Do Pará para o Brasil

Em seu primeiro disco-solo, Treme, Gaby Amarantos mostra que a música pop brasileira é muito mais do que samba e axé

Nina Gazire

Publicado em: 09/08/2012

Categoria: Da Hora, Reportagem

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Talvez o dado mais impressionante em relação ao mais recente fenômeno pop brasileiro, a paraense Gaby Amarantos, não seja o surgimento de uma cantora,mas o fato de que o Brasil esteja descobrindo o que já não era novidade. As Aparelhagens são festas que acontecem na Região Norte do País há muito tempo. O termo tem origem no aparato (uma espécie de nave espacial formada por pick-ups e caixas de som) de onde o DJ controla as misturas que deram origem ao tecnobrega e ao tecnomelody.

A música brega em si é menos novidade ainda e é algo que está urdido na nossa cultura de maneira indissociável, sendo quase um fato natural que ela tenha ganho uma roupagem eletrônica – como todos os ritmos musicais receberam nos últimos tempos. E, convenhamos, a banda Calypso já levou seu tecnomelody por aí e os figurinos usados pela vocalista Joelma fazem da excentricidade de Lady Gaga coisa ultrapassada.

Gaby Amarantos

 

Fenômeno regional que atinge uma escala que ultrapassa seus limites territoriais, o primeiro disco-solo de Gaby Amarantos bebe nas festas de Aparelhagem e está aí para mostrar – para um público que não possui familiaridade – a amálgama cultural da música paraense. Esse é seu grande trunfo. No álbum, o tecnobrega não se dá apenas pela equação tecno + brega.

Há muito mais mistura que nasce dos ritmos do carimbó, da guitarrada e do siriá. Além disso, composições clássicas do sertanejo, como a versão de Coração em Pedaços, de Zezé de Camargo e Luciano, recebem roupagem dançante, tendência presente também nas canções mais novas desse gênero.Toda essa lavagem pop que o brega/popular paraense recebe com propriedade – toda a produção e execução do disco foi feita por artistas locais em colaborares.ção com a cantora, exceto na composição de duas faixas – justifica o interesse da mídia em inserir o álbum Treme no circuito nacional como a nova promessa da música brasileira.

E a justificativa vai mais além. É dada como uma espécie de reconhecimento da expertise da classe C (da produção cultural de regiões mais pobres do País) em dar um tratamento próprio e criativo aos produtos de consumo, muitas vezes já exauridos pela entediante classe média brasileira. E certamente a música é um desses produtos.

Ex My Love, quarta faixa do disco, por exemplo, é trilha de abertura de Cheias de Charme, novela global que pela primeira vez tem como protagonistas três empregadas que se tornam cantoras populares de sucesso. Treme mostra não só a riqueza a ser descoberta no Pará, mas também novas possibilidades para a música brasileira, que vai muito além do samba e do axé.

Treme, Gaby Amarantos,
Som Livre, R$ 14,90

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