Democratização da arte

Exposição com curadoria de caráter social, realizada a partir do acervo do Masp, percorre diversas capitais

Ana Abril
Amaú, Aldeia Gorotire (1983), fotografia de Miguel Rio Branco, em exposição no CCBB-RJ (Foto: Divulgação)

Se fosse preciso escolher uma única palavra para descrever a mostra Entre Nós – A Figura Humana no Acervo do Masp, ela seria: democrática.

Com curadoria de cunho social evidente e que deixa sua “casa”, o Museu de Arte de São Paulo (Masp), para transitar por várias capitais do Brasil, a exposição busca atingir todos, social e geograficamente.

O recorte consiste em uma ampla seleção de mais de cem trabalhos, nos quais a figura humana é o fio condutor. Pinturas, esculturas e vídeos de artistas que vão desde Rafael Sanzio até Yuri Firmeza, passando por Pablo Picasso e Claudia Andujar, reúnem mais de mil anos de história da arte.

O destaque, porém, é o abandono do tradicional recorte cronológico e espacial. Em vez disso, trabalhos de artistas clássicos europeus, como A Ressurreição de Cristo (1499-1502), de Rafael, dialogam com autores desconhecidos, como é o caso das esculturas da divindade Yorubá, venerada em tribos do Congo e da Nigéria.

Luciano Migliaccio, curador do Masp e da mostra juntamente com Rodrigo Moura, nomeia a nova abordagem da curadoria como “história social da arte”, ou seja, “uma visão crítica que compreende o fenômeno estético dentro da evolução histórica e social das diversas culturas e que pode apresentar as relações que se estabelecem entre elas”. Segundo o curador disse à seLecT, essa abordagem é “de grande relevância no caso de um país como o Brasil, que quer pensar a sua história como o resultado da contribuição de várias culturas”.

Sob essa premissa, a cultura popular brasileira também se faz presente em obras de Candido Portinari e Maria Auxiliadora da Silva. O muralista mexicano Diego Rivera divide espaço com Lasar Segall e Ernesto de Fiori, imigrantes que ganharam o reconhecimento no Brasil. A diversidade afirma-se nos desenhos de Albino Braz, paciente do Hospital Psiquiátrico do Juquery, e no acervo fotográfico brasileiro, com Miguel Rio Branco e Barbara Wagner. O contraponto contemporâneo, por sua vez, vem da mão de artistas como Nelson Leirner e Thiago Honório.

Além de se destacar por sua importância cultural e curadoria plural, a exposição é, certamente, um ato de democratização da arte. Isso porque parte do maior acervo de arte da América Latina deverá circular pelas sedes do CCBB de Belo Horizonte e Brasília, após deixar a do Rio de Janeiro, em 10/4. Além disso, a entrada será gratuita, fato que não pode ser desvalorizado, uma vez que os R$ 30 cobrados para entrar no Masp (à exceção das terças-feiras) muitas vezes restringem o acesso à arte aos turistas e aos setores com maior renda.

Alçando o conceito de democratização ao seu patamar mais idílico, o ideal seria Entre Nós ser capaz de ultrapassar as fronteiras invisíveis do centro brasileiro para chegar a outras cidades no Norte e Nordeste do País, onde as ofertas culturais são notoriamente deficientes. De qualquer forma, a mostra é um sopro de inclusão nem sempre presente no universo artístico nacional.

Serviço
ENTRE NÓS – A Figura Humana no Acervo do Masp
CCBB-RJ
Rua Primeiro de Março, 66 – Rio de Janeiro
Até 10/4
www.culturabancodobrasil.com.br

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