Postado no dia 8 de Dezembro de 2012 - 14h28m
Atualizado no dia 9 de Dezembro de 2012 - 19h31m

Um futuro muito mais contemporâneo

James Bridle ganha espaço crítico com a “nova estética”, propondo uma abordagem estética da coprodução do real por pessoas e tecnologias em rede

Texto: Giselle Beiguelman e Paula Alzugaray •

Nova estética é o "novo normal", diz Bridle

Bridle

The New Aesthetic – a nova estética – é uma pesquisa em andamento do profissional multimídia inglês James Bridle. Seu objeto diz respeito a tudo que reflete a “erupção do digital no físico”. Toma exemplos da arte e de todas as esferas da vida: da tecnologia ao design gráfico, da moda à publicidade, da cultura bélica à cultura de consumo, da literatura às notícias. “A vida contemporânea é coproduzida por pessoas e redes”, diz Bridle a seLecT. “Podem-se ver as bordas dessas produções nas costuras entre o físico e o digital, embora os efeitos mais fortes estejam no intangível, em nossas experiências diárias mediadas pela tecnologia.”

A pesquisa começou, em 2011, em um Tumblr – um tipo de blog que privilegia imagens e textos curtos – e ganhou o mundo. Destaque na última edição do festival de tendências South by Southwest (em Austin, Texas), em abril, Bridle e seu conceito de nova estética vêm desde então ganhando espaço. Blogues de renome, como Beyond the Beyond, de Bruce Sterling, veiculado na revista Wired, livros sobre o tema, como New Aesthetic, New Anxieties (V2, 2012), e exposições como Coded Perception (outubro/novembro, no Setup, em Amsterdã), são alguns entre muitos exemplos da repercussão. 

Nada foi planejado por esse pesquisador independente, formado em computação e inteligência artificial, com uma intensa trajetória como editor. Entre diversos links ligados a Bridle, destaca-se o blog booktwo.org, no qual ele discute literatura, tecnologia e o futuro dos livros, e o famoso Tumblr da nova estética. Mal imaginava ele que o tema se tornaria tão relevante nas discussões contemporâneas, de exposições a debates acadêmicos. 

Em setembro, foi convidado a debater o tema no New Museum, em Nova York. Considerada por alguns críticos como “mais do mesmo”, por falar do que a cultura digital fala desde os seus primórdios, e, por outros, como continuidade de tendências históricas em curso pelo menos desde o construtivismo russo, a New Aesthetic é polêmica. Entre as discussões que suscita, aponta-se como um dos seus maiores paradoxos o fato de que, apesar de pressupor a imbricação entre o digital e o físico, só consegue fazer valer suas teses quando reintroduz seus exemplos em um ambiente puramente digital – o Tumblr, desprovendo as obras de sua força na realidade além da tela. Outra ressalva é de que sua interpretação da estética digital é por demais literal, com formas pixelizadas e referências explícitas à web.

Mas o que a discussão de James Bridle tem de mais importante, contudo, é ser reativa a uma cultura essencialmente retrô, que não consegue dar conta das possibilidades que se abrem com as novas formas de colaboração e produção que surgem com a disseminação das redes. Aposta na cumplicidade entre homens e máquinas, vivenciadas por todos em plataformas populares como o Facebook e o Gmail, e que se tornam cotidianas, nos aeroportos e bancos, com sistemas de reconhecimento facial e interpretação de dados biométricos. 
Sem apelar para longas argumentações, nem para discursos acadêmicos empolados, James Bridle, em si, é uma proposta nova, com discurso fresco e poroso às transformações do nosso tempo.

Em entrevista à seLecT ele comenta a nova estética e a repercussão de suas ideias.

Por que referir-se a este estado de coisas como "nova" estética e até quando se pode considerá-lo como "novo"?

