Anna Kahn: Contra a banalidade do mal

Fotógrafa carioca disseca mortes matadas e mortes morridas por balas perdidas em séries desconcertantes

Márion Strecker
Foto da série Sem Medo do Escuro (2017)

Anna Kahn nasceu no Rio de Janeiro em 1978. Aos 10, ela estava dentro de um ônibus em Copacabana quando viu alguém apontar uma arma para a cabeça de sua avó. Era um assalto. Roubaram a aliança do avô falecido. Muitos outros assaltos vieram depois, como vêm para todos nós, os brasileiros.

Dez anos depois do primeiro susto, seu único irmão, um ano mais velho, recebeu facadas na barriga durante a festa de réveillon e por pouco não morreu. Aos 22, ela levou um tapa ao reagir a um assalto, quando um bando de crianças e adolescentes fez um arrastão num ônibus da linha Botafogo-Alvorada. Quando correram para escapar, na saída do Túnel Dois Irmãos, um homem descarregou a arma sobre os meninos sem dizer nada. Os corpos bloquearam a entrada e a saída do ônibus. Anos depois, Anna Kahn escreveu: “O cheiro de sangue e morte nunca nos deixa”.

Foto da série Sem Medo do Escuro (2017)

 

Quando já vivia em Paris, numa temporada que durou de 1999 a 2007 e gerou uma filha, Anna Kahn deu início à série intitulada Bala Perdida. Ela vinha de um trabalho voluntário para a organização civil Médicos sem Fronteiras. Já era formada em Jornalismo pela PUC-RJ e havia estudado fotografia na School of Visual Arts, em Nova York.

“Bala Perdida parte de uma manchete de jornal de 2002, que dizia o seguinte: ‘A cada 6 dias uma pessoa morre vítima de bala perdida no Rio de Janeiro’. Olhando essas imagens agora parece simples. Mas naquela época eu não sabia como fazer. Eu ia e rondava esses lugares. Foi em Copacabana, por causa de uma grande tempestade, que fiz uma foto sem ninguém na praia. Aí eu entendi que o vazio humano é que dava a dramaticidade que eu queria para a imagem. Na verdade, um grande incômodo. Era esse sentimento que eu queria causar”, disse ela em entrevista à seLecT.

Carla, 21 anos, estudante de Minas Gerais. Em Copacabana, de férias, saindo de um táxi

 

A ideia preliminar de fotografar o lugar em que as pessoas morreram por bala perdida na hora exata em que a morte ocorreu caiu por terra. Ela abandonou essa preocupação e deu-se a liberdade de fazer todas as fotos durante a noite, em momentos em que os locais estavam efetivamente vazios. “Imagina”, diz ela apontando uma foto. “Isso aqui é a Avenida Brasil, uma das mais movimentadas da América Latina. Você não para o trânsito da Avenida Brasil. Mas nessa época em que fiz a foto, às 3 da manhã ninguém saía no Rio”, conta.

Os cenários vazios evocam a ausência da pessoa que morreu, o desconforto dos que ficaram, uma estranheza de algo que está faltando. “Aí incorporei essas luzes, algumas fotos são amareladas, outras são avermelhadas, porque também acho que dá uma unidade ao trabalho. Acho que a unidade é importante. Esse trabalho tem muita repetição. É uma repetição. Todas as pessoas que morreram, eu pesquisei, estavam em atividades extremamente banais, como indo para a escola, voltando para casa… No Rio, o paraíso e o inferno estão no mesmo lugar”, diz Anna Kahn.

Bruno, 19 anos, soldado. No Maracanã, perto do estádio onde ele veria um Fla-Flu

 

Reflexão sobre o abismo
Para a apresentação do trabalho, surgiram legendas secas, com o nome e a idade de quem morreu, o bairro onde estava e o que fazia quando a tragédia aconteceu. São pessoas de todas as idades, de crianças a aposentados. Muitos morreram no trajeto da escola, no ônibus, brincando na calçada ou saindo de um estádio de futebol. As mortes ocorreram (e ainda ocorrem) no Centro, na zona sul das novelas de televisão, ou nas periferias da cidade grande. Em suma, em qualquer lugar. A loucura dos tiroteios de bandidos ou mocinhos não respeita nenhuma geografia. Não respeita ninguém.

