Cenas comuns, imagens extraordinárias

Luciana Pareja Norbiato e Paula Alzugaray

Publicado em: 20/02/2014

Categoria: artes visuais, Crítica

Munidos de lentes telescópicas ou softwares de busca, artistas problematizam a cultura do espetáculo, desvendando seus mecanismos, revertendo seus efeitos, reinventando as relações sociais e propondo novos regimes de ver e ser visto.

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Legenda: Outer Ear (2012), fotografia da série recente de Wolgang Tillmans apresentada em Londres, aprofunda pesquisa sobre o retrato (Foto: Wolfgang Tillmans/cortesia Maureen Paley, Londres)

Wolfgang Tillmans: a fotografia relacional

Quando Wolfgang Tillmans começou a fotografar, nos anos 1990, o mundo ainda não havia sido inundado por registros feitos com smartphones. O calor e o frescor da vida cotidiana não escoavam em redes sociais, mas em revistas de cultura contemporânea, música, moda e comportamento, como a inglesa I-D. Clubes, revistas independentes e fanzines eram os pontos nevrálgicos de uma rede social por onde circulavam jovens artistas, estilistas e designers. O retrato – mais precisamente o retrato de amigos e grupo social –, considerado por Tillmans “uma troca humana direta” e “um ato artístico fundamental”, é a célula original das fotoinstalações que o artista desenvolve há duas décadas.

Organizadas nas paredes de forma não hierárquica, similar às redes, as fotoinstalações aproximam imagens de procedências diversas: retratos, stills, naturezas-mortas, cenas da vida cotidiana, cartões-postais, clippings de suas próprias fotos publicadas em revistas e imagens abstratas, resultantes de manipulação química sobre papel fotográfico.

Na última exposição individual, Central Nervous System, realizada em novembro, Tillmans aprofundou sua pesquisa sobre o retrato e, diferentemente dos trabalhos anteriores, organizou nas paredes da Maureen Paley Gallery, em Londres, imagens de uma só pessoa. A abordagem desse sujeito único, no entanto, continua sendo múltipla e constelar. Ao fragmentar o corpo e a vida cotidiana de seu objeto em enquadramentos intimistas e generalistas, o artista opera com a mesma paixão amadorística, intenção jornalística e interesse científico implícitos em suas constelações fotográficas.

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Legenda: Neighbours #28 (2012) fotografia da série de Arne Svenson realizada a partir da observação das janelas de um edifício vizinho (foto: Arne Svenson / Cortesia Julie Saul Gallery, NYC)

Arne Svenson: nas bordas da ficção

Realizada pelo fotógrafo Arne Svenson, a partir da visão dos moradores de um edifício em frente ao seu apartamento no bairro de Tribeca, em Nova York, a série The Neighbours (2012) é frequentemente associada à pintura. Suas imagens não raro despertam comparações com os chiaroescuro de Caravaggio, os retratos íntimos de Vermeer ou o voyeurismo melancólico de Edward Hopper. De fato, as barras metálicas das janelas do edifício, que atravessam o campo visual das fotografias em cortes bruscos, evocam o enquadramento da pintura, que no século 19 evoluiu para o quadro fotográfico.

A alta definição das fotografias e sua meticulosa composição fazem com que se assemelhem a ficções cinematográficas. Expostas lado a lado, essas imagens se comportam como stills de um filme da vida real, registrado ao longo de 18 meses. Em sua crônica da vida cotidiana, Svenson já retratou, em séries anteriores, presidiários e autistas. Ao ser entrevistado sobre a decisão da Suprema Corte de Nova York a seu favor em um processo movido pelos vizinhos fotografados sem consentimento, Svenson declarou: “Eu raramente, senão nunca, fecho minhas cortinas”.

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Legenda: Search: Ericka (2009), instalação realizada por Felipe Cama a partir da busca de uma pessoa real na internet (foto: Rogerio Miranda / Cortesia Felipe Cama e Galeria Leme, SP)

Felipe Cama: linha do tempo inventada

Felipe Cama tem uma obra calcada em procedimentos da cultura das redes que evidenciam ambivalências de sua velocidade e de seu imediatismo. No trabalho Search: Ericka (2009), partiu de um nome para criar a biografia fictícia de uma pessoa real, em buscas no Google. “Eu estava pesquisando que tipo de história a internet conta, por seu próprio meio”, explica. O resultado são 35 pinturas que dão forma aos dados encontrados. “Nessas buscas sobre pessoas comuns, não se encontram tragédias. Só há bons momentos, o que acaba padronizando todo mundo”, pondera.

