A arte deve educar?

Paulo Portella Filho, Teixeira Coelho, Mônica Nador, Bianca Bernardo, Ana Paula Cohen e Marcos Moraes respondem à pergunta feita pela #select33

Retrato de Paulo Portella, por Ernesto Bonato
Retrato de Paulo Portella, por Ernesto Bonato

Eis uma questão espinhosa. Como um campo aberto à construção de sentidos, a arte traz em si a potência da transformação. Isso se concretiza nas relações entre seus diversos agentes, incluindo o público, fundamental na completude da obra. É nesse panorama que a arte-educação floresce, como ferramenta de mediação que amplia a arte e suas conexões. Mas somar arte e educação expande possibilidades ou condiciona o caminho? Em outras palavras, a arte deve educar?

 

Paulo Portella Filho
Artista educador
Não. A arte não deve nada. Essa ideia do dever fecha o que é aberto. Arte é. Quem tem compromisso de educar é o educador. E não existe educação sem partido.

 

Teixeira Coelho
Crítico e curador
A arte não deve nada. Arte é campo do pode ser, não do deve ser. O Brasil passa ainda por uma nefasta domesticação da arte e da cultura. Procura-se ver a arte pelas lentes do funcionalismo e do utilitarismo imediatos, movidos pelos bons sentimentos – o que a enterra nas profundezas da banalidade e lhe nega o seu lugar na contemporaneidade. A arte não deve educar para alguma coisa, nem educar alguma coisa. A questão é: preparar para a arte. Arte é coluna da educação, mais ainda num país – este – em que a educação é desculturalizada, do primário à universidade, há décadas e graças aos governos de todas as cores ideológicas. O ponto é despertar para a arte, fazer da arte uma experiência de vida. Sem enxertar no processo uma disciplina da arte: arte é indisciplina – e deslumbramento.

Teixeira Coelho (Foto: Divulgação)

 

Mônica Nador
Artista, idealizadora do JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube), associação de artistas e moradores do bairro da zona sul de São Paulo, fundada em 2004, a partir do projeto Paredes Pinturas
Todas as áreas do conhecimento devem educar, inclusive a arte. A arte não é uma entidade autônoma que paira sobre a humanidade, pelo contrário, é parte dela. E seus recursos pedagógicos são infinitos, tanto para exercitar as mais básicas ações motoras até o mais elaborado pensamento complexo, estratégico para atualizarmos o mundo, quem sabe propor outros mundos!

Mônica Nador (Foto: Tiago Neves)

Mônica Nador (Foto: Tiago Neves)

 

Bianca Bernardo
Curadoria pedagógica do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea
De modo geral, quando exaltamos o poder transformador da arte, pensamos imediatamente nas aproximações com a educação. Para saber se a arte educa, precisamos perceber os encontros e desencontros nesse campo discursivo, onde prática artística e prática educativa se interpelam. Para saber se a arte educa, devemos antes questionar que tipo de abordagem de ensino-aprendizagem estamos constituindo e qual o sentido da arte para cada um de nós. Habitualmente, as instituições culturais, em nome da arte, afirmam sua missão educativa por meio de práticas de “transmissão”. Mas educar não se limita à vida intramuros, sabemos que o sujeito só poderá ser transformado se aquele que provocou essa relação possa também ser transformado, ou seja, a arte só educa na medida em que é educada de volta.

Bianca Bernardo (Foto: Divulgação)

Bianca Bernardo (Foto: Divulgação)

 

Ana Paula Cohen
Curadora independente, editora, crítica e professora de Práticas Artísticas Contemporâneas na Pós-Graduação da Faap
“(…) Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. (…) Educar é, substantivamente, formar. (…) Se, na experiência de minha formação, que deve ser permanente, começo por aceitar que o formador é o sujeito em relação a quem me considero o objeto por ele formado, me considero como um paciente que recebe os conhecimentos-conteúdos acumulados pelo sujeito que sabe e são a mim transferidos. Nessa forma de compreender e de viver o processo formador, eu, objeto agora, terei a possibilidade, amanhã, de me tornar o falso sujeito da “formação” do futuro objeto de meu ato formador. É preciso que, pelo contrário, desde os começos do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. É nesse sentido que ensinar não é transferir conhecimento, conteúdo, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.” (Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa, 1996).
Se entendermos educar como formar, nos termos de Paulo Freire, talvez seja possível pensar a arte como formadora.

Ana Paula Cohen (Foto: Divulgação)

Ana Paula Cohen (Foto: Divulgação)

 

Marcos Moraes
Coordenador do curso de Educação Artística da Faap
A pergunta traz diversas perspectivas, ao poder ser tomada como uma condição, ou uma proposição, ou ainda como determinante. Com isso já pode ser percebida a impossibilidade de uma resposta única e fechada. Temos, assim, dados fundamentais para se pensar esses dois processos – arte e educação – que guardam entre si possíveis pontos comuns, sem se confundirem ou se sobreporem. Para os dois processos me parece imprescindível pensarmos em termos comuns a partir e em torno dos quais ambos se articulam e atuam, quais sejam investigação, experiência, processo, pesquisa, participação, envolvimento e transformação, para ficarmos no topo de uma lista mais ampla e significativa de valores e ações. Pensar, ademais, em processos criativos de formação aproximaria e entrelaçaria ainda mais as relações e atuações desses campos do conhecimento e de produção distintos, sem que, com isso, ambos se fundissem, mas ao contrário, afirmam-se na sua individualidade potencializados por suas relações interdisciplinares, para se abrirem transversalmente nos processos de formação de indivíduos e, dessa forma, como agentes potencialmente transformadores, agirem nos processos de questionamento das possíveis relações sociais.

Marcos Moraes (Foto: Paulo D'Alessandro)

Marcos Moraes (Foto: Paulo D’Alessandro)

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