Fala, Carolina Marsiaj Costa

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 23/09/2013

Categoria: Entrevista, Reportagem

Filha da galerista carioca vem se especializando em direção de fotografia em trajetória burilada em centros de excelência cinematográfica no exterior

Legenda: foto: Alex Lombardi

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Carolina Marsiaj Costa é jovem (completa 29 anos em dezembro), mas já sabe bem o que quer. Filha da galerista carioca Laura Marsiaj, herdou do contato com o universo profissional da mãe o olhar estético para o mundo. Descobriu a fotografia na gradução em Jornalismo na PUC-RJ. A ideia de passar da imagem estática ao quadro-a-quadro do cinema surgiu nas aulas de História do Cinema da mesma faculdade, que acabou por abandonar para estudar Direção de Fotografia no London College of Communication. 

Daí para o mestrado no American Film Institute, em Los Angeles – um dos centros de aprendizagem em cinema mais importantes do mundo – foi uma consequência quase natural. Terminando o curso neste ano com um curta sobre o cangaço brasileiro pela ótica de Maria Bonita (veja frames do filme aqui), ela pretende seguir carreira como diretora de fotografia. Se no Brasil ou no exterior, ainda não sabe ao certo, embora admita saudades do país natal após 8 anos no exterior. Ela conta mais sobre esses assuntos na entrevista exclusiva para o site da seLecT:

seLecT – Por que razão você decidiu se tornar diretora de fotografia? Como foi o processo de admissão em uma das faculdades de cinema mais requisitadas do mundo? Quais as vantagens e desvantagens de estudar no exterior? Você sentiu dificuldade com relação aos seus colegas, professores ou ao curso em si?

Carolina Marsiaj Costa – Eu sempre gostei de ler e escrever e, por conta disso, resolvi entrar em jornalismo na PUC do Rio. Foi quando comecei a me interessar por fotografia. Como estagiária, cuidei do laboratório de P&B da PUC. Mas foi em uma aula sobre história do cinema que meu interesse começou a pulsar mais forte. Sempre gostei de cinema, meus pais sempre me estimularam nesse sentido.

Foi minha mãe que mostrou os dois filmes que mudaram minha vida e que despertaram o desejo de trabalhar com essa forma de arte. Em 2005 decidi interromper a faculdade de jornalismo no Rio e me mudar para Londres a fim de estudar fotografia pra cinema. Eu tinha 19 anos. Consegui ingressar no curso de cinema do London College of Communication e me formei em Direção de Fotografia em 2009.

Após o final da faculdade permaneci em Londres, trabalhando primeiro como assistente de câmera, e depois como diretora de fotografia de projetos pequenos, um longa de produção americana e documentários, na Inglaterra, França e Noruega.

Viajei bastante e participei de festivais de cinema europeus. Eu ouvia muito falar no AFI (American Film Institute), mas inicialmente eu não tinha uma ideia de voltar a estudar. No entanto, comecei a sentir que a minha carreira estava indo para os lados ao invés de ir para frente. Sentia a necessidade de um novo desafio, de aprimorar, de crescer.

Um dos meus professores em Londres incentivou-me a fazer a aplicação para o AFI. Achava difícil ser aceita, é uma escola super procurada. Eu mandei o meu “reel” e o que eles chamam de “narrative statement”. Também enviei três cartas de recomendação, incluindo uma de Sue Gibson (da British Society of Cinematographers) que foi minha mentora na época e era a diretora do BSC.

No meu statement falei sobre minha paixão por arte e cinema, e contei como foi crescer entre a casa do meu pai – no mundo da psicanálise – e da minha mãe – entre artistas e exposições. Quando a escola marcou a entrevista pelo Skype, não podia nem acreditar!

A mudança para Los Angeles em 2011 foi difícil. Estava em Londres há 6 anos e bem adaptada. O AFI é tão intenso que só agora que chegou ao final posso avaliar o que é morar em LA. Porque na verdade, nos últimos dois anos, eu vivi o AFI. Somente o AFI. É um comprometimento que nunca tinha vivido antes. Fica difícil explicar, só participando para realmente entender.

