Festival de arte da usina

A Usina de Santa Terezinha, em Pernambuco, transformou-se em uma usina em ebulição graças à arte

Márion Strecker
Vista da usina desativada há mais de 15 anos e convertida em sede de festival de arte (Foto: Márion Strecker)

Mario Pedrosa foi um pensador que voltou sua atuação para ouvir, observar e entrelaçar escolas e visões de arte dissonantes. Nos anos 1960, ao perceber que a crítica formalista não daria conta do que despontava no Brasil, cultivou a ideia da arte como “exercício experimental da liberdade”. O crítico Lorenzo Mammi, organizador do volume Arte: Ensaios (Cosac Naify, 2015), pontua que o conceito não chegou a ser plenamente explicitado, dado que, com o AI-5 e o exílio, Pedrosa foi levado a afastar-se da atividade crítica militante. O exercício experimental da liberdade permaneceria, então, como um conceito extremamente promissor (mas não inteiramente desenvolvido), que inspirou, nas décadas seguintes, novas gerações de críticos, artistas, intelectuais e leitores. No campo da pedagogia de arte, essa semente parece fertilizar hoje projetos inovadores como o projeto Usina de Arte, em Pernambuco. Confira a reportagem sobre a Usina de Arte realizada pela seLecTV.

Festival de Arte da Usina
O artista visual e professor universitário José Rufino, da Paraíba, visitou pela primeira vez a carcaça da Usina Santa Terezinha em julho de 2015, para uma residência artística. Encontrou ali um cenário desolador. Desativada há mais de 15 anos, a usina havia sido a terceira maior do estado em produção e chegou a ter 6 mil funcionários. O subdistrito de Santa Terezinha, que tinha 15 mil habitantes no auge do ciclo da cana-de-açúcar, está reduzido a 5 mil. Fica na Mata Sul de Pernambuco, a 130 quilômetros ao sul do Recife, no município de Água Preta, onde uma barragem vazou alguns anos atrás, deixando milhares de desabrigados.

O designer Hugo França, aquele dos enormes bancos escultóricos feitos com árvores caídas, já havia imaginado um projeto de residências ali e foi quem soprou o nome de Rufino para o proprietário da maior parte das terras da região, o empresário Ricardo Pessoa de Queiroz Filho, bisneto do fundador da usina. Com Bruna, sua mulher, e com Bárbara Maranhão, ele criou o projeto Usina de Arte.

O artista José Rufino realiza a obra Opera Hominum (2015-2016), que consiste em monotipias de mãos de operários da antiga Usina Santa Terezinha sobre folhas de pagamento da própria usina (Foto: Adriano Franco)

O artista José Rufino realiza a obra Opera Hominum (2015-2016), que consiste em monotipias de mãos de operários da antiga Usina Santa Terezinha sobre folhas de pagamento da própria usina (Foto: Adriano Franco)

 

“Senti uma esperança enorme da população depositada nele, Ricardo, como uma espécie de sebastianismo, um desejo de que ele voltasse para esse lugar para reimplantar a fábrica de açúcar e álcool”, conta Rufino, ele mesmo neto de um dono de engenho. “Ricardo dizendo que isso era inviável, mas como um mantra isso voltava a bater na cabeça da gente: vai botar pra moer, vai botar pra moer”, conta Rufino. A concorrência com a produção mecanizada do Sudeste, em terras mais planas, não deixa espaço para isso. Mas Ricardo Pessoa restaurou e voltou a frequentar com a família a casa-grande. Criou um jardim botânico que já tem mais de 3 mil espécies, enquanto Rufino realizou um pavilhão de arte no antigo hangar da usina, com instalações feitas em colaboração com locais.

Em 2015, chegaram os primeiros artistas residentes, entre eles Paulo Bruscky, e saiu a primeira “safra” do Festival de Arte da Usina, que vem sendo curado e produzido com ajuda do experiente Fábio Delduque, que dirige há 15 anos o Festival da Serrinha, em Bragança Paulista. Em agosto passado, foi aberta uma escola de música formada por professores da região que já tem mais de 50 alunos regulares, com aulas teóricas e práticas em instrumentos de orquestra. Entre os novos artistas residentes está Laís Myrrha. A “safra” 2016 do festival, realizado em novembro, trouxe oficinas gratuitas de arte com Leda Catunda e Laura Vinci, dança com Lu Brites, design de moda com Ronaldo Fraga, fotografia com Camila Leão, música e dança com Helder Vasconcelos, entre outros. Trouxe também shows de Siba e Silvério Pessoa, performance de Diógenes Moura e mesas de discussão.

Rufino tornou-se o “curador poroso” do projeto. “Poroso porque absorvo, porque mudo de ideias, porque não sei exatamente o que é necessário ainda aqui. Não é um projeto apenas para ter uma coleção de arte contemporânea, embora isso seja o que acontece atrás da ação. O que condiciona o projeto de residência é que tudo o que aconteça esteja motivado por esse sentido de transformação”, diz ele.  “A gente não tem um projeto completamente estruturado, não sabe o que vai ser amanhã, mas só tenho certeza de uma coisa: é algo muito grande, muito importante”, disse à seLecT

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