Nenhum homem é uma ilha

Diásporas, migrações, troca e desaparecimento de saberes são assuntos de artistas que estão na 32ª Bienal de São Paulo, dedicada à incerteza em tempos de mudança contínua

Márion Strecker
Águas dos rios do Carmo e Piranga formam o rio Doce, em Minas Gerais, sete meses depois da catástrofe humana e ambiental provocada pelo rompimento de barragem de rejeitos da mineradora Samarco, que tirou a vida de 600 km de rios até o litoral do Espírito Santo; foto da colombiana Carolina Caycedo, em viagem de pesquisa à região de Mariana (MG) (Foto: Cortesia da artista)

Na 32ª Bienal de São Paulo, que acontece de 10/9 a 11/12 no Parque do Ibirapuera, a maioria dos artistas é nascida depois de 1970, mais da metade é de mulheres e muitos dos projetos foram comissionados, ou seja, produzidos especialmente para o contexto da exposição. Várias obras, aliás, nem serão estritamente de artes visuais. Incerteza Viva é o título da mostra.

São 81 artistas ou coletivos, vindos de 33 países. O curador é o alemão Jochen Volz, que já trabalhou na Serpentine Gallery de Londres e no Inhotim. Os cocuradores são Gabi Ngcobo (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca) e Sofía Olascoaga (México).

Edições em português e em inglês do livro do brasileiro Raduan Nassar, que será lido em árabe na Bienal de São Paulo, num projeto do artista libanês Rayyane Tabet (Fotos: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

Edições em português e em inglês do livro do brasileiro Raduan Nassar, que será lido em árabe na Bienal de São Paulo, num projeto do artista libanês Rayyane Tabet (Fotos: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

O evento foi antecedido por encontros de artistas e curadores com pesquisadores, ativistas, antropólogos e cientistas. Seminários e oficinas ocorreram em Santiago (Chile), Acra (Gana), Lamas (Peru) e Cuiabá (Mato Grosso) antes de chegarem à sede da instituição. Nove dos artistas convidados passaram temporadas em São Paulo, hospedados nos estúdios do Edifício Lutetia, na Praça do Patriarca, no Centro da cidade, dentro da parceria com o Programa de Residência Artística da Faap. Outras viagens de pesquisa foram e ainda estão sendo realizadas em roteiros que atendem objetos de estudo específicos.

O projeto do libanês Rayyane Tabet é traduzir para o árabe ao menos em parte a novela Um Copo de Cólera, do brasileiro Raduan Nassar, ele mesmo descendente de libaneses. Tabet teve contato com o livro a partir da edição em inglês da Penguin Press, que encontrou por acaso numa livraria em Beirute. Na Bienal, o projeto é sonoro: o livro vai ser lido em árabe.

Imagem de Maárad Trablous (A exposição de Trípoli), de Alia Farid, sobre um parque inacabado de autoria de Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano, uma espécie de “irmão” do Parque do Ibirapuera em SP (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

Imagem de Maárad Trablous (A exposição de Trípoli), de Alia Farid, sobre um parque inacabado de autoria de Oscar Niemeyer em Trípoli, no Líbano, uma espécie de “irmão” do Parque do Ibirapuera em SP (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

 

Alia Farid, do Kuwait, interessada na interseção da arte com a arquitetura, esteve em residência artística em Beirute este ano, onde encontrou um parque inacabado em Trípoli, de autoria de Oscar Niemeyer, que parece um irmão do Parque do Ibirapuera, com direito a uma Oca e marquises. “Ela está fazendo um filme sobre isso, quem convidou o Niemeyer, por que propuseram isso; acho que vai ser bem bonita essa história, trazendo essa realidade paralela. Até um campo de refugiados sírios já foi erguido nesse parque”, disse o curador da Bienal à seLecT, meses antes da abertura.

A portuguesa Carla Filipe pesquisa plantas alimentícias nascidas às margens de ferrovias e criou uma horta bem em frente à Bienal, no lugar onde ficam as bandeiras. A chilena Pilar Quinteros seguiu os rastros do explorador inglês Percy Fawcett (1867-1925), desaparecido nos anos 1920 na Serra do Roncador, em Mato Grosso, durante expedição em busca do mítico Eldorado.

A polonesa Iza Tarasewicz veio pesquisar a presença da mazurca no Brasil. “Essa música popular polonesa virou muito querida nos salões franceses e viajou pelo mundo inteiro. Todo mundo copiou. E tem influência forte em algumas músicas brasileiras”, diz Volz. “O trabalho é sobre como a ideia de um som, um ritmo e uma atitude viajam o mundo. Iza viaja ao Nordeste e vai entender como a mazurca aparece, por exemplo, no chorinho brasileiro. A gente espera que o resultado seja uma apresentação pública”, diz.

