O Brasil ainda é a terra do homem cordial?

Joca Reiners Terron, Letícia Monte, Lilia Schwarcz e Zuenir Ventura respondem à pergunta feita pela #select35

Da redação
Letícia Monte (Foto: Acervo Pessoal)

Com graves violações aos direitos humanos, que se refletem no aumento da violência e da intolerância – o que inclui o recorde mundial em assassinatos de homossexuais, travestis e transexuais –, a persistência do racismo e a assustadora escalada da corrupção, que evidencia a insipiência de nossa esfera pública, gostaríamos de saber: o Brasil ainda é a terra do “homem cordial”, tal qual definiu Sérgio Buarque de Holanda? A expressão, consagrada pelo historiador, deriva de cor, cordis (coração), e está relacionada à predominância da emotividade e da interpessoalidade, inclusive em contextos de opressão e violência.

Letícia Monte
Artista, diretora e produtora cultural
Sim, em nossa sociedade cindida e com abismos em tantas questões sociais, de gênero, étnicas, para citar apenas algumas , nosso comportamento é frequentemente “cordial” no sentido definido pelo autor. Somos profundamente emotivos, apaixonados e transbordantes, mesmo quando nossas atitudes resultam em violência, intolerância e violações de direitos: travestis, homossexuais e transexuais aqui são odiados apaixonadamente. E essa infeliz paixão talvez explique, em parte, o fato de integrantes desses grupos serem assassinados em número recorde no Brasil.

Joca Reiners Terron (Foto: Rafael Roncato)

Joca Reiners Terron
Escritor
Foi encontrada a ossada do “homem cordial” brasileiro: estava em uma fossa comum, seus ossos estilhaçados se misturaram à terra que o envolvia, o crânio não passa de terreno arenoso composto de partículas minúsculas; após análise dentária, é impossível saber de sua extração social; não havia dentes a examinar, na verdade, pois, provavelmente, já não tinha mais o que morder; era pobre, não há dúvidas; evidentemente, sua capacidade de reagir à opressão — da intempérie, dos predadores — se anulara; talvez tivesse sido deliberadamente anulada por seus dominantes, com falsas adulações, ignorância disseminada, falta de educação, ausência de direitos de qualquer tipo. Como subespécie do gênero humano, foi extinto em decorrência de sua delicadeza e submissão. Já foi tarde, que a terra lhe seja leve.

Zuenir Ventura (Foto: Divulgação, Marcelo Tabach)

Zuenir Ventura
Jornalista e escritor
É difícil falar em “homem cordial” neste ambiente em que se exercita cotidianamente todo tipo de violência. A expressão, consagrada por Sérgio Buarque de Holanda, presta-se à confusão, porque não tem exatamente o mesmo significado que o senso comum lhe dá, ou seja, não quer dizer necessariamente boas maneiras, civilidade, delicadeza. O “cordial” a que o grande historiador se refere deriva etimologicamente do latim cor, cordis, que significa “coração”, o órgão que comanda as ações com predominância das emoções. Nesse sentido, o coração pode agir para o bem e para o mal, conforme o impulso de fundo emotivo que o move. Convenhamos que um país que registra quase 60 mil homicídios por ano e a cada sete minutos pratica violência contra a mulher não é um país de bom coração.

Lilia Schwarcz (Foto: Renato Parada)

Lilia Schwarcz
Historiadora e professora no Departamento de Antropologia da USP
Penso que a questão parte do suposto equivocado de que Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), teria usado “cordialidade” como bondade ou docilidade. No entanto, o sentido não era esse. Era quase o contrário. Cordialidade não era “elogio” mas sim “problema”. O historiador mostrava que cordialidade vinha de cor, coração, e dizia respeito ao problema que os brasileiros têm de inflacionar a esfera privada em detrimento da pública. Por isso teríamos instituições frouxas e pouco apego aos partidos, à lei e ao Estado. Se levarmos em consideração o lembrete de Holanda, o Brasil jamais foi um país pacífico. Como pode ser não violento um país que foi o último do Ocidente  a abolir  a escravidão e recebeu 40% dos africanos que saíram compulsoriamente de seu continente? Como pode ser pacífico um país cuja concentração de renda e de prestígio parece herdeira do período colonial e do paternalismo imperante? Infelizmente, o País ainda padece com os sexismos e com o racismo institucional. Além do mais, a corrupção é o maior exemplo do sentido (correto) para o termo cordialidade. Ela acaba com as esferas públicas e é o grande inimigo da República. “Cordialidade” só se for no sentido que Sérgio Buarque de Holanda deu a ela ainda nos idos de 1936.

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