Como se analisasse sua linha do tempo no Facebook, o artista criou a série Autorretratos Estatísticos (2012), em que seus estados de humor, hemogramas e até as vezes em que esteve com a filha são computados em um certo período de tempo, transformados em gráficos e depois pintados ou impressos, em um resultado visual geométrico e, por vezes, construtivista, num jogo poético sobre o que define uma pessoa.

Na série de pinturas Notícias de Lugar Nenhum (Made in China), de 2010, incorpora a ação em rede ao reunir diversas fotos de pessoas defronte à Cidade Proibida, da China (uma delas, um autorretrato), para depois serem executadas em óleo sobre tela por uma fábrica de pintura de lá. “Encomendei as pinturas, 40 no total, paguei no cartão de crédito e em 20 dias elas chegaram. Sem internet isso não seria possível”, diz.

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Legenda: Carolina Beach, North Carolina #1 (2013), fotografia da série Relations, de Laurel Nakadate (foto: Laurel Nakadate / Cortesia Leslie Tonkonow Artworks + Projects, New York)

Laurel Nakadate: a distância entre eu e outro

No verão de 2011, Laurel Nakadate começou a convidar amigos do Facebook – e amigos de amigos – para encontrá-la à noite, em cantos remotos dos Estados Unidos e da Europa. Desses encontros surgiu a série Star Portraits (2011), em que retrata seus interlocutores contra céus escuros, em longas exposições. No mesmo verão, a artista – nascida no Texas e de origem japonesa-americana – fez um teste de DNA para descobrir detalhes de sua origem materna. Ao frequentar sites de correspondência com estranhos que compartilham do mesmo DNA , Laurel Nakadate começou a conformar outro corpo de trabalho. Relations Series (2011-2013) é um álbum de familiares desconhecidos que retrata parentes genéticos distantes: mulheres, homens e crianças de backgrounds raciais, religiosos e socioeconômicos diversos, localizados em 31 estados dos EUA . Na pesquisa, Nakadate teve a satisfação de descobrir, por exemplo, uma relação ancestral com a líder feminista Anne Hutchinson.

Star Portraits e Relations Series investigam os espaços e as distâncias entre ela e os outros, reproduzindo um pouco o que acontece nas redes sociais, quando compartilhamos nossa identidade com estranhos. Comprometidos com questões existenciais sobre solidão e sociabilidade, ambos os trabalhos dão continuidade a uma pesquisa que começou em 2000, quando a artista se autorretratava em interação com homens contatados em classificados de jornais. “Nos meus primeiros vídeos, eu aparecia fisicamente no trabalho. Nesses novos retratos, é meu DNA que aparece no corpo de desconhecidos. De alguma forma, essas imagens são autorretratos modernos”, diz ela.

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Legenda: A obra Fax Performance (1985), é um dos exemplos da utilização pioneira de meios tecnológicos pelo artista Paulo Bruscky, que já trabalhava com processos relacionais bem antes do advento da rede virtual (foto: Foto: Cortesia Galeria Nara Roesler)

Paulo Bruscky: arte em rede antes da internet

“Eu já fazia arte em rede muito antes da internet.” A afirmação não deixa dúvidas quando se sabe que seu autor é o recifense Paulo Bruscky, um dos pais brasileiros da utilização de novas mídias na arte. Mimeógrafo, xerocópia, correio, fax, e-mail e mesmo aparatos da medicina, como eletrocardiograma e eletroencefalograma, são “companheiros” nas experiências radicais do artista em busca de uma poética em total relação com a vida. “Agradeço sempre às máquinas pelas parcerias criadoras. Acho que o papel do artista é colocar ‘alma’ nas máquinas e subvertê-las de suas ‘funções’, trabalhando sempre com o acaso e a ousadia.”

* Publicado originalmente na edição impressa #15. Acesse galeria de imagens adicionais aqui.

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