A era dos muros

Artistas desafiam os muros que dividem o mundo globalizado, marcando enclaves ideológicos e territórios da opressão

Giselle Beiguelman
A Palestina representada por Lula Buarque de Hollanda, em O Muro (2017), que será lançado em outubro (Foto: Lula Buarque de Hollanda)

A implantação do “muro do impeachment”, em abril de 2016, em Brasília, foi o estopim do novo documentário do cineasta Lula Buarque de Hollanda, O Muro, que tem produção original do Canal Curta! e estreia prevista para o Festival do Rio de Janeiro, em outubro. A barreira, erguida por presidiários, tinha a finalidade de separar os manifestantes, de esquerda e de direita, contra e a favor do impeachment, dividindo a Esplanada dos Ministérios ao meio. A partilha estava longe de marcar um momento de equilíbrio democrático. Ao contrário, assinalava uma fissura na vida política do País, que tinha sua metáfora na imagem do Eixo Monumental fraturado. O espaço projetado para o encontro era tristemente atualizado como o da total desagregação do consenso político.

“O filme nasceu aí”, contou Buarque de Hollanda em entrevista à seLecT. “Ver Brasília, a capital utópica, aquele lugar específico, imaginado para agregar, com um muro que dividia famílias era a imagem-limite de nossa impossibilidade de conversar. E não existe democracia sem diálogo.” Na tentativa de registrar todas as cores do espectro político que se alinhavam de um lado e do outro, optou por uma linguagem híbrida que cruza o vocabulário visual da videoarte com o do cinema. “Com retratos, planos longos, propondo outro tempo de contemplação, para um tema tão complexo, com a faca nos dentes e o sangue à flor da pele”, explica o diretor, que partiu para uma longa investigação sobre esse fenômeno, documentando Berlim, Estados Unidos/México e Jerusalém/Cisjordânia, sempre sob a perspectiva da presença do muro.

Desagregação e falta de diálogo marcam o Muro (2017), de Lula Buarque de Hollanda, com imagens do “muro do impeachment”, construído em Brasília, das barreiras de Berlim, Gaza e Palestina, e da marcha das mulheres contra Trump, em Washington (Fotos: Cortesia do artista, Sommer Contemporary)

Os muros que interessaram a Lula Buarque são os muros ideológicos, fruto da incapacidade de convivência e dos estabelecimentos de nexos comuns. “Em Berlim, o muro é uma memória da cidade. As novas gerações nem sequer o viram. Mas são herdeiras dessa história”, continua ele. “A Alemanha é um país extremamente marcado pelo trauma. Sua Constituição proíbe negar o Holocausto, proíbe o nazismo.

Se legalizassem, os nazistas teriam 10% dos votos. Não dá para negar esse lado pit bull da humanidade. Por outro lado, por terem essa consciência, paradoxalmente, poderíamos dizer que a Alemanha é a última esperança da humanidade.” Jerusalém, hoje, é o extremo dessa cultura da fragmentação e da disputa. Para Lula Buarque de Hollanda, “ali, o muro é o marco absoluto da inviabilidade do diálogo”. Como no Brasil e na Alemanha, também em Israel e na Palestina ele procurou documentar todos os lados do conflito. Enclave de uma situação iniciada há 15 anos, o muro da Cisjordânia é o desdobramento da ocupação desse território na Guerra dos Seis Dias (1967), e um dos símbolos mais fortes das tensões geopolíticas atuais.

Sua fonte de inspiração e referência para o documentário foi o escritor israelense Amós Oz e sua obra Como Curar Um Fanático (2004). Nela, Oz, internacionalmente reconhecido não só pela literatura, mas por sua militância pacifista, diz: “O fanático não tem senso de humor, não consegue rir de si mesmo”.

  • Frames de Pippi Longstocking, The Strongest Girl in the World (2006-2008), de Rona Yefman, sobre personagem que não acredita em fronteiras artificiais (Fotos: Cortesia de Rona Yefman, Sommer Contemporary)

E é justamente pela chave do humor, que beira a perplexidade diante da assimetria das relações de poder e opressão, que a artista israelense Rona Yefman abordou a questão. Em Pippi Longstocking, The Strongest Girl in the World (2006-2008), Yefman usa a personagem criada pela sueca Astrid Lindgren como seu alter ego. “Porque ela é um personagem rebelde, com suas próprias ideias subversivas”, explicou Yefman em uma entrevista para a Columbia University.

