Imagens sonoras

Nina Gazire

Publicado em: 11/09/2012

Categoria: Da Hora, música

A cultura do videoclipe ensaia renovação a bordo da web e apps, mas ainda reproduz os clichês das mídias de massa

Madonna

Legenda: Madonna quebrou os recordes audiência da história da tevê no suporbowl 2012, concentrando uma audiência de 114 milhões de telespectadores (Foto: divulgação)

O dia 5 de fevereiro de 2012 foi de recordes históricos para a televisão. Em plena era digital, quando os meios massivos perdem cada vez mais público para a internet, cerca de 111 milhões de telespectadores sintonizaram seus canais para assistir ao Super Bowl, final do campeonato de futebol americano. Porém, foi no intervalo do jogo que a audiência subiu outros 3 milhões, quando a eterna Material Girl, no auge de seus 53 anos, entrou em campo. Exageros à parte, o fato é que a apresentação de Madonna foi o programa jamais tão visto da televisão americana, segundo o instituto de pesquisas Nielsen. Na apresentação do Super Bowl, a cantora, que tem assumidamente suas habilidades vocais limitadas, fez um playback de hits como Vogue, Like a Prayer, e até mesmo de sua nova música de trabalho, Give me All Your Lovin’.

Coreografias inspiradas em líderes de torcida, mudanças de figurino, pirotecnia, a participação de artistas mais jovens como M.I.A, Nicki Minaj, Cee Lo Green e LMFAO, unidos à nostalgia dos sucessos dos anos 1980, deram um clima de ufanismo quanto à posição de Madonna na cultura pop. E, se a propaganda é a alma do negócio, ninguém melhor do que ela na promoção de uma imagem vendável. Sim, pois nunca antes na indústria cultural imagem e música estiveram tão intrimcadas, a ponto de serem inseparáveis. Pouco importa o alcance vocal de Madonna ou se suas canções são inovadoras, o que importa é a manutenção da fórmula “emito, logo existo”. Mas, atualmente, a difusão musical está sendo reconfigurada, com a chegada das mídias digitais. O público que antes dependia de um esquema massivo e vertical para acessar a produção musical, não mais depende da rádio, da tevê ou da loja de discos. Pode fazer uma curadoria relacionada ao seu ídolo escolhendo o material via internet. Antes mesmo de a música e o videoclipe estarem disponíveis no mercado, já existe um material prévio circulando, graças à cultura de compartilhamento digital. Essa espécie de press kit self-service é algo que passou a fazer parte da estratégia de qualquer artista minimamente antenado com a cultura contemporânea.

Apesar de ser fruto da era de comunicação de massa, Madonna tem cada vez mais se orientado para a internet. Como estratégia de divulgação, no dia seguinte do lançamento de seu novo álbum, realizou uma entrevista ao vivo via facebook, respondendo em tempo real às perguntas enviadas pelos fãs. Madonna nunca esteve tão acessível. “Você vai ao canal da Madonna, você tem lá o making off da coreografia do clipe, o vídeo da festa depois da apresentação do Super Bowl, e isso vai se desdobrando em milhares de coisas que são feitas para ser acessadas pelo público”, diz Eduardo de Jesus, professor de teoria audiovisual da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC-MG.

Toda essa mudança no parâmetro de circulação da informação talvez justifique a relação intrínseca, porém paradoxal, que a indústria da música acabou por estabelecer com o audiovisual. As ferramentas digitais – de fácil acesso – e o surgimento de canais como o YouTube, o Vimeo e o Dailymotion dão ênfase na produção do audiovisual voltada para a indústria musical e sua facilidade de circulação, mas não significam um aumento qualitativo dessa produção. “O sistema tradicional de fazer videoclipes ainda é dominante. Poucos artistas estão investindo em outras maneiras de fazer videoclipe. As relações entre som e imagem ainda são as mesmas: gente dublando a música ou contando uma historinha”, critica Eduardo de Jesus. Algumas iniciativas parecem pensar o futuro dessa produção – caso da banda Arcade Fire. O clipe da faixa We Used to Wait, presente no álbum The Suburbs e dirigido por Chris Milk (2009), foi uma novidade por se tratar de um videoclipe interativo. O vídeo utilizava recursos do Google Street View para fornecer uma versão personalizada ao público. Quando acessado, é necessário que o fã digite um endereço de sua escolha, e então as imagens de cenas gravadas são sincronizadas em tempo real com imagens das ferramentas do Google Street View. “A música, mais do que outras manifestações artísticas, possui um sistema de sociabilidade gritante. E isso está ficando cada vez mais evidenciado porque se conecta intensamente com o circuito de comunicação”, afirma Eduardo de Jesus, que já dirigiu videoclipes para a banda Pato Fu.

