Postado no dia 24 de Outubro de 2011 - 15h19m
Atualizado no dia 1 de Novembro de 2011 - 11h54m

Linguagens reinventadas

Viva o idioma mestiço da AL!

Texto: Paula Alzugaray • PÁGINA 1 de 2

seLecT #02 elege o portunhol como signo das hibridações, como celebração da mistura, da colagem, das multilínguas, das reinvenções, dos diálogos. 

Cuadro1

Faz quase cem anos que Xul Solar inventou o neocriollo, ou criol, idioma que tem por base o espanhol e o português, mas que incorpora também o inglês, o francês, o alemão, o latim e o grego. Emblema utópico da unificação dos povos do mundo – a partir de bases latinas –, o neocriollo era, mais que uma parábola da modernidade, uma atitude visionária que anunciava o que estava por vir. Um dia, as crianças poderiam inventar novas linguagens, com regras próprias, quando trocassem mensagens de texto pelo celular ou entrassem em chats na internet. 


O criol de Xul Solar – e, por que não, também os jogos de linguagem de Borges, Rosa, Augusto e Haroldo de Campos – vem desaguar no portunhol selvagem de Douglas Diegues, e na lengua izquierda de Bernardo Oyarzún. O idioma de Oyarzún, artista chileno contemplado no portfólio desta segunda edição de seLecT, nasce da articulação de línguas nativas americanas e europeias vinculadas com a colonização da América. “É uma forma de contar a história da América por meio do choque de línguas, cujo resultado conhecido para as nativas é a atrofia de seu pensamento e fala”, diz o artista para a jornalista Juliana Monachesi.


seLecT #02 elege o portunhol como signo das hibridações, como celebração da mistura, da colagem, das multilínguas, das reinvenções, dos diálogos. Celebramos também os viajantes que, afinal, são os grandes responsáveis pela relativização de nossas certezas. Isso conta a reportagem “Artistas viajantes abrem trilhas”, de Angélica de Moraes. Celebramos os roteiros do Sul e a mais longa linha de ônibus da América do Sul: SP-Lima, em 5.917 quilômetros, ao som de tantos idiomas amazônicos quanto o tupi-guarani, o mbyá, o kaiowá, o pai tavytera, o chiripá, o omagua, o ñengatú, o muinane, o miraña etc. etc.