Da lama à teoria do caos

Giselle Beiguelman

Publicado em: 26/12/2014

Categoria: Perfil, Reportagem

Porto Digital, no Recife, mescla preservação arquitetônica com fomento à criatividade tecnológica

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Legenda: Prédio histórico no centro do Recife, onde fica o Porto Digital (foto: Bárbara Wagner)

No início dos anos 1990, o Manguebit de Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A marcou a cena musical, reinventando Recife na paisagem cultural brasileira. Combinando ritmos regionais com hip-hop, funk, música eletrônica e os primórdios da cultura digital, um bando de vorazes “caranguejos com cérebro” – título do manifesto assinado por um de seus pioneiros, Fred Zero Quatro – apostava na emergência como potencial inequívoco do ecossistema da cidade.

Tempos mais tarde, no ano 2000, essa hipótese seria revisitada no projeto do Porto Digital. Congregando recursos públicos, privados e laços com universidades, o Porto Digital ocupa o Bairro do Recife e, desde 2011, com seu novo braço, o Porto Mídia, também o bairro de Santo Amaro. Enquanto o primeiro concentra as áreas de Tecnologia da Informação, o segundo está voltado para as indústrias criativas (como games e design). A combinação entre tecnologias de ponta e ações de recuperação de patrimônio arquitetônico é o grande diferencial do projeto. Via de regra, ações urbanísticas relacionadas à TI culminam em torres espelhadas de gosto duvidoso. Já as relacionadas ao patrimônio histórico tendem ao uso em formato de centros culturais. O resultado desse processo, ainda em curso, foi um complexo de 200 empresas, agora expandido no Porto Mídia com laboratórios de impressão 3D e pós-produção cinematográfica. Esse conjunto constitui um dos polos de criatividade mais interessantes da atualidade. Em torno dele gravita um incalculável capital humano de massa crítica, não vinculado integralmente ao Porto, mas que aponta, a partir dele ou de sua crítica, possibilidades de apropriação construtiva e coletiva das mídias e das tecnologias. seLecT conversou com alguns personagens desse caldeirão atômico que faz a alquimia da lama à teoria do caos.

Meira

Legenda: Silvio Meira, por Bárbara Wagner

O fundador
Silvio Meira, Engenheiro e cientista da computação

Eu fui um dos caras que estavam lá na concepção do que hoje é o Porto Digital, mas minha ideia inicial era a de um cluster de tecnologia ao redor da Universidade Federal de Pernambuco. Quem nos convenceu da ida para o Centro, dos desafios e oportunidades que havia para ocupar, renovar e reviver o Centro do Recife, na ilha onde a cidade foi fundada e que estava, na época, em estado de grave desmantelamento urbano foi Cláudio Marinho, secretário de Ciência e Tecnologia de Pernambuco naquele tempo. Cláudio é um pensador, humanista e um grande urbanista e já enxergava, lá atrás, coisas que nós só conseguimos ver muito tempo depois. Antes do Porto Digital, o Bairro do Recife, que foi onde começamos o esforço de “reinvadir” o Centro da cidade, à revelia do governo municipal à época, estava a caminho de se tornar algo parecido com o que se chama, pejorativamente, de “Cracolândia” paulista. Quase todas as características já estavam no lugar. Nós chegamos como uma espécie de guerrilha urbana não violenta, tentando articular todos os atores, literalmente todos, para ver se era possível retomar o Recife Antigo para a cidade, para a cidadania… e, sim, era possível. Hoje o Recife Antigo é palco das principais experiências de renovação, informatização, mudança de modelos de negócios da cidade e aponta para o futuro, em vez de ser apenas uma triste memória do passado. Eu aprendi muito com tudo o que aconteceu até aqui… Se minha ideia original tivesse ido em frente, o que hoje é o Porto Digital seriam alguns arranha-céus gigantes ao lado do campus da UFPE. Torres de aço, vidro, elevadores, heliportos… ainda bem que alguém me disse que havia uma forma muito mais urbana, bem mais humana e equilibrada de fazer quase a mesma coisa, de uma maneira muito mais dinâmica e com um potencial de impacto bem maior para a cidade. Foi aí que tecnologia se encontrou com história, arquitetura, urbanismo, arte, e se deu o enredo que hoje a gente chama de Porto Digital. Ainda bem… ainda bem.

