Ar comprimido

Na instalação O Anjo Exterminador, de Nelson Leirner, a ponte é elemento de impasse e imobilização

Paula Alzugaray
O Anjo Exterminador (1984 - 2014), de Nelson Leirner (Foto: Cortesia Galeria Silvia Cintra + Box 4)

Um casal da burguesia convida um grupo de amigos para um jantar em sua mansão. Depois do evento, eles descobrem que estão presos. Nada físico os prende ali, mas ninguém consegue entrar ou sair do local. Algo os faz reféns. Os dias passam e todas as máscaras e convenções sociais desaparecem, dando lugar aos instintos mais primitivos de cada um.

Transferida para a instalação de Nelson Leirner montada no Octógono da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a sinopse de O Anjo Exterminador (1963), de Luis Buñuel, ganha um contorno tropicalista e contemporâneo. No Anjo Exterminador da cultura brasileira, hordas de anjos da guarda, Nossas Senhoras, Caboclos, Budas e Pretos Velhos enfrentam-se diante de uma ponte.

Simbolicamente, a ponte antepõe-se ao muro no que diz respeito à liberdade de expressão e de circulação. Teoricamente, seria uma resposta aos impasses políticos e geográficos que imobilizam e separam as sociedades hoje. Mas, na obra de Leirner, a ponte equivale ao vidro da sala de Buñuel: a barreira intransponível. Dialeticamente, a ponte aqui equivale ao muro – ponto de tensão entre forças opostas.

“Cria-se uma situação de conflito, em que as duas partes ficam absolutamente imóveis. Eu não deixo espaço para elas se mexerem. A imobilidade é coisa que tenho muito em meu trabalho. Fiz o Porco (1966) da mesma forma: enjaulei-o e deixei-o sem espaço. Nesse trabalho agora, não há respiro nenhum. O ar foi totalmente comprimido”, diz Nelson Leirner à seLecT.

 

Não resta dúvida de que O Anjo Exterminador (2011) é uma reação de Nelson Leirner à situação política brasileira e mundial. Mas o trabalho não fala só de enfrentamento. É preciso notar que os dois times carregam lições de convivência. São exércitos plurais, formados do encontro entre santos e exus, deuses e diabos.

O trabalho nasce de uma linhagem de outros iniciados em 1983, com O Grande Desfile, no MAM-RJ. “O primeiro trabalho não apresentava enfrentamento, mas um universo que passa despercebido aos olhos da sociedade”, diz. Naquele momento, havia consenso. Todos se dirigiam para o mesmo lado, numa enorme fila.

De 1983 para cá, toda essa fauna e flora do imaginário pop de Nelson Leirner vem se organizando de acordo com novas leis, novas estratégias e coreografias. Às vezes, mais bélicas; outras, mais poéticas. Mas nunca estiveram tão compactos. O Anjo Exterminador de Nelson Leirner vem avisar que o ar nunca esteve tão comprimido.

Serviço
O Anjo Exterminador, de Nelson Leirner
Octógono da Pinacoteca do Estado de São Paulo
Praça da Luz, 2
Até 31/7
www.pinacoteca.org.br

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