Corpo vulnerável

Artista-ativista Fyodor Pavlov-Andreevich aborda a escravidão em uma série de performances

Manuel Pessôa
Monumento Temporário n.4, O Enforcado, de Pavlov-Andreevich (Foto: Igor Afrikyan)

A mostra Monumentos Temporários reúne um ciclo de performances do artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich apresentadas em uma sequência de microfilmes e impressões digitais em acrílico sobre alumínio e madeira. É emblemático que um trabalho que aparece na esteira do boom de performances no mercado de arte contemporânea faça menção à dimensão temporal e efêmera contra a comoditização (transformação em commodity) que definiu essa prática no fim dos anos 60. Aqui, a absorção do temporário por instâncias mais perenes, como a do museu, adquire conotações explicitamente políticas que tocam em questões de cunho social urgentes. Monumentos Temporários oferece um olhar sobre o problema da escravidão que ainda opera nos dias de hoje. A ligação direta entre temporalidade e um teor político explícito constata uma urgência que ultrapassa o campo do estético e avança na direção de uma arte-ativista.

Cada uma das performances de Monumentos Temporários submete Pavlov-Andreevich a um suplício. Embora as ações transitem principalmente por locais do Brasil e da Rússia, o artista não necessariamente faz uma leitura da escravidão nesses países, mas usa elementos recolhidos de ambos os territórios para delinear uma poética que chega a ter contornos arquetípicos. Um exemplo é o Monumento Temporário n.4, O Enforcado. Neste, ele pende de ponta-cabeça de uma árvore solitária em meio a uma queimada, reconstituindo um (dentre muitos outros) castigo físico presente na história da escravidão, ao mesmo tempo que remete a uma figura do tarô também chamada O Enforcado. Seu Monumento Temporário n.6 comenta o dramático fato ocorrido no Brasil, onde um menor infrator fora acorrentado nu a um poste no espaço público.

Esses dois exemplos ilustram o escopo de uma obra cuja extensão abarca desde a menção a acontecimentos específicos de contextos locais até a reflexão sobre a nossa própria condição escravizada. Os Monumentos de Pavlov-Andreevich muitas vezes são testemunhos da exploração do homem pelo homem, que sucumbem ao tempo e perdem seu significado original. No entanto, a escravidão que opera na efemeridade das gerações continua viva e, na temporalidade da violência, segue monumental.

Serviço
Monumentos Temporários
MAC-USP
Av. Pedro Álvares Cabral, 1.301 – São Paulo
Até 13/8
www.mac.usp.br

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