Máquinas de leitura

Crédito: Nina Gazire

Publicado em: 07/12/2011

Categoria: comportamento, Reportagem

Muito antes da internet, cientistas e escritores projetaram dispositivos de acesso integrado e universal ao conhecimento

Teatro_da_memoria

A Biblioteca de Babel, conto de Jorge Luis Borges escrito em 1939, tem como pano de fundo a lendária cidadela da Babilônia, fundada em, aproximadamente, 1950 a.c., e onde foram encontradas as tábuas de argila, conhecidas como o suporte do primeiro sistema de escrita de que se tem registro. Babel, em hebraico, quer dizer confusão e o nome está diretamente relacionado à torre que os babilônios teriam construído para chegar ao céu e escapar do dilúvio. Por desafiar a autoridade de deus, segundo o Antigo testamento, a cidade foi destruída e os homens foram castigados com a introdução de várias línguas para impedir a sua comunicação. 

Na versão do escritor argentino, a torre de Babel teria sido uma gigantesca biblioteca. com o funcionamento parecido ao de uma enorme máquina, cujas salas hexagonais se moviam constantemente, nessa cidade-biblioteca os moradores buscavam incessantemente por textos míticos que conteriam toda a sabedoria do universo, bem como as ideias que ainda estariam por vir. Porém, a busca nunca se completava já que a biblioteca, de tamanho e conteúdo ilimitados, possuía em grande parte textos completamente aleatórios e sem sentido para seus habitantes. 

Borges talvez tenha criado uma das imagens mais próximas do que é viver em tempos de google. A busca por uma simples palavra ou termo se torna um torvelinho infinito diante da efusão de resultados que nos é mostrada na tela do computador. Seria a Biblioteca de Babel uma espécie de internet primordial? Anacronismos e confabulações à parte, fato é que muito antes da rede mundial de computadores ou dos tablets, a humanidade já vinha pesquisando diferentes maneiras de facilitar a busca nos seus milhares de anos de conhecimentos produzidos. conheça algumas máquinas imaginadas – algumas até chegaram a ser confeccionadas por seus criadores –, dignas de um bom conto borgeano.

Teatro da Memória: precursor do cinema (Giulio Camilo, 1530)

Camillo (1480-1544) é considerado um dos filósofos mais controvertidos e misteriosos do Renascimento. Foi contemporâneo e amigo de outros sábios como o filósofo Erasmo de Roterdã, que o considerava excessivamente estranho, devido às suas ideias holísticas. Ao contrário desses pensadores, que viam no texto escrito a fonte de apreensão para o conhecimento, Camillo via no teatro e na cenografia uma nova maneira de aprendizado e registro da memória. Segundo suas próprias palavras, “desde o mais antigo e mais sábio dos escritores, fomos acostumados a registrar os segredos de Deus apenas em escritos”.

Em 1530, ele pensou uma máquina que mudaria essa concepção, chamada inicialmente de Theatro della Sapientia, ou Teatro da Memória, em português. O filósofo chegou a construir o mecanismo e, segundo relatos, o exibiu em apresentções no ano de 1532. Tratava-se de uma enorme estrutura de madeira que permitiria um ou dois indivíduos de cada vez no seu interior. Dentro havia uma grande variedade de textos e imagens. O conteúdo estaria dentro de pequenas caixas dispostas em ordens e graus variados. 

Ao entrar nesse “teatro maquínico”, o usuário era capaz de pesquisar sobre qualquer assunto, porém não seria o único a usufruir do conhecimento buscado. À medida que o conteúdo no interior da máquina era manipulado, o público do lado de fora e presente em um auditório onde o invento deveria ser disposto teria acesso às imagens e textos que apareciam em sete pilares dispostos no exterior da máquina. Afinal de contas, segundo o inventor, o texto escrito não seria suficiente, devido ao seu caráter intimista, e o conhecimento deveria ser compartilhado coletivamente de acordo com as leis de Deus. Não seria o Teatro da Memória de Camillo precursor do cinema ou dos recursos multimídia tão comuns hoje em dia?