Mabuse

Legenda: h.d. mabuse, por Bárbara Wagner

O autodidata
H.D. Mabuse, designer do C.E.S.A.R (um centro privado de inovação)

Ser artista, designer, ativista e pioneiro da era do manguebit que foi parar no Porto Digital, trabalhando num de seus polos de pesquisa mais importantes – o C.E.S.A.R – sem ter nenhuma formação acadêmica, nem técnica, não é a cara do Porto Digital, mas uma característica do Recife! Em grande escala esse fenômeno acontece desde os anos 1990, mas não exclusivamente. Na nossa história temos nomes como Daniel Santiago, Aloisio Magalhães e Paulo Bruscky, entre outros, que sempre flertaram com a produção artística híbrida. Hoje, essa diversidade é o DNA do C.E.S.A.R. O mais gratificante desse processo é perceber a mudança de uma imagem da cidade e a possibilidade de com isso gerar projetos como o N.A.V.E, de ensinar cultura digital por meio da produção de games, formando jovens. E hoje eles estão trabalhando com a gente, lado a lado… Acreditava que haveria um barateamento induzido dos imóveis e um “desinvestimento” nos automóveis. Isso nunca aconteceu. Mas essa relação entre cultura de ponta (tecnologia) e história (patrimônio arquitetônico) é uma matéria-prima fantástica para escrever o futuro.

Duda

Legenda: Maria Duda, por Bárbara Wagner

A segunda geração do porto
Maria Duda, coordenadora de projetos do porto mídia

O Porto Mídia é a área de ação mais nova do Porto Digital. Está funcionando há um ano. É uma OS (Organização Social) e todo o seu dinheiro é público (seja ele municipal, estadual ou federal). Suas bases são a capacitação técnica, o fomento aos novos negócios (por meio de uma incubadora no Porto Digital), o estímulo à experimentação (com salas de equipamentos de ponta a que as pessoas não teriam acesso) e espaço expositivo. Mas todas as atividades são fruto de políticas públicas. Ainda que estejamos definindo muitas coisas, os cursos seguem diretrizes que são dadas a partir de uma visão de políticas públicas orientadas para o melhor. Por exemplo, acabamos de trazer uma colorista superimportante, a Vanessa Taylor. Ela trabalhou no Harry Potter, no Grande Gatsby, é uma das mais destacadas da sua área, e veio dar um curso aqui por um preço que é 15% do que custaria em qualquer lugar do mundo. Enfim, é o critério do melhor, mas sempre relacionado ao fomento do mercado da economia criativa.

Caligario

Legenda: Filipe Caligário, por Bárbara Wagner

Naturalmente digital
FIlipe Caligário, Doutorado do Centro de Informática – UFPE

Espaços como o Porto Mídia são importantes para a formação de uma nova cultura de inovação, pois são locais de integração entre as tecnologias digitais e as teias criativas. É na interseção de onde saem as melhores ideias. Mas acredito que é preciso um certo nível de liberdade de experimentação. É preciso que o ambiente permita que aconteçam erros, ou até que encoraje os erros. É necessária uma atmosfera de geração, prototipação, maturação, combinação, transformação, descarte e desenvolvimento de ideias. A exigência de resultados imediatos talvez faça com que as ideias superficiais e lineares sejam escolhidas em primeiro lugar e ideias mais poderosas, mas que não têm uma aplicação direta no mercado, sejam deixadas de lado. Existe a necessidade de uma meiqueofagia, uma deglutição do movimento maker, inspirada na Gambiologia, que tem o intuito de criar uma identidade local, combinando (e confrontando) o certinho e o perfeito com a imperfeição, a praticidade e a estética da gambiarra. A ideia é de não esperar para fazer. É descobrir fazendo, tentando e errando.

*Perfil publicado originalmente na edição #21

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