E Malfatti criou o modernismo

Retrospectiva mostra pioneirismo da pintora que, a despeito das críticas, esteve sempre à frente de seu tempo

Luciana Pareja Norbiato
Retrato de Mulher (estudo para A Boba, 1915-16) (Foto: Leonardo Crescenti, Coleção Museu de Arte Brasileira, MAB-FAAP)

“Anita Malfatti é uma artista que todos conhecem… mas ninguém conhece”, diz Regina Teixeira de Barros, curadora da exposição em cartaz no MAM de São Paulo. Ela tem razão. É célebre a história da crítica ferrenha que Monteiro Lobato fez à primeira exposição da artista, da qual ela nunca teria se recuperado. Pois a história prova que ela não só se recuperou como demonstrou que, com sua pintura primorosa, não foi mera coadjuvante do modernismo de Oswald e Mário de Andrade, mas sim sua fundadora. Parece estranho que os dois artistas com quem Malfatti formou o Grupo dos Cinco (unidos ainda a Menotti del Picchia e Tarsila do Amaral) tenham se tornado mais famosos do que aquela que foi a inspiração de todos eles. Inclusive da Semana de Arte Moderna de 1922, na qual ganhou lugar de destaque no saguão do Theatro Municipal, com um bom conjunto de suas telas e desenhos.

Todas essas histórias estão na retrospectiva, um percurso cronológico que mostra como a pintora esteve à frente de seu tempo mesmo para negar as premissas que antes seguiu. A pincelada errática e o domínio da técnica flertaram com quase todas as vanguardas europeias da primeira metade do século 20, até transgredir a norma culta. Nos anos de formação na Alemanha e nos EUA, absorveu as cores do fauvismo e aplicou em paisagens vibrantes, e exportou o impacto do expressionismo e do cubismo aos nus e retratos. Aventurou-se na gravura em metal e refinou em desenhos o traço da mão esquerda (tinha um defeito congênito na mão direita que a forçou a se tornar canhota).

Quando foi estudar em Paris, entre 1923 e 1928, graças a uma bolsa do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, retomou um virtuosismo de acento acadêmico que pareceria demodé a muitos dos modernistas, mas não a ela, que cotejava os cânones clássicos e modernos sem perder a mestria. Finalmente, já nas últimas décadas de sua vida, ao tomar contato com a obra de Heitor dos Prazeres e José Antônio da Silva, enveredou pelo naïf sem cerimônia, buscando uma pintura livre.

Mulher e artista precursora, Malfatti não se deixou acomodar no traço mais fácil ou consagrado, desafiando a todo tempo a vanguarda do momento. A amostragem ampla que o MAM-SP traz a público agora, passados cem anos da primeira exposição de arte moderna (a individual de 1917 duramente atacada por Monteiro Lobato), fortalece a sigla do museu e mostra que só o tempo compreende de fato aqueles que a ele se adiantam. Não admira que galeristas afirmem que a arte brasileira ainda não foi plenamente valorizada pelo mercado internacional. Anita Malfatti não deve nada aos estrangeiros de seu tempo.

Serviço
Anita Malfatti: 100 Anos de Arte Moderna
Museu de Arte Moderna de São Paulo
Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3 – Parque do Ibirapuera
Até 30/4
www.mam.org.br

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