Alvaro Seixas: mentalidade sádica

Ácidos e humorísticos, desenhos do artista carioca satirizam as relações perigosas do mundo da arte

Felipe Stoffa
Desenho Sem Título (Mind of the Artista), de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista e da Galeria Cavalo)
Desenho Sem Título (Mind of the Artista), de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista e da Galeria Cavalo)

Nas páginas do caderno de Alvaro Seixas, frases como “pare de pintar e comece a imprimir dinheiro”, “sexual studio visit” e “eu sou um dos mais relevantes artistas de minha geração segundo o release que eu mesmo escrevi”, juntam-se a uma profusão de desenhos que comentam o mundo em que ele atua.

Nascido no Rio de Janeiro em 1982, Seixas graduou-se em pintura pela UFRJ em 2006, e lá também cursou mestrado e doutorado. Desde 2015, atua naquela instituição como professor da graduação em artes visuais. Mas é no ofício da pintura que concentra seus esforços. “Alguns artistas acham que a academia engessa o trabalho, mas penso que isso é uma bobagem”, diz à seLecT.

Desenho de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista)

Desenho de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista)

 

Apesar de centrar sua produção na pintura, há cerca de dois anos ele descobriu uma forma de aliviar as tensões do dia a dia. Desenha incessantemente personagens, cenas e frases impactantes sobre as entranhas do sistema de arte, satirizando as relações entre curador, artista consagrado, artista jovem, e por aí vai. São situações que ele observa – em si mesmo e nos outros – e vivencia. “Os desenhos vieram da minha insatisfação com o meio de arte. Eu mesmo trabalhei como curador assistente para algumas exposições. Foram coisas que me deram bagagem crítica.”

Sua página do Instagram (@alvaroseixas) é seu portfólio virtual. É ali que sua produção de pinturas e desenhos é postada, formando uma espécie de museu pessoal. “Acho que o Instagram foi a melhor exposição do ano, um lugar que me abriu várias frentes, não comerciais, mas expositivas. Quem vai me impedir de postar?”, provoca.

Desenho de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista)

Desenho de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista)

 

Romântico maldito
O passatempo, que aos poucos tornou-se compulsivo, acabou por dar asas a uma nova persona de Alvaro Seixas. “Minha pintura sempre foi mais ligada à abstração e os desenhos são o lado B, um lado mais profano”, diz. “Em algum momento olhei para mim e percebi que pensava mais na obra do outro do que na minha própria. Quando comecei a aplicar essa raiva no desenho, aí acho que isso se tornou um trabalho.”

Ele calcula ter hoje mais de 2 mil ilustrações feitas em páginas soltas ou em cadernos guardados nas gavetas. Sem medo nem pudor de atacar a tudo e a todos, os trabalhos guardam distintas referências. Desde professores de seus anos de graduação até artistas nacionais e internacionais. Sobressaem como principais influências românticos “malditos” – palavra cara ao pintor –, como os escritores Lord Byron e Marquês de Sade.

Desenho de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista)

Desenho de Alvaro Seixas (Foto: Cortesia do artista)

 

Conversas de bar e fofocas que circulam pelo meio constituem farto material de criação para o artista. “Minha ideia é inserir um pouco de sadismo no meio da arte brasileira, que é muito dura e careta”, diz. É com essa mentalidade sádica que Seixas bebe do romantismo para fazer de seu desenho um dispositivo crítico e conceitual.

Mesmo que, pouco a pouco, a pintura de Alvaro Seixas vá ocupando espaços consolidados do tão criticado meio institucional – participou do Rumos Itaú Cultural 2008-2009, com curadoria de Paulo Sérgio Duarte, e ganhou o Prêmio Projéteis Funarte de Arte Contemporânea em 2012, por exemplo –, a despretensão de seus desenhos foi significante para repensar sua relação com seu contexto. “Tenho a pretensão de sempre tentar destruir o meio em que estou, no sentido teórico. Costumo brincar que minha meta é me divertir com a arte brasileira. É uma autocrítica, mas em uma era em que temos poucos manifestos pensei que poderia aplicar isso nos desenhos.”

É causando incômodo que Alvaro Seixas incita o debate, como um equilibrista inquieto, louco para ver o circo pegar fogo.

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