Essa perigosa luz tropical

Exposição de Eliseu Visconti toca no tema delicado da constituição da modernidade de arte brasileira

Paulo Pasta
Garotos da Ladeira (c. 1928), obra de Eliseu Visconti pertencente à Coleção Hecilda e Sérgio Fadel (Foto: Sérgio Guerini/ Almeida & Dale)
Garotos da Ladeira (c. 1928), obra de Eliseu Visconti pertencente à Coleção Hecilda e Sérgio Fadel (Foto: Sérgio Guerini/ Almeida & Dale)

Visitar a exposição de Eliseu Visconti (1866-1944), na Galeria Almeida e Dale, com curadoria de Denise Mattar, foi também reiterar a pergunta pelo lugar que esse pintor ocupa na nossa história. Essa indagação está  logo na entrada, num texto de parede de Tobias Stourdzé Visconti, diretor do Projeto Eliseu Visconti. Ele toca no tema muito delicado da constituição da nossa modernidade. Visconti teria sido posto de lado pela corrente principal do nosso modernismo (leia-se Semana de 22), mal compreendido e assimilado, uma vez que sua pintura (principalmente seu último período) tinha uma vocação insuspeita para o novo.

De fato, Visconti não ocupa o lugar que merece. Mas reclamar por isso é percutir uma questão muito complexa da constituição dos valores, escolhas e maneiras que a nossa história se faz desde sempre. Talvez ele estivesse mais afeito ao moderno e menos ao modernismo, com suas urgências e ideologias. E, talvez, por seu modo mais lento e metódico em assimilar as várias correntes francesas da época, seu vagar, mais habituado ao tempo da conquista pela experiência, seu acento francês e belle époque, não se inseria na sede de ruptura que existia por parte daquele movimento.

Ele, talvez por isso, carregaria esse estigma: sem buscar uma ruptura mais violenta foi rejeitado pelos modernos, como também não fincou os pés no academismo, dada sua predisposição para assimilar novas linguagens. Onde estaria então Eliseu Visconti?

Penso que a natureza dessa pergunta já carrega consigo a mesma dinâmica excludente à qual me referi acima. Melhor deixar a resposta ao tempo e suas inevitáveis transformações. Imagino que Visconti esteja na qualidade indiscutível de muitas de suas pinturas. E isso pode ser constatado nesta mostra. Estaria na natureza ternamente sensual de seus nus e retratos, na qualidade de sua pincelada e fatura, na forma afetuosa e elegante de abordar o tempo, no enquadramento dos temas. E, para mim, principalmente, na maneira de tratar a luz.

Mario Pedrosa já havia se referido à poderosa força da luminosidade de sua pintura. Da intensidade da luz tropical que ele procurou assimilar e retratar. Da atmosfera luminosa e transparente, presente sobretudo nas suas paisagens de Teresópolis, seu último período. “Nasce uma nova paisagem na pintura do Brasil. Ninguém na pintura brasileira tratou com idêntica maestria esse tema perigoso da luz tropical”, continua o referido autor. Essa compreensão e expressão de uma luz nativa seria o elemento mais essencial, por meio do qual nossa pintura abandonaria suas heranças europeias e se tornaria reconhecidamente nacional – para usar uma palavra do agrado da crítica da época.

Claro que também existiu Almeida Júnior. Mas penso que esses dois pintores trataram esse tema – a luz brasileira – de formas distintas. Para ficarmos com Visconti, lembro – além das referidas paisagens – suas pinturas cujo motivo é o de roupas brancas estendidas no varal. Nesta mostra existe um exemplar dessa série.

Quando vi pela primeira vez esses trabalhos, pareceu-me que, ali, Visconti procedia a um resumo magnífico das suas conquistas. O branco, como cor, traz consigo esse recado paradoxal: sua clareza pode também ofuscar. Nessas pinturas algo próximo a isso acontece. É tanta luz que o branco reflete, que se torna difícil relacioná-lo às outras cores. Nas suas últimas paisagens, o uso do branco é mais difuso, ele é o substrato comum que, misturado às outras cores, cumpriria a tarefa de irradiar a luz. Mas nessas, das roupas, torna-se tema. Agora são as outras cores que precisam ser agregadas a ele. E ele, esse valor contraditório, parece querer devorar todas. Ele não mais se espalha. Ele aglutina, respondendo assim de modo intenso a essa condição antagônica. Pergunto-me se isso não seria, por si mesmo, bastante moderno?

Serviço
Eliseu Visconti 150 anos
Galeria Almeida & Dale
Rua Caconde, 152
Até 10/12
www.almeidaedale.com.br