Roda de leitura: protótipo do hipertexto (Agostino Ramelli, 1588)

Roda_de_leitura

O engenheiro italiano Agostino Ramelli (1531-1600) viveu no fim do período ápice do Renascimento. Inventor de inúmeros mecanismos de uso militar, foi na França que ele criou a “obra” que lhe deu fama até os dias de hoje: a Roda de Leitura. Essa máquina tinha como proposta a consulta simultânea de vários livros. Em 1985, o arquiteto Daniel Libeskind reconstruiu essa e outras máquinas de leitura, incluindo parte do mecanismo do Teatro da Memória de Giulio Camillo, em um projeto apresentado na Bienal de Arquitetura de Veneza. 

Teoricamente, o mecanismo seria simples: trata-se de uma grande roda de madeira na qual os livros a ser consultados são dispostos em plataformas parecidas com as pás da roda de um moinho. Semelhante a uma escrivaninha rotatória, o consulente se sentaria diante da máquina, girando-a de acordo com a necessidade da consulta. A Roda de Leitura de Agostino Ramelli é considerada por inúmeros estudiosos um protótipo do hipertexto, termo que hoje remete a um texto em formato digital, no qual se agregam outros conjuntos de textos.

Mesa mecânica: predecessora do Kindle (John Muir, 1861)

Mesa_mecanica

John Muir (1838-1914) foi um escritor e naturalista norte-americano e pioneiro da ecologia. Mas, além de viajar pela América e registrar em seus diários as belezas e riquezas da natureza, Muir estava preocupado em criar um recurso que facilitasse a consulta aos inúmeros manuscritos produzidos durante seus anos de pesquisa. Entre 1861 e 1863, ele trabalhou na sua Mesa Mecânica (Clockwork Desk), mecanismo que organizaria o seu material de consulta enquanto trabalhava nas pesquisas. “Eu inventei uma mesa na qual os livros que eu tinha de estudar eram dispostos em ordem e no início de cada assunto que eu estava pesquisando”, detalha ele em um dos relatos sobre a invenção. 

Semelhante à Roda da Leitura de Agostino Ramelli, porém consideravelmente menor, na Mesa Mecânica um livro era disposto no centro de uma roda dentada. Funcionando como uma espécie de relógio, na medida em que se ia folheando o texto, a roda substituiria por outro livro assim que a consulta tivesse sido terminada. Recentemente, a jornalista do New York Times Jennifer Schuessler referiu-se à criação de Muir como uma espécie de “predecessora do Kindle” – o e-book reader criado pela Amazon em 2007.

Memex: o conceito do hiperlink (Vanevar Bush, 1945)

Memex

No período entre guerras, quando se deu o boom do desenvolvimento das tecnologias militares, foi quando o cientista norte-americano Vanevar Bush (1890-1974) consolidou sua carreira. Assim como Agostino Ramelli, que trabalhava para as tropas francesas criando engenhos militares, Bush é tido como uma figura de liderança no desenvolvimento do complexo militar-industrial dos Estados Unidos. O cientista estava preocupado em criar um mecanismo que armazenasse e facilitasse a pesquisa de toda essa produção tecnocientífica que crescia em ritmo acelerado. Em 1945, ele escreveu o artigo As We May Think (Como Podemos Pensar), que é interpretado por alguns como a referência daquilo que viria ser a internet atual. 

Nesse artigo, Bush descreve sua invenção chamada Memex, um dispositivo que nunca chegou a ser construído. Ao usá-lo, profissionais poderiam consultar seus pares e buscar pareceres e processos semelhantes aos seus. Nesse prodigioso invento – cujo nome seria uma junção entre as palavras Memória e Index – as pesquisas se dariam pela semelhança e associação dos termos buscados. Além da pesquisa associativa, que é muito semelhante ao modo como o pensamento humano funciona, o conteúdo estaria disposto pela similaridade por meio de elos que ligariam os assuntos uns aos outros. Assim nasceu também o conceito de hiperlink, que atualmente é imprescindível para se “navegar”pela internet. 

Além dessas propostas visionárias, a máquina ainda possibilitaria a edição e modificação do conteúdo pelo usuário. Em vez de serem guardadas em bancos de dados, como as da internet, as informações do Memex estariam gravadas em microfilmes e fotografias que seriam manipulados diretamente pelo usuário.

*Publicado originalmente na edição impressa #3.

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