Insípida, inodora, incolor

Crédito: Paula Alzugaray

Publicado em: 02/04/2012

Categoria: Editorial, seLecT#05

A água é o elemento condutor das ideias da quinta edição de seLecT

Index

Legenda: Index da edição #5 (Foto: Estúdio seLecT/Reprodução)

Em tempos de aquecimento global, acidificação do oceano, falta de oxigênio nos mares e contaminação dos rios, a água lidera o ranking das vulnerabilidades do mundo.

A água que, na origem dos tempos, determinou o posicionamento das cidades e desenhou o nosso mapa geopolítico e que hoje é sinônimo de comunicações cada vez mais fluidas e velozes precisa da nossa atenção. Como está hoje o alinhamento dos mais diversos campos da cultura em relação ao meio ambiente? Como os artistas se posicionam? Como a natureza transforma o artista e sua obra? seLecT toma parte do processo preparatório para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e concebe a edição Código Água, publicada dois meses antes do grande evento, que acontece no Rio de Janeiro, entre 13 e 22 de junho.

Apesar da clássica definição, a água, na seLecT, não é insípida, nem inodora, nem incolor. A água é matéria artística, como aponta a editora Angélica de Moraes no texto “Sólido, líquido, gasoso: os três estados da arte”, e tem o amargo gosto do desaparecimento, como sugerido na obra Elemento Desaparecendo/Elemento Desaparecido, o célebre picolé de água de Cildo Meireles, exposto na Documenta 11, em Kassel. Tem gosto de natureza em desmoronamento, como relata Felipe Chaimovich na coluna móvel “On the rocks”, que descreve a degustação de gelo glacial como atração turística dos cruzeiros na Patagônia. E, sobretudo, a água tem cor: é azul fluorescente, como emana da instalação Zero Hidrográfico, de Gisela Motta e Leandro Lima, que estão na capa dessa edição.

No Portfólio, o corpo da obra de Artur Lescher pode ser comparado a um curso d’água. E, em matéria de literatura, a repórter Nina Gazire disserta sobre como a ficção científica aquática viaja do mistério das profundezas do mar à indústria de exploração da água e às catástrofes ambientais.

A água nos conduz também ao mundo das comunicações fluidas e das conexões móveis. A editora-chefe Giselle Beiguelman abre os olhos para a produção de e-lixo e as ambivalências da era da mobilidade e pergunta: quanto pesa a vida sem fio? A questão traz à tona, finalmente, as perspectivas do verde e da arte pós-utópica. A repórter Juliana Monachesi passeia pelas biosferas de bolso, as unidades habitacionais autossustentáveis e as micropaisagens que irrigam as relações entre cultura e meio ambiente.

E, finalmente, imbuídos do espírito ecológico e das transformações ambientais de nosso tempo, o diretor de arte Ricardo van Steen e o designer Bruno Pugens elegem como caminho tipográfico desta edição as fontes magras, com pouca tinta.

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