Postado no dia 2 de Outubro de 2012 - 14h57m
Atualizado no dia 2 de Outubro de 2012 - 15h6m

Arte, um negócio sustentável

Nos últimos dois anos, o volume de negócios das galerias cresceu, em média, 44 %, bem acima de muitos outros setores da economia

Texto: Ana Letícia Fialho •

O mercado de arte contemporânea no Brasil vive atualmente um momento singular e muito positivo, de amadurecimento e expansão

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Legenda: Público lota corredores do Pavilhão da Bienal durante a SP-Arte 2012. (Foto: divulgação/Juan Guerra)

Nos últimos dois anos, o volume de negócios das galerias cresceu, em média, 44 %, bem acima de muitos outros setores da economia. A necessidade de mapear o setor resultou na realização de uma pesquisa inédita visando conhecer o perfil, o tamanho, o grau de profissionalização e internacionalização das galerias do mercado primário. Encomendada pela Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact) e o programa setorial integrado Abact-Apex-Brasil, a pesquisa – que deverá ser ampliada e realizada anualmente – abarca em uma primeira etapa 32 galerias de arte contemporânea e traz dados inéditos, aponta tendências e começa a jogar luz sobre um setor que, costumava-se acreditar, operava de forma pouco transparente, muitas vezes na informalidade e jamais revelava os segredos de seus negócios. A pesquisa contempla o mercado primário de arte contemporânea, ou seja, galerias que representam artistas em atividade. O trabalho de representação envolve muito mais do que a comercialização de obras. O valor econômico, estabelecido pelo mercado, constrói-se com base no valor simbólico aferido por outras instâncias do sistema das artes, como a institucional e a crítica. O trabalho da galeria consiste em fomentar a valorização simbólica e econômica dos artistas que representa.

A média de pessoas empregadas de forma regular para as galerias é de 7,75 e os empregados com carteira assinada representam a maioria, a média é de 5,22. Isso aponta para uma forte formalização do setor em relação ao quadro funcional, contrariamente à tendência à precarização das relações de trabalho observada em outros segmentos da cultura. Além da equipe permanente, há uma gama enorme de colaboradores e prestadores de serviços. No centro dessa cadeia encontram-se os artistas. Cada galeria representa de 12 a 39 nomes, dependendo de sua estrutura. A média é de 24 artistas por galeria e o universo total é de cerca de 800 pessoas, onde estão desde profissionais com carreiras altamente consolidadas até outros em início de carreira. A média porcentual de novos artistas, que entram no mercado pela primeira vez, é de 23,6%. Esse dado fala da capacidade das galerias de lançarem novos nomes, o que envolve certo risco, mas é fundamental para a renovação e expansão do mercado.

Outro dado que merece destaque é o alto nível de internacionalização dos artistas, avaliado nesta pesquisa pela presença em coleções internacionais públicas e privadas e representação por galerias estrangeiras. Cerca de 48% dos artistas representados pelas galerias brasileiras estão em coleções internacionais e cerca de 18% são representados por galerias estrangeiras. Infelizmente, as instituições brasileiras não acompanham tal movimento e encontram-se totalmente defasadas em relação à produção contemporânea. A falta de recursos não deve ser o único problema, pois hoje no mercado o preço médio das obras mais baratas é de R$ 1.100 e as mais caras têm preço médio de R$ 540 mil. Fica evidente, portanto, que, além de recursos, o colecionismo institucional carece também de linhas curatoriais claras e coerentes. Isso explica por que a produção contemporânea brasileira está mais bem representada em coleções privadas no Brasil e em outras privadas e institucionais no exterior do que nas instituições brasileiras.

É importante entender o contexto das recentes mudanças da cena artística internacional. Foi nos anos 1990 que agentes do sistema das artes dos Estados Unidos e da Europa passaram a buscar em regiões “periféricas” uma “renovação controlada da oferta”, dando início a uma expansão das fronteiras do mapa internacional das artes. Somente no fim dos anos 2000 é que observamos de fato o início de uma descentralização e multiplicação dos circuitos de legitimação e uma revisão da “história internacional” da arte moderna e contemporânea.

Internacionalização do mercado

O nível de internacionalização de uma galeria não deve ser avaliado apenas com base no seu volume de vendas no exterior, e sim tendo em conta sua capacidade de articulação e circulação, reconhecimento e visibilidade no plano internacional. Mais de 50% das galerias contempladas na pesquisa estão, em alguma medida, internacionalizadas, e 34% delas têm uma inserção significativa e constante no mercado internacional.

Nesse universo, 81% das galerias afirmaram apoiar financeira e logisticamente a participação de seus artistas em exposições internacionais. Outras 37% mantêm parcerias com galerias no exterior e quase 70% afirmam ter clientes estrangeiros. As galerias informaram ainda que a maioria dos seus clientes internacionais encontra-se nos Estados Unidos, Europa e América Latina, e algumas também têm clientes na Ásia e no Oriente Médio. As feiras são apontadas como o principal cenário para a conquista desses colecionadores.

As feiras brasileiras são responsáveis por, em média, 29% do volume anual de vendas das galerias, havendo uma variação de 10% a 60%. Para as galerias que atuam no mercado externo, as feiras internacionais são a principal plataforma de vendas: 95% das exportações são negociadas durante esses eventos. Apesar dos altos custos e do acesso restrito, a participação das galerias brasileiras em feiras internacionais cresceu nos últimos dois anos, participação essa que reflete positivamente no volume das exportações, que cresceu cerca de 40% entre 2010 e 2011 (dados da Apex-Brasil referentes às galerias mapeadas).

Mas são os negócios gerados no Brasil que mais têm impulsionado o crescimento do setor. A economia brasileira passou ao largo da crise internacional, aquecendo o mercado de arte. Uma estimativa conservadora é de que as galerias mapeadas movimentem anualmente cerca de US$ 100 milhões. Por trás desse crescimento estão os colecionadores privados brasileiros, que não só estão investindo mais, como também se tornando mais numerosos. Eles movimentam cerca de 66% das vendas, enquanto as instituições nacionais representam apenas 8%.

Tal dinâmica tem chamado a atenção de agentes do mercado internacional, altamente competitivos e profissionalizados; de instituições consagradas, como o MoMA e a Tate Modern, nos quais colecionadores brasileiros são convidados a integrar (e financiar) os comitês de aquisição; assim como de outros museus internacionais, que cada vez mais buscam no Brasil recursos para viabilizar seus projetos expositivos. Tal cenário traz desafios e oportunidades.

Para enfrentá-los, iniciativas do setor privado, como as capitaneadas pela Abact, voltadas à expansão, profissionalização e internacionalização das galerias, são importantes, mas não suficientes. Devem somar-se a elas políticas públicas voltadas à profissionalização de todas as instâncias do sistema das artes.
Somente um sistema de artes organizado e fortalecido internamente, consciente de suas fragilidades e qualidades, conseguirá se posicionar, expandir e internacionalizar de forma sustentável e tornar-se menos vulnerável às oscilações de contextos econômicos, de ordem doméstica e internacional.

*Ana Letícia Fialho é gestora, advogada e pesquisadora, e atualmente é consultora em inteligência comercial e coordenadora de pesquisas do Programa Setorial Integrado de Arte Contemporânea ABACT-APEX Brasil.

*Publicado originalmente na edição impressa #7.