Arte como continente

O interesse de Anna Bella Geiger pela geografia e a cartografia atesta uma posição crítica em relação à arte

Paula Alzugaray
Macio com Flores e Mapas (2016), obra inédita que estará em exposição na individual da artista, entre setembro e outubro na Mendes Wood DM (Fotos: Cortesia Anna Bella Geiger/ Galeria Mendes Wood DM)
Macio com Flores e Mapas (2016), obra inédita que estará em exposição na individual da artista, entre setembro e outubro na Mendes Wood DM (Fotos: Cortesia Anna Bella Geiger/ Galeria Mendes Wood DM)

Há pouco mais de 20 anos, quando passava por um ferro-velho nos arredores do Morro da Conceição, atrás da estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, Anna Bella Geiger encontrou no chão uma antiga gaveta de ferro enferrujada. Imediatamente identificou naquele objeto um “continente” para abarcar e guardar as forminhas de lata, chumbo e cobre que, desde 1974, vinha moldando em forma de mapas do Brasil e da América Latina. Começava ali a série Fronteiriços, obras compostas de mapas contidos em gavetas, fixados em grossa camada de cera de abelha tingida com pigmentos. Eixo central da poética do transitório e do variável de Anna Bella Geiger, a série Fronteriços é formada por arquivos que guardam os pensamentos da artista sobre o mundo.

O interesse de Anna Bella Geiger pela geografia coincide com uma tomada de posição crítica em relação à arte e suas conexões com a vida sociopolítica brasileira e internacional. Pensar-se como artista brasileira vivendo no contexto de um regime de exceção foi o estopim das séries Mapas Elementares e Local da Ação, nos anos 1970, compostas de vídeos, desenhos e gravuras em água-forte.

Se o intuito original era sinalizar seu lugar – como artista, como mulher, como brasileira – no mapa-múndi, em um segundo momento passa a ser o de alterá-lo, modificá-lo, empreendendo ações e desígnios contra um discurso cultural hegemônico. Sua função como artista seria transformar os significados de território, limite, escala, geolocalização – princípios da cartografia. “Subverter seu sentido descritivo em ideológico, ao transformar certas escalas e proporções com o uso de distorções”, escreve a artista no catálogo da exposição Gavetas de Memórias (Caixa Cultural, Brasília, até junho de 2015).

Os mapas de Anna Bella Geiger são nômades. Mostram terras, países, continentes e hemisférios em permanente deslocamento. Inquietos, desafiam coordenadas geográficas e geopolíticas. Desrespeitam fronteiras entre suportes artísticos. Foi assim que suas cartografias abandonaram o papel e se materializaram em forminhas de biscoito, oferecidas para o público da exposição individual Situações-limite (MAM RJ, 1975) e depois guardadas nos gaveteiros do ateliê da artista durante 20 anos – até finalmente ganhar continente nas gavetas de ferro que viriam na sequência da encontrada nos arredores do Morro da Conceição.

  • Rolo do Extremo Oriente com Leão Pintado à Mão (2016)
    Rolo do Extremo Oriente com Leão Pintado à Mão (2016)
  • Rolo Ocidental com 5 Mapinhas Pintados à Mão (2016)
    Rolo Ocidental com 5 Mapinhas Pintados à Mão (2016)
  • Orbis Descriptio com Coluna em Camadas Polissemicas, da série Fronteiriços (2015)
    Orbis Descriptio com Coluna em Camadas Polissemicas, da série Fronteiriços (2015)

Fronteiriços e variáveis
Os mapas de Anna Bella Geiger são contêineres de ideias de mundo. Ideias fluídas, que fique bem claro. Esse pensamento variável se expressa também na matéria que preenche as gavetas: cera de abelha derretida a quase 100ºC. “Ao pingar os pigmentos de cor dissolvidos sobre a camada de cera anteriormente derramada, a mistura logo emerge como pequenos vulcões daquele mundo subterrâneo em ebulição. Em seguida, todo o conteúdo despejado retorna à superfície num magma fumegante de matéria e cor e vai aos poucos encontrando seus próprios espaços, em movimentos desordenados”, escreve a artista. Os territórios nascem, portanto, desse não desenho, da mancha que brota do acidente e do imprevisto.

A individual que a artista realiza na Galeria Mendes Wood DM, SP, a partir do 29/9, traz novas gavetas da série Fronteiriços, novos mapas da série Mole, em tecido, e da série Rolo, que evocam os antigos pergaminhos das rotas de navegação. Os trabalhos trazem as questões levantadas em outro grupo, as Polaridades: entre treva e luz, norte e sul, leste e oeste. Agora, a artista lhes impõe uma crescente preocupação ecológica com o planeta Terra, pensando o derretimento dos polos.

Todas essas séries, iniciadas nos anos 1970, têm sido continuadas, pausadas e revisitadas ao longos dos últimos 40 anos. Esses eternos retornos e repetições são definidos como “fascinantes estratégias contra o discurso da autoridade” por Estrella de Diego, curadora de Geografía Física y Humana, a primeira exposição monográfica da artista na Espanha, em cartaz no Centro Andaluz de Arte Contemporáneo (CAAC), até 23 de outubro.

A curadora espanhola argumenta que os princípios da repetição e da serialização na obra de Geiger são apreendidos da gravura – e a liberdade de criação sem a pressão da obra única. É, portanto, na repetição e na “subversão das cronologias” – ao tecer um tempo muito próprio de trabalho – que Geiger dá solvência às suas ideias. Traça seus livres percursos e suas cartografias não lineares, tão espontâneas quanto as manchas fronteiriças.