Despertar a memória

Com longa pesquisa sobre o poder de lembrança e apagamento da fotografia, Rosângela Rennó envereda sobre os mistérios da memória olfativa

Paula Alzugaray
Trabalho da exposição O Espírito de Tudo, de Rosângela Rennó, no Oi Futuro Flamengo (Fotos: F3/Agência - Cristina Lacerda)

Há uma expectativa de abarcar a totalidade, em duas grandes séries de trabalhos de Rosângela Rennó. O Arquivo Universal, realizado a longo prazo, entre 1992 e 2003, foi formado por vasta coleção de textos de jornais e fotografias apropriadas de coleções pessoais e arquivos institucionais. A série foi integralmente mostrada em exposição no CCBB Rio em 2003 e virou um livro. Agora, O Espírito de Tudo, no Oi Futuro Flamengo, introduz ao público outra pesquisa da artista mineira residente no Rio de Janeiro há cerca de três décadas: a memória extraída do olfato. No Arquivo Universal, Rennó manipulava textos e imagens, retirando-lhes legibilidade (no caso das fotos) e objetividade (textos jornalísticos), para aplicar-lhes outras camadas de sentidos e reorganizar tudo segundo novas ordens. Em O Espírito de Tudo a artista volta a se munir de uma metodologia arquivista, para mergulhar na literatura dos sentidos e memórias despertados pelos odores e perfumes.

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Obra Per fumum (2016), instalada no hall de entrada da exposição O Espírito de Tudo, de Rosângela Rennó

A experiência da exposição começa estimulada pela etimologia da palavra perfume: per fumum – através da fumaça –, impondo ao visitante uma certa calibragem sensorial. O que há no incenso para tornar alguém místico? No âmbar cinzento para atrair paixões? Na magnólia que turva a imaginação? Na violeta para despertar a memória de um romantismo morto? As indagações lançadas por Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray (1891) – que tem trecho transcrito na parede – são perseguidas pela artista na obra Per fumum (2016), instalada no hall de entrada. “A fumaça é para várias filosofias e religiões uma forma de conectar o material e o imaterial”, diz Rosângela Rennó. “Todas estas resinas tem propriedades científicas e sanitárias, mas há um grande mistério: a ciência não explica os mecanismos envolvidos na leitura que o cérebro humano faz dos cheiros”.

  • Lanternas mágicas, projetores usados no século 19 em teatros de sombras e apresentações de ilusionismo

A identificação dos seis trabalhos expostos com temas que tocam o segredo, o misticismo e a espiritualidade surgiu a partir de conversas da artista com a curadora Evangelina Seiler. De fato, O Espírito de Tudo parece querer colocar no mesmo patamar aquilo que sabemos e tudo o que não compreendemos racionalmente. Em Per fumum, a queima de incensos se sobrepõe a textos sobre as propriedades científicas dos elementos. Na sala 1, a instalação Lanterna Mágica (2012) integra no mesmo espaço uma coleção de lanternas mágicas, projetores usados no século 19 em teatros de sombras e apresentações de ilusionismo, e uma série de fotografias ampliadas por meio deles. “Essa fotografa mostra a arte como história, como técnica e como memória, mas também ascende ao fantasmagórico, ao mágico, ao religioso, e se casa com a lanterna mágica já ancestralmente usada em sessões de ocultismo, como se a artista tentasse promover uma volta da arte ao seu aspecto mítico”, escreve Evangelina Seiler no texto curatorial.

Embora Experiência de Cinema (2004) fizesse parte da curadoria, lamentavelmente não pode ser remontada por razões técnicas. A obra, que revela a imagem projetada sobre uma cortina de vapor, teria sido o arremate perfeito de uma exposição que relaciona a memória à imaterialidade da fumaça. Ainda assim, incide sobre os mistérios implícitos nas coisas materiais em Realismo Fantástico (1991), uma máquina misteriosa que projeta espectros de luz.

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Trabalho Realismo Fantástico (1991), uma máquina misteriosa que projeta espectros de luz

Serviço
O Espírito de Tudo, de Rosângela Rennó
Oi Futuro Flamengo
Rua Dois de Dezembro, 63 – Rio de Janeiro
Até 29/1/2017

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