“Usando a própria noção de Pippi de que ela é ‘a garota mais forte do mundo’ e que ela não acredita em fronteiras artificiais, documentamos sua tentativa de mover o enorme muro de concreto que separa Israel da Cisjordânia em Abu Dis”, diz a artista. A ação e a atitude de Pippi Longstocking refletem o desejo de tantos indivíduos que buscam mudar a realidade política e pessoal que os confina no mundo todo. E ela também representa a heroína feminina máxima, porque sonha com a mudança positiva e sugere transformações que podem promover a paz e a unidade”, escreve Rona Yefman na sinopse do seu vídeo.

Política de construção de barreiras
Esses discursos, apesar de localizados em situações específicas e divulgados com certa recorrência nos meios de comunicação internacionais, não são exceções do mundo globalizado. De acordo com um estudo dos Professores Elisabeth Vallet e Charles-Philippe David, publicado no Journal of Borderlands Studies (2012), com o fim da Guerra Fria, o número de muros no mundo caiu de 15 para 13. Entre 1991 e 2001, apenas sete foram construídos e anunciava-se uma tendência que parecia irreversível com a globalização. Contudo, depois de 11 de setembro de 2001, nota-se uma crescente retomada da política de criação de barreiras, com a construção de 28 muros, chegando em 2010 com cerca de 50. Não só os números cresceram muito, como também o perfil desses muros do século 21 mudou. Não se trata mais de barreiras que marcam fronteiras. A maior parte delas tem como função converter a linha de frente em uma fronteira real. Os muros de hoje, explicam os professores, “têm como foco duas ameaças: migrantes e terroristas (os dois muitas vezes se superpõem, ou são combinados, no discurso pró-muro). Nesse sentido, os muros servem a um duplo propósito – proteger contra o exterior e funcionar como um invólucro para o interior”.

(Fotos: Cortesia do artista, Sommer Contemporary)

Um levantamento de 2015 aponta a existência de barreiras e muros em 65 países. O que chama atenção, frisam Vallet e David, além do ritmo de crescimento desses números, é que a construção de muros, depois de 2001, passou a tornar-se uma realização de governos democráticos, como as cercas colocadas pela Espanha em Ceuta e Melilla, o muro da Cisjordânia, construído pelo governo israelense (hoje com 800 quilômetros) e a extensão para 930 quilômetros da barreira entre os Estados Unidos e o México.

Esse último muro, aliás, foi um dos destaques da campanha de Donald Trump. Segundo o presidente dos EUA, a sua construção é “mais que necessária” para frear a imigração. De acordo com ele, serão os próprios mexicanos os responsáveis pelo seu pagamento (estimado em US$ 20 milhões). O tema, que afetou as relações diplomáticas entre os dois países desde a primeira semana de sua posse, não é inédito, haja vista que a barreira existe desde 1994. A tensa situação na área foi objeto do coletivo ativista Electronic Disturbance Theater, liderado por Ricardo Dominguez e Brett Stalbaum. Professores da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), eles desenvolveram, em 2007, um aplicativo para celular, o Transborder Immigrant Tool, que visava aumentar a segurança dos imigrantes ilegais na fronteira México-EUA. O aplicativo funcionava como uma bússola para localização de água no deserto e disparava poemas em espanhol que funcionavam como um oráculo conselheiro para enfrentar os perigos da viagem.

Transborder Immigrant Tool rendeu a Dominguez um processo de investigação, em 2010, que envolveu deputados republicanos, o FBI e membros do board da UCSD, e gerou, na época, protestos das comunidades artística e acadêmica internacionais. No clímax da polêmica, evidenciava a força da conversão de sistemas de posicionamento global (GPS) em sistemas de posicionamento poético. Uma força que os muros tentam conter e que, ao vingar, suprimem o diálogo para impor a voz do Estado autoritário.

Palabras, Palabras… (2017), de Antoni Muntadas, composto de uma pasta com dez impressões digitais originais (Fotos: Cortesia do artista)

Em Palabras, Palabras… (2017), múltiplo de Antoni Muntadas, artista catalão radicado nos EUA, esse movimento é enunciado em dez pranchas, em preto e branco, na seguinte ordem: Democracia, Ideologia, Debate, Transparência, Vanguarda, Retórica, Política, Medo, Demagogia e Governo. Nas cinco primeiras, as palavras começam nítidas e desaparecem, consumidas, rapidamente no ruído gráfico da página. Aos poucos, a retórica se impõe, toma conta da política e o ruído cede espaço para o medo, a demagogia e o governo. Estamos já presos na mordaça dos muros.

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