Alma Ruiz

A curadora guatemalteca fala sobre a situação da arte latino-americana nos Estados Unidos e sobre sua experiência profissional

Ana Avelar
Alma Ruiz, curadora guatemalteca especializada em arte latino-americana (Foto: Myles Pettengill)

Nesta entrevista, a curadora guatemalteca Alma Ruiz, especializada em arte latino-americana, que atuou no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (MOCA) por mais de 30 anos, conversa com a historiadora da arte Ana Avelar sobre sua experiência profissional nos Estados Unidos. Alma aponta como a arte latino-americana ainda sofre com estereótipos por lá e conta quais foram suas próprias soluções para contornar o preconceito. Diante do cenário atual, ela acredita que a pesquisa norte-americana nessa área tem se aprofundado nos últimos anos. Segundo a curadora, grandes museus e universidades norte-americanos vem conferindo a profissionais latino-americanos cargos importantes. “Eles estão em uma posição invejável para fazer mudanças de dentro e estão efetivamente indo atrás delas”, diz Alma Ruiz. A seguir, confira trechos da entrevista.

seLecT – Conte-nos sobre como você começou a curar exposições de arte latino-americana. Como era esse campo de atuação?

Alma Ruiz – Comecei a realizar curadorias de artistas latino-americanos em 1996. O MOCA estava muito interessado em integrar artistas da região como parte do seu programa de exposições. O diretor achava que um curador latino-americano que falasse espanhol fluentemente e que fosse familiarizado com o continente deveria ser a pessoa para essa função. Naquela época, o campo era minúsculo; as mostras sobre o tema eram raras e muitas lidavam com questões raciais, exotismo e tropicalismo como um emblema desse tipo de arte. Não havia museus, nos Estados Unidos, interessados de fato em aprofundar o seu entendimento sobre o assunto. O MOCA tentou criar uma parceria, convidando um museu do Centro-Oeste e outro da Costa Leste que pudessem colaborar regularmente com a organização e com o intercâmbio de exposições de Arte Latino-americana, mas não houve resposta.

Como você vê a categorização da arte latino-americana nos EUA? Isso impacta seu próprio trabalho?

Apesar do fato de muitos museus dos EUA terem aproveitado a lacuna e estarem expondo ativamente, a arte e os artistas latino-americanos, fora dos principais centros cosmopolitas, ainda são vistos a partir de estereótipos. Mesmo curadores com as melhores intenções podem cair nessa armadilha.

Quando curava exposições e projetos de artistas latino-americanos no MOCA, evitava a categorização apresentando títulos de exposição que não incluíssem as palavras “América Latina ou arte latino-americana” neles e reforçando o lugar do artista na arte contemporânea em geral e menos dentro do contexto de um país ou região. Eu pensava que se referir ao artista como um artista contemporâneo e não como um artista mexicano ou um artista brasileiro era poderoso.

Quais são os principais temas que interessam a você hoje? Em relação aos teóricos contemporâneos, historiadores da arte e artistas, o que você tem lido e visto?

No último ano, tenho lido muito sobre práticas curatoriais e curadoria de exposições. Estou relendo alguns textos antigos e descobrindo outros novos. Por exemplo, tenho lido entrevistas que Carolee Thea conduziu com curadores internacionais em seus três livros publicados em 2001, 2009 e 2016. Meu foco são entrevistas com curadoras mulheres, como Nancy Adajania, Carolyn Christov-Bakargiev, RoseLee Goldberg, Yuko Hasegawa, Mária Hlavajová, Rosa Martínez, Virginia Perez-Ratton e Bibi Silvia, em sua filosofia e processos curatoriais. Outro livro que atualmente estou lendo é Show Time: The 50 Most Influential Exhibitions of Contemporary Art (ainda sem tradução para o português), de Jens Hoffmann. A seleção é bastante internacional e abrange desde os anos 1989 até 2016. Além de inovadoras exposições de museus, a seleção também inclui bienais e grandes iniciativas internacionais como a Documenta. A perspectiva latino-americana também é necessária. Exposiciones de Arte Argentino y Latinoamericano, de María José Herrera e um grupo de estudiosos argentinos, é uma adição valiosa ao tema. Recentemente, comprei Primary Documents, de Mário Pedrosa, tradução recentemente publicada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA). Sou familiarizada com Pedrosa como crítico de arte, filósofo, historiador, mas estou intrigada pelo seu trabalho como diretor de museu.

Em relação às exposições, tento ver o máximo que posso, tanto em museus, quanto em galerias comerciais. A cena de Los Angeles cresceu tremendamente, e não é mais viável ver tudo, mas tento. O ano de 2017 será excepcional para Los Angeles uma vez que o tão esperado projeto da Getty Foundation, Pacific Standard Time: Los Angeles/Latin American, começará em setembro.

O que você pensa sobre as pesquisas atuais sobre arte latino-americana nos Estados Unidos?

A pesquisa sobre arte latino-americana tornou-se mais acadêmica, mais séria. Existem agora estudiosos e profissionais de museu que nasceram e cresceram na América Latina e que ocupam cargos importantes nos principais museus e universidades de prestígio. Eles estão em uma posição invejável para fazer mudanças de dentro e estão efetivamente indo atrás delas. O MOCA, o MOMA, o Museu de Belas Artes (Houston) e o Perez Museu (Miami) fizeram e têm feito um trabalho excelente em suas exposições seminais de arte latino-americana. Os acadêmicos estão incorporando a arte latino-americana em seus cursos de história da arte.