Cena do filme Running out of History, de Michal Helfman; sua temática aborda o contrabando na fronteira de Israel com a Síria, onde a circulação de ajuda humanitária é proibida (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

Cena do filme Running out of History, de Michal Helfman; sua temática aborda o contrabando na fronteira de Israel com a Síria, onde a circulação de ajuda humanitária é proibida (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

 

A israelense Michal Helfman prepara uma videoinstalação que inclui um filme ficcional envolvendo ativistas na fronteira de seu país com a Síria e o contrabando onde a circulação de ajuda humanitária é proibida. Anawana Haloba, nascida na Zâmbia (África) e residente em Oslo (Noruega), deve abordar o sal como moeda de troca importante no tráfico de escravos e na diáspora africana. O goiano Dalton Paula, nascido em Brasília, visitou locais envolvidos na economia do tabaco, inclusive Cuba.

Cena do filme ficcional Joking Relationships, do norte-americano residente em Lisboa Gabriel Abrantes, em que uma índia do Xingu disputa piadas com um robô em stand-up comedy (Foto: Cortesia do artista)

Cena do filme ficcional Joking Relationships, do norte-americano residente em Lisboa Gabriel Abrantes, em que uma índia do Xingu disputa piadas com um robô em stand-up comedy (Foto: Cortesia do artista)

 

Gabriel Abrantes, que nasceu nos EUA e vive em Lisboa, ficou interessado no senso de humor indígena e acabou conhecendo na vida real um personagem com história semelhante à que tinha imaginado. Seu projeto é um filme de ficção chamado Joking Relationships, em que uma índia do Xingu aparece competindo em piadas com a inteligência artificial de um robô numa stand-up comedy.

Bené Fonteles, nascido no Pará, veterano de Bienais e com interesse eterno no livre trânsito entre artes e artesanias, é também ativista, escritor e compositor. Fonteles vai criar um grande lugar de encontro na exposição. “Ele vai receber o Ailton Krenak, alguns músicos, algumas lideranças de comunidades quilombolas, de candomblé. Na cosmovisão do próprio Bené está tudo presente e meio misturado. O projeto para cá é de fato um lugar onde essas tradições se encontram”, diz o curador. “Algo que sempre esteve presente na vida dele, na ação, no jeito de pensar arte. Tradições muito presentes no Brasil, mas não necessariamente misturadas.”

Vivian Caccuri em encontro com Numo Akwaa Mensah III, líder religioso Ga, em Gana; os conhecimentos obtidos ajudaram a artista a conceber um altar de subwoofers para a Bienal (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

Vivian Caccuri em encontro com Numo Akwaa Mensah III, líder religioso Ga, em Gana; os conhecimentos obtidos ajudaram a artista a conceber um altar de subwoofers para a Bienal (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

A paulista Vivian Caccuri, residente no Rio, foi a Gana, no Oeste da África, não apenas para se deparar com o povo Tabom (da expressão em português “tá bom”), que surgiu com a volta de ex-escravos nascidos na África, mas que viviam no Brasil até a Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835, em que nagôs muçulmanos se revoltaram contra os opressores. Caccuri encontrou em Jamestown, um bairro de Acra, “um sound system em cada esquina”, e notou que “os sons graves são mais proeminentes na música das diásporas”, como disse à seLecT.

Caccuri montou para a Bienal um altar de subwoofers, que são alto-falantes dedicados à reprodução de frequências mais baixas. Ela trabalha com sons tão graves que nem sempre serão audíveis aos humanos, mas serão de algum modo sentidos pelo corpo. A forma do altar foi influenciada por uma conversa que teve com um líder religioso da etnia Ga. Doze músicos de Gana assinam a obra com ela, que planeja mostrar uma música diferente de hora em hora. No primeiro sábado de cada mês, haverá performances na Bienal, que serão gravadas. “Convidei músicos brasileiros para colocar batidas e palavras. Vou produzindo faixas com eles. Como resultado, vai sair um disco no fim deste ano”, adianta a artista.

Vivian Caccuri com o produtor Choco, no ateliê da artista, no Rio de Janeiro; ela cria um sistema de som para tocar músicas criadas em parceria com músicos brasileiros e de Gana (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

Vivian Caccuri com o produtor Choco, no ateliê da artista, no Rio de Janeiro; ela cria um sistema de som para tocar músicas criadas em parceria com músicos brasileiros e de Gana (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

 

A colombiana Carolina Caycedo, nascida em Londres, fez viagens de pesquisa a Itaipu (Paraná), Vale do Ribeira (São Paulo), Mariana (Minas Gerais) e Belo Monte (Pará). “Há quatro anos faço uma investigação, um corpo de trabalho chamado Be Damned, que joga com a palavra dam, que quer dizer ‘represa’ em inglês, mas também ‘maldição’ ou ‘maldizer’ (to damn). O título joga com esse duplo sentido: de ser represado, mas também de receber uma maldição. Esse corpo de trabalho investiga o represamento de corpos de água e o represamento de corpos sociais e ecossistemas, formas de vida em que a natureza humana e a não humana têm uma conexão orgânica que se traduz em gestos, como pescar, arar a terra, cultivar, como o garimpo artesanal”, diz Caycedo em entrevista à seLecT.

