Postado no dia 8 de Dezembro de 2012 - 14h30m
Atualizado no dia 8 de Dezembro de 2012 - 14h23m

Cidades copyleft

As dinâmicas de código aberto estão contagiando o mundo analógico

Texto: Bernardo Gutiérrez •

Os processos e práticas relacionadas à filosofia do software livre vão modificar radicalmente as dinâmicas urbanas, sociais e políticas de nossas cidades

Portoalegre_cc

Legenda: Porto Alegre cc é marco brasileiro das cidades copyleft

E se as cidades tivessem licença copyleft? E se as cidades funcionassem com os processos abertos e remix do mundo copyleft? Vamos brincar um pouco. Vamos aplicar a definição de software livre do Richard Stallman a uma cidade. Basta substituir a palavra “programa” por “cidade” nas quatro liberdades clássicas do conceito ‘copyleft’.

Liberdade 0: Liberdade para executar a cidade seja qual for nosso propósito.
Liberdade 1: Liberdade para estudar o funcionamento da cidade e adapta-lo às suas necessidades – o acesso ao código-fonte é um pré-requisito para isso.
Liberdade 2: Liberdade para redistribuir cópias e assim ajudar ao seu próximo.
Liberdade 3: Liberdade para melhorar a cidade e depois publicar para o bem de toda a comunidade.

Poderíamos mudar “programa” por “rua” ou “praça”. O copyleft seria a licença legal que geraria um novo processo aberto na cidade. O copyleft garantiria uma cidade livre. O código-fonte – a essência da cidade, sua rede, sua operação, sua informação – estaria visível. Seria modificável. Melhorável coletivamente. A troca entre usuários de P2P (peer-to-peer) provocaria uma Praça2Praça, um Parque2Parque...

A cidade copyleft não é um marco teórico categórico. A cidade copyleft é uma prática, um protótipo real, um processo radicalmente diferente. O fato de trabalhar com código-fonte aberto - seja em informática, em literatura ou em arquitetura - propicia outro tipo de relações entre pessoas, ferramentas, objetos e lugares. O processo copyleft é bottom up (de baixo para cima), transparente, não hierárquico, participativo, colaborativo.

Essa hipótese de copyleft urbano não é ficção científica. O pensador e ativista Matthew Fuller e o urbanista/designer Usman Haque (criador de Pachube) criaram uma licença aberta para cidades: o Urban Versioning System 1.0.1 (UVS). No texto, os autores derrubam os paradigmas do urbanismo de objetos de fórmula fechada: “Apenas o modelo de construção que é capaz de perder sua trama é adequado”.

Mas insisto: a cidade copyleft não é só teoria. É prática e proceso compartilhado. As dinâmicas de código aberto estão contagiando o mundo analógico. O movimento 15M/Indignados, espanhol, durante a ocupação das praças em maio de 2011, aplicou o copyleft como eixo em tudo. As ferramentas criadas para cada praça/bairro tinham licença copyleft. O código das assembléias, propostas, iniciativas, tinha sempre o código aberto: documentando em tempo real, compartilhando metodologias, processos, conhecimento... 

O site Takethesquare.net, registrado em maio de 2011 na Espanha, foi a ágora digital do movimento Occupy Global. Sem copyleft - licença e espírito - não poderia nem existir o site/plataforma. How to Occupy liberou o código, a metodologia, as prácticas urbanas e o código-fonte da global revolution.

Uma cidade copyleft, então, é uma praça aberta, participativa, cujo código-fonte está escrito coletivamente (projeto Wikiplaza). A cidade copyleft é um espaço urbano gerido e melhorado em rede (projeto Esta Es Una Plaza). A cidade copyleft é um conjunto compartilhado de dados abertos sobre os orçamentos de cada bairro (projeto Mon Quartier). Ou uma plataforma como PortoAlegre.cc que procura informação compartilhada e processos colaborativos. E justamente ai, na liberação do código, da informação, está a chave das cidades copyleft.

Por isso, o fato de ter estúdios, como Ecosistema Urbano, ou projetos, como Wikihouse, que licenciam as plantas de seus prédios com licenças Creative Commons, mostram que a cidade copyleft, como processo e prática, vai modificar radicalmente as dinâmicas urbanas, sociais e políticas de nossas cidades.

Bernardo Gutiérrez é jornalista e fundador da rede de inovação Futura Media. É autor dos livros Calle Amazonas (editora Altaïr) e #24 (Editora dpr-barcelona), uma obra copyleft. Twitter: @bernardosampa . Publicado em seLecT 10, dez/ jan. 2012