Esta obra pode causar vertigens e tonturas

Retrospectiva de Ana Maria Tavares da Pinacoteca apresenta uma obra sinuosa, que empreende movimentos de torção e distorção sobre a vida contemporânea e seus signos

Paula Alzugaray
Exit III com Parede Niemeyer (Estação Luz), de Ana Maria Tavares, no octógono da Pinacoteca (Foto: Modelação digital do projeto para intervenção)
Exit III com Parede Niemeyer (Estação Luz), de Ana Maria Tavares, no octógono da Pinacoteca (Foto: Modelação digital do projeto para intervenção)

A obra de Ana Maria Tavares faz uma arqueologia do presente. As instalações, esculturas e objetos que se espalham em sete salas, lobby, corredores e octógono da Pinacoteca, podem ser interpretados como “hieróglifos sociais” (título de série de 2011), ao dizer respeito aos hábitos, vícios e idiossincrasias dos habitantes das grandes cidades.

Com curadoria de Fernanda Pitta, No Lugar Mesmo: Uma Antologia de Ana Maria Tavares, prêmio de melhor retrospectiva de 2016, pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), traz uma seleção de 160 obras realizadas pela artista de 1982 até hoje. Sem um percurso cronológico, apresenta os conceitos e problemáticas expostos em toda sua produção. A começar pelo diálogo entre arte, design e arquitetura – engenhosamente manifesto na ocupação dos corredores da instituição, lacrados com listras pretas nas paredes.

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Pessoas interagem na exposição No Lugar Mesmo: Uma Antologia de Ana Maria Tavares (Foto: Paula Alzugaray)

Esculturas na forma de catracas, roletas, colunas, retrovisores, bancos, poltronas e todo tipo de anteparo e estrutura de apoio do corpo, se referem aos espaços tradicionais da vida cotidiana: galerias de arte, aeroportos, hospitais, academias de ginástica. “A consideração desses espaços públicos, caracterizado pelo fluxo constante de pessoas, está na base da conceituação das esculturas tratadas como estruturas de suporte de um corpo em trânsito”, aponta a artista em um dos textos de parede que pontuam a montagem.

Até mesmo aqueles objetos que nos espaços institucionais devem ser invisíveis ou colaterais, como a corda que separa o espectador da obra de arte, ganham peso e solidez. Em Bico de Diamante (1990), a linha que preserva a distância entre as partes é o elemento que Tadeu Chiarelli, diretor artístico da Pinacoteca até abril de 2017, afirma reforçar “algumas das especificidades da pintura tradicional: a perspectiva e o exercício da frontalidade”. Ao ser incorporada à obra, revela um segredo.

Em uma das sete salas, a curadoria apresenta a reedição de Objetos e Interferências, individual de Ana Maria Tavares na Pinacoteca, em 1982. É ali, na instalação Tapetes Pretos para Paredes Brancas, em que a artista se apropria de sandálias de massagem japonesa, interessando-se pelas possibilidades de flexibilidade do material, que ela dá a partida de uma pesquisa sobre os labirintos comportamentais da sociedade pós-industrial. E se entrevê o gesto inaugural de torção que empreenderá sobre a vida contemporânea e seus signos.

Estamos diante de uma obra que fala de uma natureza tropical – ou de uma subjetividade, humana – encurralada pela cultura industrial – ou arquitetura moderna. Isso se expressa na série de Vitórias Régias (2013) confeccionadas por artesãos convidados, encerradas em caixas de acrílico; ou nas cachoeiras e paisagens naturais convertidas em vitrines (2009).

A onipresença de espelhos e materiais reflexivos utilizados na manufatura das obras incita à permanente auto-reflexão. Sala a sala, nos comportamos como o Narciso apaixonado por si mesmo, e nos descobrimos presos no labirinto de nossa própria imagem. Contra as angústias que essa situação pode gerar, construímos subterfúgios, cercando-nos de pequenos confortos. Eles estão descritos nos painéis e totens (da série Mantras Proibidos, ou Mantras de Ouro BB Universal, 2007) com as palavras de ordem da sociedade de consumo: credit card, sparkling water, Lexotan…

Atlântica Moderna (parte I), de Ana Maria Tavares (Foto: Paula Alzugaray)

Atlântica Moderna (parte I), de Ana Maria Tavares (Foto: Paula Alzugaray)

O último trecho das sete salas é como um retorno à caverna. Na entrada, um aviso: “Esta obra pode causar vertigens e tonturas”. O enunciado ganha, no contexto desta antologia, um estatuto diverso ao de mera sinalização. É um statement conceitual. Na tal caverna, é projetada a videoinstalação Utopias Desviantes (da série Hieróglifos Sociais), 2015, em que o interior do edifício da Oca, projeto de Oscar Niemeyer no Parque Ibirapuera, é transformado numa superfície reflexiva, filmado em movimento rotatório lento e editado ao estilo das composições de Piranesi (século 18). A obra traz uma constatação incômoda: estamos rodando em círculos.

Podemos atribuir à instalação site-specific projetada para o octógono (o pátio interno do edifício, constituído por oito paredes) o ápice desse percurso? Exposto à luz e ao calor, o visitante é ali impelido a subir uma escada (de avião?) e vestir fones de ouvido. Do alto, pode contemplar a própria imagem nos espelhos que cobrem as paredes da sala, e percorrer sonoramente as ruas de São Paulo, narradas por um repórter de rádio, presenciando o que elas tem de mais angustiante e feroz: o trânsito. Nesta plataforma para o nada, nos damos conta que toda a mobilidade controlada a que fomos submetidos na exposição tem aqui o seu ponto final.

Mas, ao deixar o octógono e deparar-nos com um texto de Ana Maria Tavares sobre o conjunto de obras, ocorre que este pode não ser o epílogo. Pode ser, ao contrário, a plataforma de decolagem para a experiência desta retrospectiva que, importante dizer, “se configura como uma grande paisagem e uma única obra”, nas palavras da artista. Continuamos girando em círculos.

Fortuna (2009), de Ana Maria Tavares, na Pinacoteca (Cia de Foto)

Fortuna (2009), de Ana Maria Tavares, na Pinacoteca (Cia de Foto)

Serviço
No Lugar Mesmo: Uma Antologia de Ana Maria Tavares
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Praça da Luz, 2 – Luz, São Paulo – SP
Até 10/4
pinacoteca.org.br

 

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