O que você compraria, se fosse um colecionador rico?

Samantha Moreira, Marta Mestre, Sheila Leirner e Vanda Mangia Klabin respondem à pergunta feita pela #select34

Publicado em: 13/04/2017

Categoria: A Revista, Fogo Cruzado

Marta Mestre (Foto: William Gomes)
Marta Mestre (Foto: William Gomes)

Nas artes visuais, a relação entre instituições, agentes e negócios é intrincada. Nem sempre um artista conceitualmente expressivo chega ao topo do mercado. A valoração pelo sistema é um jogo de regras imateriais, o que torna difícil saber quem será a bola da vez. A sugestão de um insider pode servir como bom palpite ou ser a própria alavanca do sucesso comercial de um artista. seLecT perguntou a curadores e críticos de renome: se você fosse um colecionador rico, que artista ou obra compraria? As respostas são um indicador dos meandros do art trade.

Marta Mestre
Curadora
Só conseguiria responder a esta pergunta se fosse num contexto privado, jamais na esfera pública. Embora, nos últimos dez anos, o sistema de arte tenha dado um grande protagonismo à atuação de curadores em feiras, continuo a acreditar que as escolhas do curador não devem estar a serviço dos rankings de artistas nem do mercado. A seleção de artistas ou de trabalhos pelo curador não deve ser da ordem da “opinião pessoal” nem do gosto. Não deve ser uma idiossincrasia. O seu “poder” deve advir da sua força intelectual, da sua capacidade de agregar e orientar significados. Sob esse ponto de vista, penso que algumas curadorias em contextos de galerias ou feiras podem ser bem-sucedidas, mas isso é raro. Em grande parte dos casos correspondem a uma lógica de “valorização de marca”. Como diz um amigo: “Se eu fosse um colecionador rico, compraria a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto”. É por aí.

Samantha Moreira (Foto: Jurandy Valença)

Samantha Moreira (Foto: Jurandy Valença)

Samantha Moreira
Curadora, fundadora e gestora do Ateliê Aberto (Campinas) e do Chão (São Luís do Maranhão)
Gosto de pensar em recursos que possibilitem a concretização de projetos que não se enquadram dentro de normas sistêmicas estabelecidas. Estaria mais interessada em que a “minha fortuna” propiciasse situações e processos desafiadores, utópicos, do que com a aquisição de uma obra personalista ou objeto de grande valor econômico para o mercado de arte. Propor territórios para artistas experimentarem colaborativamente, dialogando com outros mundos, vias e vidas. Propiciar a busca de verdades ao artista e outros interlocutores, com recursos de forma adequada, pode impulsionar grandes saltos. Em vez de adquirir “uma grande obra já produzida de um determinado artista”, eu compartilharia “o grande processo ou a grande busca de uma coletividade”, apontando saídas e alternativas a esse estado de coisas do sistema da arte brasileira.

Sheila Leirner (Foto: Divulgação)

Sheila Leirner (Foto: Divulgação)

Sheila Leirner
Crítica de arte
Se fosse rica, não deixaria de ser crítica de arte e, portanto, não colecionaria nada. Como a análise interpõe-se às características objetivas e subjetivas da possessão, eu não saberia – e não gostaria de – escolher obras para o meu próprio usufruto. Mas seria mecenas. Conseguiria comprar e compraria, isto sim, apenas para museus e instituições, ajudando a completar e aumentar suas coleções. Escolheria trabalhos importantes de arte moderna e contemporânea, cujos autores não citarei, por não apreciar listas e especulações de mercado. Em suma, pensaria como o romancista francês David Foenkinos (no livro Le Potentiel Érotique de ma Femme) que “o colecionador é um doente que procura em permanência a sua cura”. E julgaria que quem escreve sobre arte, o que é uma forma de possuí-la juntamente com o leitor, por sorte está vacinado contra a “doença” de tê-la em seu poder.

Vanda Mangia Klabin (Foto: Luiz Garrido)

Vanda Mangia Klabin (Foto: Luiz Garrido)

Vanda Mangia Klabin
Historiadora de arte e curadora
Paul Cézanne – The Bathers, 1898-1905 – óleo sobre tela – 210,5 x 250,8 cm – Philadelphia Museum of Art, Philadelphia, EUA
Cézanne pintou uma série de Banhistas, tema constante em sua produção e multiplicado, sobretudo, no final de sua vida. A obra de Cézanne inicia a ruptura do espaço representacional e marca a substituição do espaço renascentista para a elaboração da espacialidade moderna e contemporânea. Essa é a mais arquitetônica, em que as figuras laterais e as árvores lançam uma composição como uma grande catedral e buscam uma fusão das figuras à natureza. Os corpos das banhistas são tratados como volumes pictóricos e estruturam todo o espaço em composições piramidais, simetria de formas e um sistema de representação por planos e volumes. Pablo Picasso possuía em sua coleção particular a tela Cinq Baigneuses e dizia que tinha passado anos estudando esse quadro, que hoje está no Museu Picasso, em Paris, e foi a fonte de inspiração, juntamente com as esculturas africanas, para a sua famosa tela Les Demoiselles d’Avignon. Henri Matisse também possuía em sua coleção particular uma obra da série Les Baigneuses, que ofereceu, após 37 anos de convivência, ao Museu do Petit Palais, em Paris, afirmando que essa tela o sustentou nos momentos mais críticos de sua vida. Jasper Johns era fascinado pelas Banhistas de Cézanne e também possui uma em sua coleção pessoal. Em suas obras sempre incluiu quadrados, círculos e cones como uma referência a Cézanne e seus ensinamentos: abordar a natureza através do cilindro, da esfera e do cone.

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