Dança das cadeiras

Com históricos recentes de trocas de bastão, projetos suspensos e encerramento de atividades, quais os desafios que as instituições brasileiras enfrentarão em 2017

Daniela Bousso
Simulação de ambiente interno da nova sede do Instituto Moreira Salles na Avenida Paulista (Foto: Cortesia IMS-RJ)
Simulação de ambiente interno da nova sede do Instituto Moreira Salles na Avenida Paulista (Foto: Cortesia IMS-RJ)

No fim de 2016, a Pinacoteca de São Paulo anunciou o nome de Jochen Volz como diretor-geral e agradeceu a contribuição de Tadeu Chiarelli por dois anos à frente do museu. Ele agora reassume a função de professor em tempo integral na USP, onde leciona há 35 anos. Volz assume o cargo em maio, com a missão de dar continuidade ao trabalho de Chiarelli e avançar um passo em relação à internacionalização da Pinacoteca.

Mas são poucos os casos, hoje, em que a mudança reverte a favor das instituições. O reflexo da bagunça generalizada em que o País mergulhou em 2016 é visível em museus com escassez de recursos. Há uma dose ampliada de tropeços e dificuldades de Norte a Sul.

Pablo León de La Barra, novo curador do MAC Niterói (Foto: Cortesia Quien Magazine México)

Pablo León de La Barra, novo curador do MAC Niterói (Foto: Cortesia Quien Magazine México)

No Rio de Janeiro, no primeiro semestre de 2016, a Secretaria de Cultura do Estado rompeu o contrato de gestão com a OCA Lage, organização social de cultura que regia a Escola de Artes Visuais do Parque Lage e a Casa França-Brasil, e o diretor-executivo Marcio Botner deixou o cargo. Lisette Lagnado, que entrou a convite de Botner, permaneceu como diretora artística e o curador Pablo León de La Barra deixou a Casa França-Brasil. Marcelo Campos assumiu. Crise instaurada, o repasse de recursos às duas instituições volta a ser de responsabilidade exclusiva do estado do Rio de Janeiro, hoje falido. De La Barra não chegou a completar um ano de atuação independente: neste último fevereiro, foi nomeado curador do MAC Niterói, ao mesmo tempo que Marcelo Velloso assumiu a diretoria.

O Museu de Arte do Rio (MAR) também perdeu seu diretor artístico, Paulo Herkenhoff, no segundo semestre de 2016 e em seu lugar assumiu Evandro Salles, com a perspectiva de continuar o seu trabalho. Em abril, Luiz Camillo Osorio deixou a curadoria do MAM-RJ e o crítico Fernando Cocchiarale passou a dividir a direção artística nas artes visuais com a curadora Fernanda Lopes. Para Cocchiarale, que já havia sido curador do MAM-RJ entre 2001 e 2007, “essa gestão está sendo uma nova experiência e há curadores de outras áreas, como cinema e design, além da reestruturação dos setores de pesquisa e documentação. A ideia é dar ênfase às coleções do MAM, de Joaquim Paiva e de Chateaubriand, além de projetos de exposições temporárias e programas de curadores convidados. Talvez dois por ano, mas isso dependerá de recursos”, diz à seLecT.

Fernando Cocchiarale, que reassumiu a direção artística do MAM-RJ com a saída de Luiz Camillo Osorio (Foto: Cortesia MAM-RJ)

Fernando Cocchiarale, que reassumiu a direção artística do MAM-RJ com a saída de Luiz Camillo Osorio (Foto: Cortesia MAM-RJ)

Pauliceia desvairada
Em São Paulo, André Sturm, diretor-executivo da OS de cultura que rege o MIS e o Paço das Artes, deixou o cargo para assumir como secretário municipal de Cultura – passando a bola para o diretor-administrativo Jacques Kahn e a cineasta Isa Castro (programação do MIS). Em março de 2016, o governo de São Paulo forçou a saída do Paço das Artes do edifício que a instituição ocupava na USP, para desenvolver uma fábrica de vacinas. O espaço permanecia lacrado e vazio até o fechamento desta edição (fevereiro de 2017) e a diretora artística Priscila Arantes trabalhava dividindo sua programação entre os espaços do MIS, da Oficina Oswald de Andrade e ações desenvolvidas junto ao projeto Ocupação Cambridge, no Centro de São Paulo.

O Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP), que ficou por mais de um ano sob direção interina da curadora Katia Canton, finalmente ganha um rumo mais claro com a direção geral de Carlos Roberto Ferreira Brandão. E a antiga sede do museu na Cidade Universitária está agora sob a coordenação dos departamentos de Artes Plásticas, Música e Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA), onde foi inaugurado, em janeiro último, o Espaço das Artes. As curadorias das exposições inaugurais do novo espaço ficaram a cargo dos artistas e professores da ECA, Marco Giannotti, Dora Longo Bahia e Mario Ramiro.

“Este é um projeto que estamos curtindo muito, pois as instalações do antigo MAC representam um dos melhores espaços expositivos da cidade. A questão vai ser como manter isso em pé. Inauguramos uma mostra de ex-alunos da pós em novembro e a mostra anual dos formandos em dezembro. Mesmo com pouco, estamos conseguindo fazer direito esse trabalho”, conta Ramiro à seLecT.

Sem horizonte ficou o Museu da Língua Portuguesa, que perdeu o diretor de programação Antonio Sartini – sem substituição –, uma vez que a sede do museu na Estação da Luz foi dizimada por um incêndio em 2015.

