-vidas, fugindo da violência e do perigo. Para agravar o sentido da obra, é preciso dizer que o local da exposição tem um valor simbólico. Entre 1939 e 1941, serviu à deportação de judeus para o campo de concentração de Terezín.

A partir de 3/6, outros trabalhos de Ai Weiwei poderão ser vistos em Austin, Texas, nos EUA. A galeria Lisson, sediada em Londres, uma das que representam o artista, vai emprestar Forever Bicycles (2014) e Iron Tree Trunk (2015) para o programa Museum Without Walls, uma colaboração entre The Contemporary Austin e Waller Creek Conservancy. Forever Bicycles usa mais de 1.200 bicicletas e ficará junto a uma ciclovia. Iron Tree Trunk, que parece uma enorme árvore morta, vai para um parque de esculturas.

Ai Weiwei sempre diz que não pensa no antes nem no depois, quando publica alguma coisa. A sede de se comunicar livremente o tempo todo veio em contraponto à censura da qual ele, seu pai e tantos concidadãos foram e são vítimas. Na crise dos refugiados, ele nota que perdemos nossos valores mais básicos. A crise é humana. A crise é de humanidade. Nesses tempos incertos, ele prega tolerância, compaixão e confiança no outro.

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