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Eduardo Kac apresenta trabalhos relacionados a Em Órbita: Telescópio Interior, um poema que só pode ser realizado na gravidade zero, na Luciana Caravello

Giselle Beiguelman
Montado a partir da junção de duas folhas de papel, o poema de Kac foi produzido na Estação Espacial Internacional pelo astronauta francês Thomas Pesquet (Fotos: Thomas Pesquet, Cortesia Eduardo Kac/ Luciana Caravello Arte Contemporânea)

É a primeira vez na História da Arte que isso acontece. Os impactos no campo da escritura e da arte contemporânea não são pequenos. Não se trata de uma obra que fala sobre o espaço, mas sim de uma criação inteiramente feita no espaço extraterrestre.

Lançado da base russa do Cazaquistão rumo à Estação Espacial Internacional (EEI), o poema seguiu para o espaço pelas mãos do astronauta francês Thomas Pesquet, encarregado de montar e colocar em órbita o poema Em Órbita: Telescópio Interior.

O poema é montado a partir da junção de duas folhas de papel. “Visto de um certo ângulo, revela a palavra francesa MOI (que significa ‘eu’, ou ‘meu’). De outro ponto de vista, vê-se uma figura humana com o corte do cordão umbilical. Esse ‘MOI’ representa o eu coletivo, evocando a humanidade, e o corte do cordão umbilical representa a nossa libertação dos limites gravitacionais”, diz Eduardo Kac à seLecT.

  • Sequência de imagens do poema realizado em gravidade zero

Para ele, Em Órbita: Telescópio Interior é um instrumento de observação e reflexão poética, o que nos leva a repensar nossa relação com o mundo e nossa posição no Universo. “No espaço, não há esquerda nem direita, nem acima nem abaixo, nem frente ou costas. Esses conceitos são terrestres. Minha obra foi criada sem esquerda nem direita, sem acima nem abaixo, sem frente ou costas. Assim, ela é uma obra verdadeiramente (e não metaforicamente) alienígena. Todos os sistemas sociais de escrita são o que chamo de ‘gravitrópicos’ – sofrem a ação física ou cognitiva da gravidade. No caso da minha obra Em Órbita: Telescópio Interior, isso não ocorre porque há não apenas uma mudança radical na concepção do poema, mas também no meio (gravidade zero) que exige sua realização e leitura”, diz.

Uma cultura espacial
Kac acredita que, assim como o surgimento da cultura digital mudou a história do mundo, o surgimento de uma verdadeira cultura espacial vai marcar a humanidade profundamente. O estranhamento que essa afirmação pode causar à primeira vista se desfaz quando se pensa na história das relações entre tecnologias maquínicas e a escrita. É curioso lembrar, por exemplo, que, ao comentar o naufrágio do Titanic (1912), o The New York Times destacava que, se não fosse “o uso quase mágico do ar, a tragédia do Titanic teria submergido no segredo”. Falavam do telégrafo sem fio e como esse tipo de informação seria “respirada” por todos. Tomando esse caso como antecedente, não é difícil imaginar que o antigravitropismo de Kac se “naturalizará”, como as telecomunicações se naturalizaram.

Desenho preparatório para Em Órbita: Telescópio Interior

Afinal, como diz o artista, “a obra impossível de hoje é o padrão social de amanhã. Nem eu nem você veremos isso, mas, assim como o acesso às nuvens se popularizou com o barateamento do transporte aéreo, o acesso ao espaço (inicialmente, através de voos suborbitais) eventualmente se tornará fato corriqueiro”.

Este projeto de Kac não é recente. Na verdade, 30 anos se passaram entre a formulação de sua teoria do antigravitropismo e a realização de Em Órbita: Telescópio Interior. Nesse período, muita coisa mudou. Ele, que é um bibliófilo em sua vida privada, dedicou boa parte de seu tempo ao desenvolvimento de novas formas poéticas que não são baseadas no livro. “Criei meu primeiro poema digital em 1982; meu primeiro poema holográfico (holopoema) em 1983; meu primeiro poema online em 1985, e assim por diante. Lancei a biopoesia em 2002; publiquei um livro de aromapoemas em 2011 (para ser lido com o nariz); em 2017, realizei o projeto de longa data de criar a poesia espacial”, conta o artista.

Na Luciana Caravello, a partir de 20/7, Eduardo Kac apresenta um conjunto de obras criadas antes da realização da obra no espaço, como fotos e desenhos feitos para o dossiê interno da Agência Espacial Francesa, onde realizou o projeto. Apresenta, também, as novas obras que celebram os momentos do processo depois da obra realizada no espaço

Serviço
Em Órbita: Telescópio Interior
Luciana Caravello Arte Contemporânea
Rua Barão de Jaguaripe, 387 – Rio de Janeiro
De 20/7 até 19/08
www.lucianacaravello.com.br

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