A era do capitalismo fofinho e seus dissidentes
Um regime cuja lógica se explicita na iconografia da Web 2.0.
Texto: Giselle Beiguelman • PÁGINA 1 de 4
A Web 2.0 celebra um mundo cor-de-rosa e sem conflito, mas há formas de ocupação que questionam o que vem sendo chamado de “a economia neoliberal dos likes”
O processo de globalização colocou os teóricos diante da necessidade de dar conta, sob novas perspectivas críticas, da reconfiguração cultural e política da ordem mundial.
O capitalismo, que até o fim dos anos 1980 foi tratado como o vilão conceitual por excelência do mundo acadêmico – especialmente na Europa e na América Latina – precisava, diante da crise das utopias de esquerda do século 20 e dos modelos revolucionários tradicionais, ser reavaliado. Não por acaso, desde meados dos anos 1990, vêm sendo formuladas definições de diferentes matizes ideológicos sobre o tema.
Para o sociólogo espanhol Manuel Castells, autor do referencial A Sociedade em Rede, vivemos hoje um capitalismo informacional e baseado na produção, consumo e circulação de informações. Para Antonio Negri e Maurizio Lazzarato, o que vigora é um capitalismo cognitivo, em que a posse do saber é a riqueza (e não mais a posse do trabalho do outro). Até Bill Gates arriscou o seu conceito _ capitalismo criativo _ conclamando os grandes empresários a investir parte de seus lucros em atividades sociais.
A essas definições propomos mais uma: capitalismo fofinho. Trata-se de um regime cuja lógica se explicita na iconografia da Web 2.0. Ele celebra, por meio de ícones gordinhos e arredondados, um mundo cor de-rosa e azul-celeste que se expressa a partir de onomatopeias e exclamações pueris.
Essa celebração opera por meio de um design de informação, cujo objetivo parece ser suprimir a possibilidade de conflito. A forma mais bem acabada desse tipo de design é a do Facebook, o empreendimento online mais bem-sucedido de todos os tempos.
Espaço de relacionamento protegido, espécie de jardim murado de redes dentro das redes, o Facebook é uma máquina de aceitação feliz do mundo. O pai do seu amigo morreu? O Japão foi inundado por um tsunami? A jornalista sumiu na Líbia? Ótimo, você pode apertar o botão Like e curtir isso tudo com seus amigos. No limite, isso cria uma verdadeira rede antissocial, pois esse modelo tende à rarefação dos conflitos, uma vez que suprime a necessidade de negociação entre as partes.