A série Bala Perdida foi exposta no Instituto Moreira Salles, no Rio, e em Paraty, durante o festival Paraty em Foco. Outra série mais recente de Anna Kahn, que seLecT apresenta nesta edição, foi intitulada Sem Medo do Escuro. O livro, que deve ser lançado neste mês de junho, teve seu projeto contemplado pelo Prêmio Marc Ferrez, da Funarte, em 2015. A proposta era fazer deslocamentos para dois lugares que Anna não conhecia. Lá, ela descobriria a história que iria contar.

Os lugares escolhidos foram Belém do Pará e Diamantina, cidade colonial no norte de Minas Gerais. Em Belém, Anna Kahn logo se deu conta do tráfico de pessoas, em particular o de mulheres com o principal objetivo de explorá-las na prostituição. “Um papelote de cocaína você vende uma vez só. Uma menina você vende 50, 100 vezes”, foi uma das lições que ela conta ter aprendido.

José Adilson, 35 anos, treinador de futebol para crianças. Num bar na Cidade de Deus, tomando um refrigerante

 

Em Belém, Anna passou as madrugadas acompanhando o trabalho de um repórter policial, fotografando os assassinados, as cenas das mortes, o trabalho dos peritos e do pessoal da limpeza. Daí veio Diamantina, “a maior encrenca da minha vida”. Ela explica: “Diante desse material tão forte em que fiquei tão envolvida em Belém, o que eu ia fazer em Diamantina?” Foi então que leu o livro Minha Vida de Menina, de Helena Monrey, pseudônimo da menina Alice Dayrell Caldeira Brant, filha de uma mineira com um inglês caçador de diamantes. O diário foi escrito no fim do século 19, mas sua primeira edição saiu apenas em 1942. Alice tinha 13 anos quando começou a escrever. O diário retrata a Diamantina logo após a promulgação da Lei Áurea, seus usos e costumes e as observações da menina nesse contexto.

“Diamantina vive no e do esquecimento”, diz Anna Kahn. “Muitos filmes de época são feitos lá. Fui dirigindo 12 horas sem parar, desde Santa Teresa (o bairro onde vive no Rio). Esse Brasil que nós vivemos vem de Minas Gerais. Se não tivessem achado ouro e diamante, não sei o que teria sido do Brasil”, comenta.

Ela teve a ideia de seguir os passos de Alice em Diamantina e aproximar “esse Brasil violento de hoje com esse outro tipo de violência, que era o Brasil daquela época”. No processo, Anna visitou lugares citados por Alice em seu diário. Visitou também o Museu do Diamante e acabou inventando suas próprias fotos, em vez de simplesmente retratar o que via. “Eu ia para os lugares que Alice cita no livro, para ver o que eu encontrava. Aí você tem a foto do galo, da arma. O livro começa com uma arma.”

Luz, 63 anos, dona de casa. No Aterro do Flamengo, dentro de um ônibus

 

Num e-mail que mandou para o curador Diógenes Moura, com quem trabalha na série Sem Medo do Escuro, ela escreveu: “Tinha uma consulta médica em Ipanema, hoje de manhã. Entrei no carro, subi a ladeira e segui os trilhos do bonde em direção à zona sul. Na primeira curva vejo um policial em pé, no meio da rua, com um fuzil apontado para a minha cabeça. O dedo no gatilho à espera do alvo. Era uma emboscada. No Rio de Janeiro é comum ver muito revólver, pistola, fuzil, metralhadora; mas não me acostumo. Ninguém nunca deveria achar normal uma coisa dessas. Ver com frequência tantas armas me faz lembrar que estou viva, como se a gente pudesse esquecer. Para morrer basta um tiro”.

Na intensa relação artista-curador que estabeleceu com Moura, ela aprofundou-se na reflexão sobre o abismo. “São muitos os abismos. O primeiro abismo é o da criação”, escreveu. “O abismo é colocar o dedo na ferida, abrir a ferida, olhar sem medo de sentir dor, do fedor, é não ter medo do mal. Fotografar é recusar a banalidade do mal.”

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