Na onda do remix

Juliana Monachesi

Publicado em: 07/10/2011

Categoria: Entrevista, Reportagem

Em entrevista para a seLecT, Mark Amerika fala sobre seu novo livro

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REMIX, O LIVRO. O artista e teórico das novas mídias mark Amerika lança, em setembro nos eUA, obra em que remixa do poeta beatnik Allen Ginsberg (1926-1997) ao pintor abstracionista Ad Reinhardt (1913-967). Remix: o site. o livro remixthebook (com minúsculas no original) é lançado concomitantemente ao site do projeto, que reúne remixes do próprio livro. o projeto sampleia artistas como Nam June Paik, Kathy Acker e Robert Rauschenberg – ou mesmo comediantes como George Carlin, Stephen Colbert e Steve martin – em vez de, por exemplo, os tentadores pós-estruturalistas, embora tome emprestado deles também.

Professor no Departamento de Arte e História da Arte na Universidade do Colorado, em Boulder, Amerika define-se como remixólogo e defende que as pessoas tenham uma consciência “recortar-e-colar” (cut-and-paste) na rede e uma postura de compartilhamento em sintonia com os campos sociais da distribuição. ele é autor de obras pioneiras de net art, como Grammatron (1997), ficção hipertextual em que as pessoas utilizam tecnologias em rede para se teletransportar a ambientes narrativos de domínio público, e Society of the Spectacle (A Digital Remix), de 2004, que atualiza o filme de Guy Debord. Amerika falou à Select, por e–mail, sobre o projeto do novo livro.

Colagem, apropriação, intertextualidade, cover, mashup, pastiche, pós-modernismo, pósprodução, avant-pop, bastard-pop: A prática centenária (e de alguma maneira periférica até os anos 1990) da colagem finalmente tornou-se a protagonista da história da arte?O que aconteceu com a criatividade?

A criatividade está na mistura. É inseparável da prática do remix. De fato, esse é o princípio central que exploro em remixthebook. O livro abre com um remix da filosofia processual de Alfred North Whitehead, que é considerado o principal filósofo, com a possível exceção de (Henri) Bergson, a trabalhar integralmente o conceito da criatividade em uma plataforma filosófica que revela como todos somos entidades criativas, criaturas que intuitivamente geram novas versões da vida remixando o material-fonte em que nos encontramos imersos. A frase de Whitehead que continuamente ecoa ao longo de remixthebook é “a criatividade é o princípio da novidade”. O que eu faço no livro é ligar a noção de criatividade de Whitehead e sua relação com a novidade com o que significa ser de vanguarda (que não é mais um palavrão) e com o fato de que ser um artista do remix sempre à frente de seu tempo é uma espécie de condição necessária, quando se espera visualizar a versão de “criatividade” seguinte. Portanto, o protagonista dessa trajetória histórica não é per se uma prática de colagem, mas o meio em si. Neste caso, o artista é “o meio e a mensagem”. A criatura como animal remixológico.

Considerando a maneira como você trabalha, nunca dissociando ficção, teoria, arte e ciberpsicogeografia, remixthebook não é exatamente um livro de teoria. Ele também foi escrito, como outras obras suas, na forma de códigos de programação e por muitas de suas personas em fluxo?

Sim. Isso se deve ao fato de que estou fazendo com a teoria coisas que raramente são feitas. Eu a pós-produzo para que ela apareça como outra coisa que não a teoria acadêmica. Uma das principais premissas de remixthebook é que a teoria por si só foi sequestrada pela elite acadêmica, que tece seus próprios remixes carregados de jargão em estilos acadêmicos muito específicos que tentam calar todos os demais, de modo que possam manter a autoridade cultural sobre o que é e não é considerado teoria. Mas por que tentar manter o status quo da teoria mesmo quando o mundo
que nos rodeia já passou por mudanças tão radicais e, essencialmente, nos desafia a inventar novas formas de discursos teóricos que sejam relevantes para os tempos tecnológicos em que vivemos?

A maioria dos acadêmicos que ensinam teoria tem, por algum motivo, optado por não aceitar o desafio de cultural que torna impossível para eles manter a sua autoridade cultural. Qualquer um que presta atenção ao que está acontecendo, que está ativamente envolvido com tecnologias e meios de comunicação em rede e móveis, e que lê e compõe suas próprias formas de discurso teórico faça–você-mesmo, está muito naturalmente remixando a teoria em suas pesquisas.Nas várias versões de remixthebook que aparecem tanto no livro como na rede, em remixthebook. com, o que se tem é a realização de teoria como pesquisa prática de arte. Gostaria também dereinventar a teoria do nosso tempo, e é esse elitismo.

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