Ensino médio: de que reformas precisamos?

A arte qualifica o cidadão livre, pois a liberdade é condição da criação artística

Rosa Iavelberg
Rosa Iavelberg é professora livre-docente da Faculdade de Educação da USP, onde ministra a disciplina Metodologia do Ensino da Arte, na graduação, e Arte na Educação, na pós-graduação (Foto: Cortesia da autora)

Arte é um componente importante do currículo escolar, porque promove o pensamento artístico e as interações simbólicas. Os atos de criação e reflexão sobre arte, realizados pelos alunos, dialogam com a produção artística do presente e do passado em sua diversidade. Esse diálogo favorece o aluno, pois ele se percebe como alguém que pensa e faz arte entre colegas, estabelecendo conexões com os trabalhos dos artistas e de outros profissionais da área: historiadores, críticos, curadores, arte educadores etc. O que se aprende na escola extrapola seus muros.

Nas aulas de arte, o aluno expressa sua subjetividade, por meio de suas criações ganha visibilidade, valor e a possibilidade de interlocução com pares, professores e membros da comunidade mais ampla, quando se organizam mostras e apresentações.

Fazer e compreender arte desenvolve, de modo equilibrado, a cognição, a imaginação, o pensamento criador, a percepção, a capacidade de resolução de problemas, a formação de valores humanos fundamentais e as habilidades necessárias à criação autoral, sem submissão a modelos alheios.

Foto de Bárbara Bragato feita na Índia, integrante da exposição Escola de Histórias que ocupou o MIS-SP até 11/12 (Foto: Bárbara Bragato)

Foto de Bárbara Bragato feita na Índia, integrante da exposição Escola de Histórias que ocupou o MIS-SP até 11/12 (Foto: Bárbara Bragato)

Assim formados, ao longo da escolaridade, os jovens do Ensino Médio poderão fazer escolhas com liberdade, em vez de serem conduzidos em relação ao próprio futuro ou viverem regidos pelas demandas do mercado e da simples sobrevivência. A arte qualifica o cidadão livre, pois a liberdade é condição da criação artística. Um currículo sem arte significa murar a escola, isolá-la dos aspectos criativos do mundo. Nessa escola, os alunos aprendem sem motivação e não gostam das aulas, por não serem sujeitos autorais, que protagonizam suas aprendizagens e as ações da vida escolar; estudam para passar de ano, mas não sentem o desejo de aprender e não edificam a identidade de estudante, em formação permanente, ao longo da vida.

Qualquer reforma educacional precisa refletir sobre os acertos e fracassos das propostas, mas em diálogo com os gestores, professores e jovens que participam do cotidiano escolar. A avaliação do papel das aulas de arte deve perpassar, com seriedade, as questões do ensino e da aprendizagem, observando o contexto educacional e os fatores que circunscrevem a escola e interferem nos processos do aprender e nos resultados alcançados pelos alunos. A baixa média das aprendizagens obtidas pelos estudantes nas últimas avaliações do Ensino Médio não será revertida com a diminuição de disciplinas, como está proposto na Medida Provisória (MP) 746/2016, que abole a obrigatoriedade do oferecimento das disciplinas Artes, Filosofia, História, Sociologia e Educação Física. Essa medida será eficaz para formar um aluno acrítico, facilmente manipulável pelas regras do sistema produtivo.

Uma pessoa formada na área da Educação sabe que a diminuição do espaço das Artes do currículo não mudará a performance dos alunos, pois os problemas da escola pública são a precarização dos seus espaços físicos, a falta de equipamentos e materiais de qualidade para todos, os baixos salários dos professores e a ausência de uma formação continuada de qualidade.

Artes não é um componente curricular menos importante do que Língua Portuguesa, Matemática e Inglês, tidos como obrigatórios na MP citada, e a diminuição de seu valor no currículo do Ensino Médio indica o poder que se quer ter sobre o futuro dos jovens, que, inconformados, ocupam as escolas, espaço público que lhes é de direito. Vivas a eles!

 

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