Biennale Viva

Em sua 57ª edição, a Bienal de Veneza tem cosmogonias como foco. No Pavilhão do Brasil, a artista Cinthia Marcelle apresenta sua instalação Chão de Caça

Ana Abril e Luciana Pareja Norbiato
Chão de Caça, de Cinthia Marcelle, no Pavilhão do Brasil (Fotos: Divulgação)

“Num mundo repleto de conflitos e choques, no qual o humanismo vem sendo seriamente ameaçado, a arte é a mais preciosa parte do ser humano. (…) A arte é o lugar favorito para sonhos e utopias, relações com outros seres humanos, com a natureza e o cosmo, bem como com a dimensão espiritual.”

Esse trecho lembra o discurso da última Bienal de São Paulo? Mas é o início do texto da francesa Christine Macel, curadora da Bienal de Veneza em 2017, quarta mulher a assumir o posto e chefe da curadoria do Centre Pompidou (Paris). Por aí se tem uma ideia do tom da mostra mais antiga do gênero, que chega à sua 57a edição com a participação de artistas de 57 países. Sob o título Viva Arte Viva, enfocará vertentes presentes em Incerteza Viva: cosmogonias e espiritualidade, relações humanas e sustentabilidade. Nesse clima, faz sentido a escolha do curador-chefe da última Bienal de SP, Jochen Volz, para o pavilhão brasileiro: a artista Cinthia Marcelle com Chão de Caça, sua instalação ambiental e experiencial.

Chão de Caça, de Cinthia Marcelle

Chão de Caça, de Cinthia Marcelle

As duas galerias que compõem o Pavilhão do Brasil são ocupadas pelo trabalho da mineira: um piso de grade, geralmente usado para as ventilações de metrô ou para os sistemas de esgoto. Nos vãos das grades, se instalam pedras comuns, dando peso e volume escultóricos à instalação. O trabalho também é formado por várias pinturas colocadas em hastes de madeira que, por sua vez, foram fixadas na estrutura do piso.

Chão de Caça se complementa com um vídeo que mostra um telhado sendo desmantelado por homens. A peça audiovisual, realizada em parceria com o cineasta Tiago Mata Machado, mostra homens uniformizados, como se fossem prisioneiros preparando-se para uma fuga, fazendo referência às rebeliões e aos massacres ocorridos nas penitenciárias brasileiras nos últimos meses.

“Mesmo que sejamos seduzidos a nos agarrar à imagem da prisão e da fuga ou rebelião, sugerida pela projeção de vídeo e reverberada na aspereza das grades de aço, é possível também imaginar que estamos em um laboratório peculiar ou no ateliê de um artista, em uma floresta tecno ou em meio à selvageria de uma grande cidade grande”, diz Jochen Volz. O curador confirma a sensação de instabilidade provocada pela instalação e sua leitura ambígua.

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Trabalho da série Mitologias Africanas (2014), de Ayrson Heráclito (Foto: Cortesia Blau Projects)

 

O pavilhão brasileiro faz parte dos nove “transpavilhões” interrelacionados, criados com toda liberdade pelos artistas. A Galeria Nara Roesler tem seu representado não exclusivo francês, Xavier Veilhan, como o titular do pavilhão da França.

A major paulistana também emplacou o pioneiro Paulo Bruscky na mostra geral, curada por Macel. Não fica atrás a Fortes D’Aloia & Gabriel, que leva a jovem consagrada Erika Verzutti e o internacional Ernesto Neto. Outra representada não exclusiva é a portuguesa Leonor Antunes, que colocou a Galeria Luisa Strina no rol curatorial. Quem só tem dado alegrias para a pequena (mas afiada) Blau Projects é Ayrson Heráclito, selecionado, que também é representado pela carioca Portas Vilaseca. Segundo o presidente da Biennale, Paolo Baratta, a curadoria é inspirada por um novo humanismo, ou “a habilidade humana de evitar a dominação pelos poderes que governam o mundo”. “Nesse tipo de humanismo, o ato artístico é contemporaneamente um ato de resistência, de liberação e de generosidade.”

Serviço
57a Bienal de Veneza – Viva Arte Viva
De 13/5 a 26/11
www.labiennale.org

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