Desde pequena eu viajava muito com os meus pais e também sozinha. Por vários anos fazia o trecho Rio – Porto-Alegre – Rio quase todos os fins de semana. Tornei-me conhecida dos comissários de bordo. Então, para mim, estudar no exterior talvez não represente o mesmo que para maioria das pessoas. Estar em um país estrangeiro me parece muito natural.

A competição na escola é muito forte. É uma réplica de Hollywood. No início me comparava com meus colegas o tempo todo. Acho que todos nós passamos por isso em algum momento durante os dois anos do mestrado. Algumas aulas são super técnicas, não conseguia acompanhar. Olhava ao meu redor e via as cabecinhas todas balançando, achava que era a única pessoa com dificuldades.

O diretor do meu departamento sempre deixa a porta aberta – era lá que confessava meus medos. Sempre tive suporte. No AFI, se você é honesto com o seu trabalho e com as pessoas que você trabalha, todo mundo quer ajudar.

O modelo do AFI é interessante, você aprende e aplica ao mesmo tempo. E assim que termina as pessoas criticam o seu trabalho. Não há tempo para digerir e depois usar o que aprendeu. Tudo acontece junto. São dois anos de aproveitamento máximo, sem tempo para parar e pensar.

Um dia no set, durante o meu segundo projeto na escolar, foi que caiu a ficha, e aí eu entendi tudo. O método permite que o aluno esteja permanentemente identificando e corrigindo suas dificuldades quase sem se dar conta.

Existe uma jornada muito pessoal também – claro que está diretamente ligada ao seu trabalho – mas você aprende muito sobre si mesmo.

seLecT – Conte-me mais a respeito do seu curta sobre o cangaço, Lampião e Maria Bonita. Qual o enredo? Se é ficção ou documentário com reconstituição, quem são os atores? Quais as dificuldades de se produzir um filme sobre uma realidade muito específica de uma região do Nordeste em solo norte-americano?

CMC – Durante o segundo ano no AFI, os diretores de fotografia tem um projeto em película. É um projeto mudo de som direto que se chama “visual essay” (ensaio visual). A ideia é que possamos contar uma historia através de imagens sem depender de diálogo. A fotografia é que deve falar.

Para que possamos realizar esse exercício de criatividade, técnica e sensibilidade, a escola nos fornece 1.600 pés de película e um kit básico de equipamento. O roteiro tem que ser aprovado e tem mil detalhes como permissão para locação etc., afinal estamos em Hollywood. Mas a gente pode contar qualquer historia da maneira que quiser.

Há dois anos que venho pesquisando o Lampião e o cangaço. No meu primeiro ano no AFI comecei a pensar que talvez fosse um assunto interessante para abordar nesse projeto. Inicialmente o que me atraiu ao Lampião foi seu caráter multifacetado – um homem cheio de talentos, com um lado perverso, mas também a frente do seu tempo.

Então, pensei que seria interessante que diferentes pessoas olhassem os diversos aspectos desse homem. Assim, convidei os três diretores com os quais trabalhei no meu primeiro ano no AFI. A ideia era que cada um dirigisse um capítulo sobre um detalhe do caráter do Lampião.

Começamos a desenvolver o roteiro no início desse ano – foi um processo muito legal. Diferentes perspectivas e filosofias tentando se encontrar em um só espaço.
Decidimos que para um curta seria complicado desenvolver cada capitulo como queríamos, então decidimos que os três diferentes segmentos se cruzariam em uma só história.

No entanto, toda vez que tínhamos reuniões, mais e mais ficávamos interessados na vida de Maria Bonita. Ficava tentando me colocar na pele dela, tentando imaginar a vida que tinha e porque tomou a decisão de matar seu marido e ir embora com Lampião. O filme passou, então, a ser sobre Maria Bonita. Talvez ainda seja um filme sobre Lampião, de uma forma ou de outra, mas é definitivamente um filme através dos olhos de Maria Bonita.

Um filme sobre dois personagens brasileiros, filmado em Los Angeles, com atores mexicanos e uma equipe internacional deixou de ser um “incômodo” e se tornou uma oportunidade. Maria Bonita se tornou a “nossa Maria Bonita”. O personagem deixou de ser uma descrição no papel, ou no livro, e se tornou uma pessoa complexa, de carne viva.