Bjork

Outro exemplo que se enquadra na mudança de circulação da música é o projeto Biophilia (2011), de Björk. Na época do lançamento do CD, a cantora islandesa declarou diversas vezes que não fazia mais sentido pensar a música apenas sob a perspectiva do som. Ela aproveitou também a chegada dos tablets para repensar um novo modo de dar uma “cara” à sua música que não fosse apenas por meio de videoclipes. Trabalhando com o designer e programador americano Scott Snnible, Björk criou um disco cujas músicas eram aplicativos interativos para iPad.
Em longa entrevista à seLecT, Snnible destacou que, na ocasião do lançamento, Björk disponibilizou iPads para que o público interferisse em tempo real nas imagens da performance, a fim de garantir a experiência dos novos modos de criação que esse tipo de mídia sugere. 

Entrevista com Eduardo de Jesus – “O Lugar do videoclipe e a era da internet”

seLecT: Na década de 1980, o videoclipe estabeleceu-se como ferramenta da indústria musical. O que mudou de lá para cá?

Eduardo de Jesus: O sistema de circulação da comunicação. O lugar do videoclipe não é mais a televisão. O lugar do videoclipe é a internet. Antes, eu ligava a MTV para ver o Top 10 e ficar esperando a quinta colocação, que era a da banda que eu gostava. Agora, não. Posso ver essa banda no YouTube, no Vimeo, no Daylimotion, onde quer que seja, já vejo o que eu quero. É essa mudança que aconteceu: a de um sistema que antes era massivo para o que alguns chamam de pós-massivo. É uma forma de comunicação distribuída.

Como isso reflete na relação dos artistas com o videoclipe?

Algumas pessoas são muito apologéticas com relação a essa ideia de comunicação distribuída. Mas, quando vejo lá que o vídeo mais visto no YouTube é o de uma criança mordendo o dedo da outra, eu penso: estamos no mesmo circuito massivo de sempre. Não significa que seja uma mudança qualitativa – da qualidade do que se vê, porque a internet recebe tudo –, mas agora se pode escolher o que se quer ver. E isso traz uma circulação gigante. Têm uns caras falando agora em ciberfilia, coisas que já estão apontando para outra história. Toda essa situação do audiovisual passa pela internet.

Já há bandas experimentando novas linguagens do videoclipe no âmbito do digital?

Sim, mas elas são um número significativamente pequeno, perto da quantidade de bandas que lançam videoclipes diariamente. Você tem o clipe Sour, de uma banda japonesa, cujo vídeo transforma os espectadores em protagonistas. Tudo que se tem a fazer é conectar a webcam e assistir à sua própria performance. Outro é o Arcade Fire, que fez aquele vídeo interativo que usa o Google Street View. Mas esses exemplos ainda são experimentações, não é a linguagem dominante. Isso é o futuro. Quando Björk faz iPhone e iPad, além do disco, é uma forma de apontar como a imagem musical poderá despontar no futuro. Mas não é o que acontece na prática. Grande parte dos artistas ainda investe em videoclipes caretinhas; vide Lady Gaga, Rihanna e até mesmo a Madonna, com esse videoclipe novo, Girls Gonna Wild. É um vídeo bonito, mas não tem nada de novo. Fico pensando se não é uma resposta para Lady Gaga, do tipo: “A tia aqui é quem sabe fazer”.

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Acesse a entrevista completa em Ópera do século 21

*Publicado originalmente na edição impressa #6

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