Velhos problemas
O Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM), no Recife, é outro caso de instabilidade. A atual diretora, Beth da Matta, assumiu em 2009 com o museu fechado ao público, em meio a uma reforma paralisada. Passando por cima da frustração pela total ausência de recursos por parte das políticas públicas, ela retomou a reforma e reabriu o museu apenas com o térreo em funcionamento. O MAMAM mantém-se aberto com doações de obras de artistas, com o edital do Prêmio Marcantônio Vilaça e com contrapartidas que advêm de parcerias com outras instituições que oferecem mostras itinerantes, as quais custeiam novas exposições de artistas locais.

Temos aí o exemplo do esforço pessoal da diretora Beth da Matta, mas hoje isso é insuficiente para a construção de um plano museológico que permita escolhas de programação.

Em Porto Alegre, Fabio Coutinho, superintendente cultural da Fundação Iberê Camargo, atribui o abalo na estrutura financeira da instituição à crise política e econômica pela qual passa o País. “Os patrocinadores estão tendo prejuízo e fica difícil fazer aportes com dinheiro incentivado. Um dos nossos problemas na gestão cultural é a falta de uma política de Estado”, diz Coutinho à seLecT. O projeto educativo segue de pé e o foco da gestão continua sendo o acervo, cujas obras já estão digitalizadas. Já mostras concebidas com três anos de antecedência, como exposições de Joaquín Torres Garcia, William Kentridge e Regina Silveira, estão suspensas. O museu praticamente fechou suas portas ao público, e abre apenas às sextas e sábados. Após várias demissões conta agora com 45 funcionários.

Novas perspectivas
No último dia 25 de janeiro, a Pinacoteca de São Paulo anunciou a inauguração em 2018 de sua terceira sede, a Pina Contemporânea. Diretoria e conselho do museu estudam propostas inovadoras para o futuro espaço, que estará dentro do Parque da Luz, a 50 metros de distância da Pinacoteca. “A ideia é que os artistas se aproximem do dia a dia do museu e que eles possam compartilhar experiências de forma inédita”, informou Chiarelli, ainda que os planos sejam embrionários.

Lorenzo Mammi, diretor artístico do Instituto Moreira Salles (Foto: Paulo D'Alessandro)

Lorenzo Mammi, diretor artístico do Instituto Moreira Salles (Foto: Paulo D’Alessandro)

Dois espaços promissores tomam impulso em 2017. Com previsão de abertura no segundo semestre, a nova sede paulistana do Instituto Moreira Salles (IMS) parece um sonho no cenário cultural brasileiro. Com 1,5 mil metros quadrados distribuídos em três andares, o edifício projetado pelo Escritório Andrade Morettin foi pensado de forma a trazer a rua – a Avenida Paulista, com suas várias tribos – para o interior. Focado em fotografia, música, cinema e literatura, o IMS tem curadoria do crítico Lorenzo Mammi, agora com a missão de homogeneizar a programação das sedes carioca e paulista.

“Será uma ampliação do que fazemos no Rio e não uma ruptura. Não haverá exposições blockbuster. Nosso orçamento não é grande, mas é fixo e vai manter-se por 40 anos, a partir de um fundo aportado pela família Salles e de novos aportes realizados pelos filhos”, diz Mammi à seLecT. “A instituição poderá manter-se com os juros de longo prazo. Isso nos permite trabalhar em projetos de fôlego, planejados com dois anos de antecedência. Mas há uma regra estatutária: não utilizamos dinheiro público, é isso que nos permite tomar o tempo necessário para cada projeto.” Com essas palavras, Mammi, sem dúvida, acalenta o desejo de muitos profissionais de museus brasileiros.

O IMS pretende agora tratar a fotografia como um universo expandido. Lorenzo afirma que não haverá mais distinção entre foto, vídeo, cinema e internet, e que essa questão será tratada, teórica e conceitualmente, também em oficinas. São três os desafios: mostrar a fotografia brasileira a partir do acervo de mais de 2 milhões de imagens, em exposições transversais; abolir as fronteiras entre os meios; exibir obras internacionais, como The Clock, de Christian Marclay, que abre a instituição na segunda semana de julho.

Cauê Alves, diretor artístico do MuBE (Foto: Paulo D'Alessandro)

Cauê Alves, diretor artístico do MuBE (Foto: Paulo D’Alessandro)

O novo MuBE é a segunda promessa do ano, com o projeto de repensar a tridimensionalidade no Brasil contemporâneo. Depois de uma transição que durou uma década, o estatuto do museu foi redesenhado por Flavia Velloso, em 2016. Entraram no Conselho as colecionadoras Cleusa Garfinkel e Karla Meneghel, que convidaram o curador Cauê Alves para a direção artística.

“Fundamental construir acervo e programação seguidos de um plano museológico”, diz Alves à seLecT. “Hoje, o MuBE tem um acervo de apenas oito obras que permaneceram na área externa do museu por 20 anos. Serão restauradas e estarão em projetos de itinerância para outras cidades. Pretendemos integrar o museu à cidade, um contato mais franco com o espaço que explore a relação da paisagem de Burle Marx com a arquitetura e a tridimensionalidade.”

Cauê Alves pensa na construção de um acervo de obras-projetos. “A não fisicalidade do acervo é uma das linhas, mas não a única. Vamos pensar o educativo como parte do trabalho curatorial”, diz. Para gerar receitas, os conselheiros devem fazer um aporte anual de recursos à instituição, além de leis de incentivo e eventos nos intervalos das exposições.

As atuais gestões do MuBE e do IMS são exemplos raros de profissionalização de museus e espaços de arte contemporânea entre nós. Sabemos que o Brasil sofre de descontinuidade crônica – seja em projetos sociais e educacionais que deveriam ser de longo prazo, seja no meio cultural e artístico – em que a ação das organizações sociais é duvidosa. Mas propostas como essas, amparadas pela sociedade civil, dão um sabor de esperança à geleia geral em que o Brasil patina.

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