Gareth Dunnet Alcocer (México) dirigiu a parte do presente – o último dia de Maria Bonita e Lampião. O filme corta do presente para o passado – parte que Camille Stochitch (França) dirigiu – voltando para o presente e entrando num espaço mais ambíguo em que não sabemos se Maria Bonita sobreviveu ou não. Esta parte foi dirigida por Jacob Andersen (Dinamarca).

O filme talvez seja de alguma forma abstrato, mas para mim é muito importante que não seja um filme moralista. Eu não tenho interesse em julgar o personagem, eu não quero que Maria Bonita seja má, santa ou heroína. O que desejo é explorar a natureza humana, aquilo de que não conseguimos escapar, uma espécie de sina ou tragédia. Olhar não de forma determinista, mas sim ter a chance de tentar entender um outro ser humano, de me colocar nos sapatos dela.

seLecT – Você pretende continuar produzindo nos EUA ou quer voltar para o Brasil? Quais os temas do Brasil que te interessam como cinema? Você já tem outros projetos em mente atualmente?

CMC – Eu tenho três projetos em pré-produção nos EUA. O que significa que vou ficar aqui até o final do ano com certeza. Mas quero começar a conversar com pessoas no Brasil, começar a trabalhar aí também. Adoraria ter uma carreira internacional. No entanto, após 8 anos fora, tenho tido muita vontade de voltar pro Brasil. Esse é o meu projeto para 2014.

O Brasil esta fazendo filmes com temas mais universais agora, algo que me interessa. Acho que o filme sobre a favela já cansou. Tenho visto muita coisa interessante feita no Brasil.

seLecT – Quais são os cineastas que te influenciaram, que são referência pra você?

CMC – Entre os diretores de fotografia, estão Conrad Hall (Butch Cassidy e Sundance Kid), por sua elegância e porque desde o inicio de sua carreira ele sabia quando a câmera deveria se mover ou não; Rodrigo Prieto (Brokeback Mountain), pelo seu talento, por fazer da sua iluminação algo natural, imperceptível; Chris Doyle (Amor à Flor da Pele), por trazer arte para uma categoria que era considerada apenas técnica; Seamus McGarvey (As Horas), por seu entendimento dos personagens, por não colocar o próprio ego na frente do trabalho; e Gregg Toland (Cidadão Kane), o “primeiro artista”, por mudar as regras do jogo.

Já os diretores são Sofia Coppola, Michael Haneke, Jane Campion, Francis Ford Coppola, Carlos Reygadas, Terrence Malick, Paul Thomas Anderson, Krzysztof Kieslowski. Entre os filmes que me influenciaram, estão O Assassinato de Jesse James , Margot e o Casamento, Antes da Chuva, Bye Bye Brasil, Betty Blue, Apocalypse Now, Luz Silenciosa, As Virgens Suicidas, Magnolia, A Árvore da Vida, Stalker, Terra Estrangeira, O Franco Atirador.

seLecT – Como você definiria o seu estilo de fotografar, partindo da sua experiência atual e daquilo que você quer passar com seus filmes?

CMC – Acredito que o trabalho de um diretor de fotografia sempre será influenciado pelas suas experiências de vida, pela sua visão do mundo. O meu trabalho sempre é autoral. Isso não quer dizer que na criação de uma identidade, de uma voz, as imagens que eu crio sejam alienadas do roteiro e da história. Muito pelo contrário, para entender um personagem ou uma história eu tenho que partir de algo pessoal, eu tenho que achar o fio que me conecta com ele para me dar a liberdade de interpretação, mas deixando o roteiro falar comigo, me dizer o que ele quer ser.

No geral, tenho interesse por filmes de drama mais pessoal, de assuntos que merecem delicadeza. Mas gosto também de poder tocar algo que seja estrangeiro, diferente de minha própria experiência.

Trabalho muito perto do diretor, gosto de colaboração, de tentar entender quem é a pessoa atrás da história, e qual é a história que quer contar. Por conta dessa proximidade, a maioria dos diretores com os quais trabalhei tornaram-se grandes amigos meus.

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