Entrevista Kiluanji Kia Henda

Artista angolano conversa a respeito da série de fotografias In The Days of a Dark Safari e reflete sobre a cena artística de seu país

Luana Fortes
The Last Journey of the Dictator Mussunda N’zombo Before the Great Extinction (Act I) (Foto: Cortesia Galeria Filomena Soares)
Está sendo constituída uma cena artística contemporânea em Angola? O que favorece e o que dificulta esse processo?
Não há dúvidas de que houve uma movida artística contemporânea nos últimos dez anos. Parte devido ao crescimento económico do país depois da guerra ter terminado. Eventos como a Trienal de Luanda foram decisivos para esta movida. No meu caso e de outros artistas angolanos que hoje circulam na cena internacional, a Trienal de Luanda foi uma plataforma fundamental que nos permitiu ter acesso a instituições e indivíduos relevantes. O que mais dificulta a consolidação de uma cena artística é a falta de infraestrutura dedicada à arte contemporânea. Até hoje não temos um museu de arte em Angola, isso é inadmissível.

Qual a importância de viver e trabalhar em Angola hoje?
Muito dos temas que abordo no meu trabalho estão ligados à história e questões sociais em Angola e África no geral. Sinto-me muito mais recompensado e desafiado em trabalhar num contexto em que existe uma necessidade de se resgatar, ou ainda, inventar uma história dado a falta de acesso do que foi registado no passado. E muito do que foi registado foi desde um olhar estrangeiro. Existe a necessidade urgente de haver uma reflexão, um questionamento sobre os períodos turbulentos que vivemos, legitimando novas narrativas. Acho que a arte pode ser um veículo excelente para exorcizar um passado extremamente trágico, mas também para projectar um futuro, ainda que fantasioso.

Em In the Days of a Dark Safari, como a construção de cenários, utilizando-se da estética dos museus de história natural, podem impactar a criação de identidades africanas contemporâneas?
No projecto In The Days of a Dark Safari, existe um questionamento sobre a nossa relação com o passado em África, uma relação que assenta sobre um paradoxo quando a leitura é feita a partir de um imaginário das expedições coloniais, que considerava um continente das trevas, como se pode ler no livro de Joseph Conrad, um dos maiores clássicos da literatura inglesa, ou pela interpretação de um discurso populista Africano, em que a África pré-colonial era um paraíso. A construção de uma identidade depende imensamente da nossa relação com a história, e como toda tentativa de regressar ao passado leva-nos a uma dimensão fictícia, este factor decisivo para construção de identidades pode ser extremamente manipulável, para o bem ou para o mal. O Museu de História Natural em Luanda foi construído durante o tempo colonial, e os animais que aí habitam já foram empalhados há quase 60 anos. Para mim, este facto foi muito relevante para escolher este cenário. A conservação da história através de um corpo morto, que pretendemos que se pareça vivo.

A narrativa é um elemento central das suas últimas séries fotográficas? As fotografias são exibidas em sequência ou funcionam separadamente?
Sim, elas funcionam em sequência. E a curta-metragem Havemos de Voltar, é como uma síntese de todo projecto. O filme conta a estória de um animal empalhado que tenta regressar ao passado para se vingar da história, uma vez que foi assassinado a fim de se tornar um objecto ao serviço da história num centro de arquivo. O lugar que sonha um dia regressar, que julga ser o seu lugar de origem é o Museu de História Natural. O filme está baseado num poema de Agostinho Neto com o mesmo título, onde o primeiro presidente angolano basicamente defende a ideia de que para sermos efectivamente independentes, a África teria que resgatar a cultura, hábitos e costumes do período pré-colonial. Mas este resgate tem se provado impossível, pois vivemos uma espécie de atropelamento histórico, entre a necessidade imperiosa de pertencer à modernidade e, ao mesmo tempo, com problemas da era da pedra por resolver. Esse atropelamento histórico é um fenómeno global, comum entre os países colonizados.

Qual a narrativa central em The Last Journey of the Dictator Mussunda N’zombo Before the Great Extinction?
A ideia de trabalhar sobre a imagem de um ditador surgiu quando decidi fazer referência ao discurso populista africano da África pré-colonial como um paraíso. Um dos motivos para a miséria que se vive no continente, usado com muita frequência no discurso de muitos políticos africanos (principalmente onde se vive uma ditadura), é resultante da presença europeia, ou ainda do processo de colonização. Não posso dizer que este discurso seja complemente falso, mas tem sido amplamente usado por uma meia dúzia de pessoas no poder para encobrirem a sua má gestão ou a corrupção sem limites. Mas acredito que a nova geração em Angola, ou mesmo em África, jamais aceitará ser governada por um ditador, algo que aconteceu muito devido à instabilidade política e militar que muitos países viveram após a independência. Daí surge esta última viagem num paraíso artificial. O final é invariavelmente trágico.

Você poderia falar mais a respeito dessa persona baseada em Mobutu Sese Seko? Quem interpreta o ditador?
Mobutu Sese Seko foi um arquétipo dos ditadores em África. Um militar que tomou o poder no Congo, após assassinar em colaboração com os belgas e a CIA, Patrice Lumumba, que foi uma das mais importantes figuras na história em África durante a luta contra a colonização. Mobutu esbanjava a sua fortuna que ganhou de forma ilícita, enquanto a maioria do povo vivia na miséria. O seu império desabou no final dos anos 1990, e ele acabou por morrer em Marrocos onde também foi enterrado. O ditador foi interpretado na série de fotografias por Miguel Prince, um artista excêntrico que vive numa espécie de constante performance. O Miguel propôs usar o nome do seu avó de origem Bakongo (grupo étnico do sul do Congo e Norte de Angola) que se chamava Mussunda N´Zombo. Em 2011 o Miguel Prince já tinha colaborado comigo, posando num pedestal em Luanda onde estava a estátua de um herói colonial, convertendo-se assim numa espécie de herói cultural de uma nova geração de artistas que despontava após a guerra civil. A sua figura é parte essencial do meu trabalho, uma narrativa que não se encerra em um projecto exclusivo, mas sim de um processo que nos acompanha pela vida.

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