Forças que muros não podem conter

O lançamento da #select35, dedicada ao Extremismo, acontece no Itaú Cultural com conversa entre Anna Kahn e Márion Strecker, e entre Tuca Vieira e Giselle Beiguelman

Paula Alzugaray
Laundromat (2016), do artista chinês Ai Weiwei (Foto: Genevieve Hanson/ Courtesy Jeffrey Deitch Inc. New York)

Com a derrubada do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, o número de muros políticos no mundo caiu de 15 para 13. Entre 1991 e 2001, apenas sete foram construídos e anunciava-se uma tendência que parecia irreversível com a globalização. Contudo, depois de 11 de setembro de 2001, nota-se uma crescente retomada da política de construção de barreiras, com o surgimento de 28 novos muros, chegando em 2010 a nada menos que 50. Esse dado sinistro, levantado no texto de Giselle Beiguelman, A Era dos Muros, vale destaque na abertura do editorial dessa 35a edição da seLecT. Mas discursos artísticos são forças que as barreiras não podem conter.

A ausência de uma política global verdadeiramente humanista para lidar com a crise de refugiados – que já havia sido tema de nossa edição sobre as Migrações – vem sendo tema das pesquisas de Ai Weiwei nos últimos dois anos. O artista chinês tem um histórico marcado como vítima de extremismos e seu ativismo pela tolerância está expresso em cada uma das imagens que publica diariamente no instagram – tema de um portfólio organizado por Márion Strecker.

No Brasil, ao rol dos extremismos aplica-se um gravíssimo quadro de violência e violações aos direitos humanos: como pode não ser extremo um País que está na vanguarda dos rankings mundiais em feminicídios, assassinatos de transexuais, violência policial e superlotação prisional? Teresinha Soares, Sara Ramo, Cris Bierrenbach, Sidney Amaral e Berna Reale reagem a essas drásticas estatísticas. A repórter Ana Abril coloca a devida ênfase sobre essas iniciativas.

A monumentalidade de projetos de poder como o Templo de Salomão, sede da Igreja Universal Reino de Deus em SP, também é vista aqui como um fato extremo. Convidamos o fotógrafo Tuca Vieira para traduzir em imagem esse projeto ideológico. Ele optou por documentar a estratégia de mimese do edifício em relação à vida do bairro do Brás.

O humor e a imaginação – segundo o escritor israelense Amós Oz, estes os maiores antídotos contra o fanatismo – estão presentes em nosso propósito, quando evocamos o britânico Bansky e a israelense Rona Yefman. E Lula Buarque de Hollanda, com seu documentário inédito O Muro – cujas primeiras imagens circulam nesta seLecT –, que nasceu do muro do impeachment, expõe “a imagem-limite da nossa incapacidade de dialogar”, segundo o autor.

Como os artistas, nós também não acreditamos em fronteiras artificiais e queremos, com reflexão, humor, curiosidade e imaginação, contribuir para a cura de fanatismos.

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