As fundações também estão intensificando seu apoio em pesquisas acadêmicas. A Coleção Patricia Phelps de Cisneros, em Nova York, desempenhou um papel transformador na forma como o público americano enxerga a arte latino-americana hoje. A coleção viajou para muitas cidades da Europa, Estados Unidos e América Latina, muitas vezes acompanhada por um catálogo acadêmico. Ela possui um departamento de publicações muito dinâmico, um programa de subsídios e, mais importante, a instituição entende que a divulgação de informações em inglês é essencial, e atua efetivamente por meio de pesquisas, seminários, diálogos, exposições, publicações e mídias sociais. A Patricia Cisneros está no conselho do MOMA e, como tal, contribuiu para o financiamento de exposições e forneceu inúmeras obras à coleção. Ano passado, ela anunciou a doação de quase 150 obras de arte moderna latino-americana ao Museu. O presente também compreende o estabelecimento de um instituto de pesquisa, o qual irá ajudar a reconhecer as contribuições da América Latina à história da arte moderna e contemporânea. É fundamental que os patrocinadores deem seu apoio às instituições americanas porque eles possuem um entendimento mais profundo sobre quais mudanças são necessárias. Outras fundações estão seguindo esse modelo agora.

Conte um pouco sobre a experiência em curar a Bienal de Guatemala. Quais foram os desafios?

Curar a 20ª Bienal de Arte Paiz, na Cidade de Guatemala, em 2016, foi uma oportunidade emocionante. Eu nasci e cresci lá, então essa Bienal foi como um retorno à casa para mim. A Bienal foi fundada pela Fundación Paiz para la Educación y la Cultura, em 1978, e tem sido o evento de arte de maior frequência na história cultural do país, uma façanha que não é pequena para um país que não possui um museu de arte contemporânea. A Bienal é uma grande oportunidade para que artistas locais se envolvam com artistas internacionais. Entretanto, meu maior desafio foi organizar uma bienal internacional com um orçamento que não concedia transporte internacional, encaixotamento e seguro. A solução foi encontrar um tema que passasse por cima dessa limitação. Intitulada Ordinário/Extraordinário: A Democratização da Arte ou A Vontade de Mudar as Coisas, a Bienal focou na relação entre a arte e o público. Selecionando artistas cujos trabalhos podiam ser tocados, manuseados ou criados no local, organizei uma exposição dinâmica em que, com poucas exceções, a maior parte das obras eram efêmeras. Muitas eram interativas: os visitantes escalavam as estruturas, levavam para casa pôsteres de Felix Gonzalez-Torres e eram surpreendidos ao perceber que, sem ter conhecimento, estavam sendo o principal sujeito da narrativa de Dora García. A Bienal durou um mês, de 2/6 a 3/7, e contou com 33.165 visitantes. Houve outros desafios, como não ter uma ampla equipe de profissionais, mas os voluntários trabalharam duro e com entusiasmo para fazer da Bienal um sucesso.

Qual a sua opinião sobre a última Bienal de São Paulo?

A Bienal de São Paulo e a Bienal de Veneza são duas exposições internacionais que vejo regularmente, então estou contente que pude viajar para o Brasil para a Incerteza Viva, de Jochen Volz, ano passado. Achei que a 32ª Bienal foi uma exposição um pouco subestimada, bem instalada e não demasiado grande. Mas o que eu mais apreciei nessa edição foi o que acredito ser um esforço para mostrar novos artistas e mitigar aqueles já bem conhecidos, um esforço digno que deve ser reproduzido com mais frequência. Só consigo pensar em dois artistas – Francis Alÿs e Pierre Huyghe – que seriam reconhecidos por todos os curadores de arte contemporânea hoje. Dos 81 artistas incluídos, eu não era familiarizada com quase dois terços, o que tornou minha visita muito mais envolvente. Parece que Volz e sua equipe curatorial tomaram o tempo para pesquisar, visitar os estúdios de artistas e fazer sua seleção tentando se manter próximos ao tema da bienal.

Você recentemente deixou o MOCA para se tornar uma curadora independente. Quais são as diferenças e desafios nessa área?

Sim, deixei o MOCA em 2015 para me tornar uma curadora independente e explorar outros interesses. Como curadora institucional, eu era uma insider e podia sempre contar com todo o museu para me ajudar na realização de meus projetos. Conhecia bem a equipe e confiava na sua expertise para qualquer coisa que precisasse conseguir. Como curadora independente, sou uma outsider; nem sempre conheço as pessoas com quem tenho que trabalhar e nem tudo está garantido. Minha posição é de ganhar a confiança deles para que nós possamos trabalhar bem juntos e realizar o projeto.

Como você acha que será o futuro da curadoria de arte latino-americana nos EUA?

Essa é uma pergunta difícil, mas vital. Creio que tudo depende de se os museus estão interessados no assunto o suficiente para querer fazer reais investimentos financeiros e culturais nele – em outras palavras, se eles enxergam isso como parte do que eles são e do que eles fazem. Continuidade é fundamental e essa responsabilidade pode recair sobre o Conselho, o órgão regulador do museu. É responsabilidade do Conselho ser fiel à missão do museu e ao seu público.

Qual o seu próximo projeto?

Atualmente estou trabalhando em dois projetos. O primeiro é que como associada sênior do Centro de Gestão em Indústrias Criativas, um programa de pós-graduação administrado pelo Instituto de Arte da Sotheby’s, em colaboração com a Universidade de Claremont, estou completamente engajada em desenvolver um programa de mestrado de três semestres em arte e negócios, com o foco em arte latino-americana. Estamos desenvolvendo uma série de eventos, palestras, seminários, cursos e viagens de campo para expor os alunos a isso. Em segundo lugar, ainda estou muito interessada em curadoria, então estou em processo de elaboração de proposta para uma exposição histórica sobre abstração latino-americana. Essa é uma ideia que tem estado na minha mente por alguns anos, e está avançado para se tornar uma realidade.

* Tradução realizada por Marcella Imparato

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