Outras histórias

Projeto educativo da mostra Entre Nós: A Figura Humana no Acervo do Masp, no CCBB-RJ, joga com narrativas em construção

Paula Alzugaray
Espaço sensorial da exposição Entre Nós - A Figura Humana no Acervo do Masp (Foto: DIvulgação, CCBB RJ)
Espaço sensorial da exposição Entre Nós - A Figura Humana no Acervo do Masp (Foto: DIvulgação, CCBB RJ)

Ao trabalhar com uma exposição que elege um tema universal e acessível a todos – a figura humana na história da arte –, o programa educativo do Centro Cultural Banco do Brasil tem como desafio dar a entender ao público visitante a maleabilidade dos sistemas de representação através dos tempos. Para isso, educadores trabalharam com a curadoria da exposição, a cargo de Luciano Migliaccio e Rodrigo Moura, em projetos que ampliam as leituras e diálogos com as obras expostas do acervo do Masp. 

“A exposição fala de uma trajetória da representação. Nosso papel não é dar aulas de como representar a figura humana, mas entender como elas se dão hoje”, diz Camila Alves, coordenadora pedagógica do programa educativo do CCBB-RJ, à seLecT. “Estamos interessados em ver como o tempo interfere na maneira que nos representamos uns aos outros. A representação de corpos pelo viés da discussão de gênero, por exemplo. A partir dessa representação contemporânea, podemos refletir sobre o passado.”

As propostas se desenvolvem em oficinas que lançam mão, por exemplo, de “objetos relacionais”, criados pelo Educativo do CCBB a partir da obra de Lygia Clark. Entre os objetos disponibilizados para esta mostra estão diversas classes de medidores de tempo: ampulhetas, relógio de sol, relógios analógicos, digitais e calendários com diferentes estéticas e funções. “Medir o tempo por meio desses instrumentos traz diferentes subjetividades de representação”, diz Alves.

Outra estratégia são as “contações de histórias” e “visitas teatralizadas” com educadores vindos das artes cênicas, que incorporam os personagens evocados nesta exposição – europeus, africanos, latinos – contando histórias de quem eles são, de onde vêm, numa mistura de história e invenção. “O público gosta porque sai do lugar do certo e do errado – do conhecer ou não conhecer arte – e também inventa outros significados”, diz Alves.

Os projetos estão alinhados à proposta do Masp de se afirmar como um acervo diverso e plural. “Vivemos hoje um momento muito rico”, diz Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, à seLecT. “Sabemos que não há uma só história da arte, mas muitas histórias que podem ser contadas através da arte e sobre ela. Nesse contexto, nos perguntamos de que maneira podemos comunicar leituras e interpretações sobre as obras sem fazê-lo de uma maneira definitiva, autoritária, última, única. Nosso ponto de partida com os programas de mediação tem sido sempre no sentido de multiplicar leituras, diálogos e vozes sobre o acervo, de um modo vivo, processual e dinâmico, e assim será também nessa parceria com o CCBB”, continua Pedrosa.

Além dos projetos de mediação da Sapoti Projetos, responsável pelo Educativo das quatro sedes do CCBB – São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília –, o Masp contribui com dois grandes programas: um arquivo de áudios e uma série de três seminários, um em cada cidade onde a exposição fará itinerância. “A passagem do acervo por Rio, BH e Brasília deixará resíduos importantes nos arquivos do museu, desenvolvendo também nossa pesquisa e reflexão – por meio das palestras que serão publicadas em livro e nas faixas de áudio que também serão gravadas nessas cidades. Esse é o sentido também da noção de mediação para esses programas, onde de fato há um troca com o público, onde também aprendemos algo durante o processo”, completa Adriano Pedrosa.

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