Leonilson em águas profundas

Cento e vinte obras pouco ou nunca vistas são reunidas em exposição que celebra o lançamento do primeiro Catálogo Raisonné de um artista contemporâneo brasileiro

Paula Alzugaray
Truth Fiction (1990), de Leonilson (Fotos: Cortesia Projeto Leonilson)

Leonilson (1957-1993) volta a Fortaleza. Volta com seu vulcão de terra batida, construído por suas próprias mãos em 1986, quando visitou a terra natal, participando da coletiva Esculturas Efêmeras, organizada por Sérvulo Esmeraldo. Volta ainda com outras 120 obras que compõem a exposição Leonilson: Arquivo e Memória Vivos. E com um Catálogo Raisonné, que traz a totalidade de sua obra reunida em mil páginas divididas em três livros. Uma volta e tanto.

Com curadoria de Ricardo Resende, a mostra no Espaço Cultural Airton Queiroz (Unifor) deu preferência a obras pouco ou nunca vistas: desenhos, bordados ou pinturas que permaneceram restritos em coleções particulares e institucionais por décadas a fio. A exposição é resultado da pesquisa realizada para o Catálogo Raisonné, o primeiro jamais produzido sobre um artista contemporâneo do Brasil.

tombo na coleção PL.0790.000 Sem título, c. 1993 linha sobre voile 19,5 x 29,0 cm FOTO Felipe Bertarelli © Projeto Leonilson.

Sem Título (c. 1993), de Leonilson

No glossário emocional de Leonilson, o vulcão (ícone constante das pinturas dos anos 80) simbolizava a força da natureza – contida ou explosiva – manifesta no corpo e no amor. Mas, da mesma fase, surge nesta exposição O Peão (1987), pintura e costura sobre lona, que usa o símbolo do redemoinho, muito mais raro em sua poética. Comprada diretamente do artista em seu ateliê por outro jovem artista e colecionador, a tela permaneceu na mesma parede durante mais de dez anos e tardou a ser catalogada pelo Projeto Leonilson. A julgar por este caso, é de se supor que ainda existam tantas outras obras desconhecidas. Afinal, com o mercado de arte brasileiro incipiente nos anos 1980, as vendas, trocas e escambos eram feitos no corpo a corpo com os artistas. Na intimidade.

O Peão antecipa o bordado, que viria se firmar como linguagem predominante muitos anos depois, e parece antecipar a visceralidade do final de sua vida, quando “sua obra se torna dilacerante e afiada como a ponta de um canivete”, segundo o curador Ricardo Resende. “Trabalhos que expressam a ansiedade dolorosa de deparar-se com a morte quando se descobre doente em 1991.” Vítima da Aids, o artista faleceu em 1993.

Leonilson é reconhecido por uma poética única e diferenciada entre os artistas de sua geração. Tinha uma voz dissonante ao assumir uma narrativa íntima, introspectiva, que fazia pouca distinção entre o publico e o privado. Em sua obra completa são reconhecidas dezenas de autorretratos, mas não seria imprudente dizer que a totalidade seja um só retrato. Essas características logo se tornariam um idioma fluente entre os artistas da geração da virada do século 21. Em 2003, a afinidade de jovens artistas contemporâneos com Leonilson foi abordada na exposição Vizinhos, que teve lugar na Galeria Vermelho, em SP, em comemoração aos dez anos da morte do artista. Hoje, quase 24 anos depois, o fascínio por sua intimidade revelada é ainda maior.

tombo na coleção PL.2621.000 Sem título, 1971 tinta acrílica sobre tela 25,0 x 40,0 x 0 cm FOTO Rubens Chiri © Projeto Leonilson.

Sem Título (1971), trabalho de Leonilson

Serviço
Leonilson: Arquivo e Memória Vivos
Espaço Cultural Airton Queiroz (Unifor)
Av. Washington Soares, 1.321
Até 9/7
www.unifor.br

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