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Odette, moradora de Barra Longa (MG) e ativista do MAB (Movimentos dos Atingidos por Barragens), vítima do crime da Samarco entrevistada por Carolina Caycedo (Foto: Cortesia da artista)

 

“Na Colômbia há pelo menos 200 mil pessoas desalojadas por represas. No Brasil deve ser muitíssimo mais”, diz ela, para quem no fundo dos conflitos sociais está sempre a questão da extração de recursos. “O ambientalista é o novo inimigo do capital. A criminalização de ambientalistas no Brasil e na Colômbia está fora de controle, a ponto de chamar de organizações terroristas grupos ambientais. Há ambientalistas enfrentando processos legais por terrorismo. O Brasil está em primeiro lugar em ambientalistas assassinados e desaparecidos. A Colômbia está em segundo. Esse é um tema muito grave e muito complicado”, diz Caycedo.

 

Dam Knot Anus (2016), pôster de Carolina Caycedo que cita entrevista de um xamã colombiano; para ele, uma represa é como um nó no ânus (Foto: Cortesia da artista)

Dam Knot Anus (2016), pôster de Carolina Caycedo que cita entrevista de um xamã colombiano; para ele, uma represa é como um nó no ânus (Foto: Cortesia da artista)

 

Parte de seu trabalho é acompanhar e apoiar comunidades em resistência nos seus territórios. “Preocupa-me sobremaneira como atividades extrativistas como a geração hidrelétrica e a mineração em larga escala afetam gestos tão cotidianos e milenares e produzem uma desconexão entre um saber e um fazer, porque, finalmente, esses gestos, como a pesca, o garimpo, o cultivar a terra, são um conhecimento encarnado. É fazer, ou senti-pensar: saber e pensar com o corpo”, argumenta a artista.

Painel Lágrimas da África, de Helen Sebidi, considerada matriz de toda a produção da artista; ela veio a Salvador para pensar a diáspora africana no Brasil e fazer nova pintura (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

Painel Lágrimas da África, de Helen Sebidi, considerada matriz de toda a produção da artista; ela veio a Salvador para pensar a diáspora africana no Brasil e fazer nova pintura (Foto: Divulgação/ 32ª Bienal de São Paulo)

 

Enquanto esta reportagem foi escrita, a sul-africana Helen Sebidi passou uma temporada de três meses em Salvador, numa parceria da Bienal com o Instituto Goethe, em contato com quilombolas e o candomblé. Ela é autora de painéis intitulados Lágrimas da África. “Essa pintura fala do sofrimento dela, sendo uma mulher negra num sistema de apartheid e se tornando artista, mas também trabalhando no campo ou como empregada doméstica, para sustentar a si mesma e à família”, conta o curador Jochen Volz à seLecT. “Essa pintura nunca saiu da casa dela. É a matriz de toda a produção que ela faz. Vamos trazer esse trabalho ao Brasil e convidamos a Helen para desenvolver uma pintura hoje, em 2016, pensando um pouco a diáspora africana no Brasil. É um tipo de comissionamento muito especial.”

A arte formalista parece definitivamente superada, enquanto os processos do fazer artístico continuam valorizados, a julgar pela amostra dos projetos de Caycedo, Caccuri, Tabet, Fonteles, Abrantes, Helfman, Tarasewicz, Paula, Filipe, Sebidi, Farid e Haloba para a 32ª Bienal de São Paulo. Assuntos políticos, econômicos e sociais permeiam as “narrativas” que os curadores buscam e fomentam nos artistas contemporâneos, que parecem se deslocar como nunca, em busca de si mesmos e dos outros, assimilando, filtrando, revolvendo e devolvendo de algum modo dores e alegrias do mundo.

Afinal, nenhum homem é uma ilha, como escreveu o poeta inglês John Donne em 1624. Seus versos foram recentemente lembrados pela cantora e compositora inglesa PJ Harvey, no palco de um festival na Holanda, em junho, no dia seguinte à votação do referendo em que o Reino Unidos decidiu sair da Comunidade Europeia. Se nem a Grã-Bretanha pode mais ser uma ilha, que dirá o Brasil.

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