Uma das coisas mais legais sobre a nova estética é que ela é mais frequentemente encontrada no banal, no aparentemente normal, no "novo normal". Passamos tanto tempo procurando futuros fracassados que, aparentemente, não percebemos a chegada de um futuro muito mais contemporâneo, de comunicação e de redes, de mediação digital por meio de dispositivos e aplicativos, de sistemas automatizados e redes aumentadas de modos de ver e de lembrar. Como resultado, muitas das coisas podem não ser realmente novas, mas elas passaram despercebidas e desconexas, até agora. Talvez seja por isso que a discussão sobre o tema tenha causado uma resposta tão generalizada. De qualquer maneira, muitos dos exemplos que eu uso para estimular a discussão em torno dessas questões da nova estética teriam sido vistos como ficção científica há apenas uma década, o que me faz senti-las como muito novas.

Em seu Tumblr você diz a nova estética não é um movimento, ou algo que pode "ser feito". Mas, pode-se considerar a nova estética como um conceito de arte?

Minha pesquisa sobre a nova estética não surgiu, nem foi centrada no mundo da arte. Enquanto eu tomava exemplos da arte contemporânea para apresentar o tema, tomava outros de praticamente todas as esferas da vida, da tecnologia ao design gráfico, da moda à publicidade, da cultura bélica à cultura de consumo, da literatura às notícias. Pessoalmente, acho que a nova estética está fora do que a crítica de arte, historicamente considera como movimentos. Chamar a nova estética de movimento confunde as coisas, pois implica que seja algo a ser seguida ou atacada, o que é inútil e contraproducente, mas fico sempre satisfeito quando vejo essas coisas serem discutidas.

Qual é a sua relação com a teoria e a prática da arte?

Eu não tenho um background artístico. Estudei ciência da computação e inteligência artificial, trabalhei como publisher e editor literário, como programador e técnico, e como escritor e palestrante. Li muito, e de forma irregular, história e teoria da arte, mas certamente não sou especialista. Cada vez mais, algumas das saídas do meu trabalho têm sido entendidas como obras de arte por parte das instituições, que as expõem como tal. Isso, por sua vez, levou-me a produzir alguns trabalhos para esses contextos, enquanto outros trabalhos eram feitos diretamente para o público on-line ou como os resultados naturais (para mim) da pesquisa. Às vezes é conveniente considerar essas obras como "arte" e às vezes não. Não repudio o rótulo de "artista", mas questiono como e em que contextos ele é aplicado. Não há distinção formal para mim entre alguns dos meus trabalhos e o projeto de investigação nova estética. Por isso, é interessante perceber que os primeiros sejam classificados como "obras", enquanto os últimos sejam classificados como um "movimento". Diria que a minha relação com a teoria e a prática artística é complexa.

Você alguma vez imaginou que a nova estética se tornaria um tema tão relevante nas discussões contemporâneas, de exposições a debates acadêmicos?

A atenção é sempre uma surpresa. Você projeta, na maioria das vezes, para ser ignorado. Obviamente, eu senti que havia algo interessante e digno de atenção aqui, mas o jeito que apareceu em várias comunidades foi realmente interessante. Eu meio que esperava que despertasse algum interesse, se despertasse, no meio dos designers e de tecnologia, já que tenho uma certa audiência nesses campos, e também interesse de gente de marketing e publicidade , que está sempre com fome desse tipo de coisa e tende a seguir depois. A atenção do mundo da arte - e, especificamente, da comunidade da artemídia - foi menos esperada. Parece que esse mundo estava procurando determinados tipos de validação e de expressão, e o mundo da arte, em particular, está sempre precisando de novos modos, condições e movimentos. A nova estética pareceu para eles caber nesse molde. Mas além disso, a atenção provou que eu estava em algo, mesmo que esse algo tenha sido visto de maneiras tão radicalmente diferentes por distintas comunidades, que demonstravam o quão pervasivo esse algo é.

Íntegra da entrevista publicada na seção "Perfil" da seLecT10, dez/jan, 2012