Era uma vez… A obrigatoriedade das artes no currículo do ensino médio

Retirar arte das escolas de Ensino Médio é reduzir a possibilidade do desenvolvimento de habilidades importantes em outras disciplinas além das artes

Ana Mae Barbosa
Ana Mae Barbosa é professora do Doutorado da ECA-USP e do Mestrado e Doutorado em Design, Arte e Tecnologia da Universidade Anhembi Morumbi. Publicou, em 2015, Redesenhando o Desenho: Educadores, Políticas e História (Foto: Cortesia da autora)

Mais uma vez o Brasil copia o sistema de educação dos Estados Unidos, operando reduções comprometedoras para a aprendizagem de nossos jovens em nome da economia de verbas. A ditadura de 1964 comprometeu a qualidade quando tornou a arte obrigatória no ensino de Primeiro e Segundo Grau, com o objetivo de mascarar humanisticamente o excessivo tecnologismo da reforma educacional que pretendia profissionalizar os adolescentes. No processo de redução do modelo americano criou a figura absurda do professor polivalente, que, com dois anos de formação, deveria ensinar música, teatro, artes plásticas, artes cênicas e desenho geométrico no que hoje chamamos Ensino Médio. Claro que não deu certo e as grandes universidades advertiram imediatamente acerca do absurdo epistemológico de se querer formar arremedos de Leonardos da Vinci no século 20.

Agora a coisa é pior. Estão retirando do Ensino Médio a obrigatoriedade do ensino das artes, duramente ampliada pela luta dos arte/educadores reunidos na Federação de Arte/Educadores do Brasil (Faeb), que em abril deste ano conseguiu fazer aprovar no Senado a obrigatoriedade de música, teatro, artes visuais e dança. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, os alunos da high school escolhem um certo número de disciplinas de um enorme cardápio que a escola oferece. Entre as disciplinas oferecidas estão todas as áreas das artes.

Não é obrigatório o aluno escolher artes, mas é obrigatório a escola oferecer todas as artes. Foi fundamental, nos EUA, a descoberta, nos anos 1990, de que os alunos que por dez anos tiveram as melhores notas no teste SAT, equivalente ao Enem, haviam tido alguma disciplina de artes em seu currículo. Passou-se então a estudar o ensino das artes em referência à transferência cognitiva. As perguntas eram: O que se aprende e o como se aprende artes são transferíveis para outras disciplinas? O desenvolvimento mental que as artes proporcionam é aplicável ao modo como se aprendem as outras disciplinas?

James Catterrall dedicou grande parte de sua vida às pesquisas que provam que as artes desenvolvem a cognição do indivíduo. Chegou à conclusão de que as artes desenvolvem a inteligência medida pelo teste QI, que é apenas uma parte da inteligência, a inteligência racional. Encontrou apenas quatro pesquisas provando a transferência de aprendizagem das artes visuais para outras áreas. Essas pesquisas demonstraram que o estudo de desenho aumenta a qualidade de organização da escrita; raciocinar sobre arte desenvolve a capacidade de raciocinar sobre imagens científicas; a análise de imagens da arte propicia a capacidade de leitura mais sofisticada, interpretação de textos e inter-relacionamento de diferentes textos.

Detalhe da instalação Dengo, de Ernesto Neto (montada no MAM em 2010), em que carteiras de escola ganham visual lúdico, numa crítica ao engessamento do sistema educacional (Foto: Reprodução)

Detalhe da instalação Dengo, de Ernesto Neto (montada no MAM em 2010), em que carteiras de escola ganham visual lúdico, numa crítica ao engessamento do sistema educacional (Foto: Reprodução)

Nas pesquisas sobre as artes integradas, que não podem ser confundidas com a perversa polivalência, mas que tem cada arte o seu professor e todos trabalhando interdisciplinarmente, foram comprovados avanços individuais e coletivos em autoconfiança; melhora do autoconceito; capacidade de assumir riscos; concentração de atenção; perseverança; empatia pelos outros; autoiniciação à aprendizagem; persistência em tarefas difíceis; aprendizagem autoral; habilidades de colaboração; liderança; evasões reduzidas; aspirações educacionais mais altas e habilidades de pensamento de ordem superior.

Retirar arte das escolas de Ensino Médio, portanto, de adolescentes, é reduzir a possibilidade do desenvolvimento de habilidades importantes em outras disciplinas além das artes. Por outro lado, qual a disciplina no currículo que desenvolve especificamente a percepção e a discriminação visuais? As artes visuais e nenhuma outra mais. Qual a que prepara para a leitura da imagem? As artes visuais. A leitura do discurso visual, que não se resume só a uma análise de forma, cor, linha, volume, equilíbrio, movimento, ritmo, mas principalmente é centrada na significação que esses atributos em diferentes contextos conferem à imagem, é um imperativo da contemporaneidade.

Não se trata mais de perguntar o que o artista quis dizer em uma obra, mas o que a obra nos diz, aqui e agora em nosso contexto e o que disse em outros contextos históricos a outros leitores. Em nossa vida diária, estamos rodeados por imagens veiculadas pela mídia, vendendo produtos, ideias, conceitos, comportamentos, slogans políticos etc. A leitura das imagens fixas e móveis da publicidade e da arte na escola nos exercita a consciência acerca daquilo que aprendemos através da imagem. Por outro lado, na escola, a leitura da obra de arte prepara o grande público para a recepção de obras de arte e nesse sentido arte/educação é também mediação entre arte e público. Tirar as artes da escola e depois clamar por meios de “ampliação de plateia” para teatro ou cinema é uma contradição.

Até agora usei argumentos de ordem objetiva para demonstrar a importância do ensino das artes e por que a educação emocional não interessa a políticos que em educação almejam apenas ver o Brasil subir no ranking mundial, criando testes para provar que a aprendizagem foi realizada. Mas quero ressaltar a importância das experiências com artes na adolescência, idade difícil, de mudanças hormonais, corporais, de modo de pensar e sentir, de início de autonomia na vida privada e na sociedade, de interlimites. A linguagem presentacional das artes articula a cognição através da integração do pensamento racional, afetivo e emocional numa escola, à qual só interessa a linguagem discursiva e cientifica das evidências. A minha geração fez sua educação emocional à margem da escola, nos filmes de Hollywood. A geração da minha filha, nas novelas da Globo. E esta geração? As gerações de hoje, educadas com artes nas escolas já estão lotando as exposições de artes visuais, os cinemas e os teatros. O ensino atual inter-relaciona o fazer arte, a leitura da obra de arte ou da imagem e a contextualização do que se faz e do que se vê (Abordagem Triangular).  Como resultado deste novo ensino, jovens que nasceram pobres estão usufruindo das artes porque tiveram bons professores nas escolas públicas. Vamos perder essa conquista se as artes não forem incluídas no Ensino Médio. Apelo aos artistas para que façam campanha e salvem o direito às artes das próximas gerações. Que podemos fazer para que os ”homens do poder” nos ouçam?

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