Para além das capitais

Mariel Zasso

Publicado em: 05/09/2013

Categoria: Da Hora, se linka

Conheça o Festival Internacional Tropixel em uma entrevista com Raquel Rennó e Felipe Fonseca

Tropixel

Professora adjunta do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Raquel Rennó é pesquisadora e experimentadora em cultura digital, arte digital e afins. Felipe Fonseca é pesquisador e articulador de projetos relacionados a redes de produção colaborativa e livre, mídia independente, software livre e apropriação crítica de tecnologia, e autor do livro Laboratórios do Pós-Digital. Dois dos organizadores do Tropixel, um festival inédito que acontecerá em outubro escapando um pouco do eixo Rio – São Paulo, eles responderam por email a uma entrevista que conta um pouco o que será esse evento.

seLecT: O que é o Tropixel? Qual o objetivo desse encontro?

Felipe Fonseca: Tropixel é um festival internacional que vai discutir a fronteira entre arte, ciência, tecnologia e sociedade. Acontece em outubro deste ano, em Juiz de Fora e Ubatuba. É organizado no Brasil por um grupo de pequisadores e ativistas interessados em como esses campos podem trazer contribuições para a construção de futuros mais justos, humanos e participativos. Faz parte da rede Pixelache, criada há mais de dez anos em Helsinque e responsável por uma série de eventos em diversos lugares do mundo: Finlândia, Noruega, França, Suécia, Senegal, Colômbia e outros. Será o primeiro nodo dessa rede no Brasil.

seLecT: Segundo o site, a programação se organizará em torno de 3 eixos temáticos: ambiente, pessoas, coisas. Como vocês, organizadores, chegaram a essa proposta?

Felipe: Os eixos temáticos são na verdade o agrupamento de dezenas de tópicos que queremos discutir e nos quais queremos atuar durante o festival. São temas que interessam à comissão organizadora do festival, composta por pessoas que têm um histórico de atuação no Brasil e no exterior.

seLecT: E qual público vocês esperam reunir e atingir?

Raquel Rennó: O Tropixel está voltado a diversos públicos. A primeira etapa, em Juiz de Fora, deve atrair um público mais acadêmico e ligado ao mundo da arte eletrônica (visual e sonora) relacionados com temas tratados no Mestrado em Artes, Cultura e Linguagens do Instituto de Artes UFJF e também pesquisadores do programa de Pós-Graduação em Ecologia da mesma universidade, principalmente no âmbito da Ecologia Urbana e da Etnobotânica. Já em Ubatuba, temos a expectativa de atrair tanto pessoas ligadas à diversas redes brasileiras que trabalham com cultura e tecnologia quanto pessoas, grupos e organizações da cidade e da região atuando com cultura, meio ambiente, inclusão social e participação política.

“Tenho a impressão de que toda vez que eu falo em MetaReciclagem, a pessoa dá uma pesquisada na internet e consegue ficar mais tranquila: “ah, é esse lance de reutilizar eletrônicos descartados”. Coloca um rótulo e pronto. Mas MetaReciclagem não é, nunca foi só isso.” Felipe Fonseca

seLecT: Felipe e outros membros do comitê organizador têm um histórico de forte ligação, para não dizer liderança, com o Metareciclagem, uma movimentação que agitou a cultura digital brasileira na última década, mesmo quando isso ainda não era um conceito. Vocês relacionariam de alguma maneira essas duas movimentações, o que foi ou é o Metareciclagem e o que é ou será o Tropixel? Como?

Felipe: Por um lado eu acredito que tudo que faço é MetaReciclagem, depois de mais de uma década de rede. Quando estou trabalhando com laboratórios experimentais, com políticas públicas de cultura, com questões urbanas ou projetos de participação social, sempre consigo perceber uma influência da MetaReciclagem – na ideia de apropriação crítica, na busca de arranjos criativos que desobedeçam fronteiras disciplinares, na busca de espaços efetivos de transformação social. Por outro lado, eu decidi não identificar diretamente o Tropixel como um evento “da MetaReciclagem”, até para entender como toda essa ideia de apropriação é atrativa para outros universos de referências. Tenho a impressão de que toda vez que eu falo em MetaReciclagem, a pessoa dá uma pesquisada na internet e consegue ficar mais tranquila: “ah, é esse lance de reutilizar eletrônicos descartados”. Coloca um rótulo e pronto. Mas MetaReciclagem não é, nunca foi só isso. E organizar um evento que carrega essa visão mais profunda que está posta na MetaReciclagem (ou pelo menos na minha leitura do que é MetaReciclagem) para um leque mais amplo de temas é também uma experiência para ver até onde a gente consegue atuar sem ser rotulado (e consequentemente perder potência).

Raquel: Como pesquisadora me interessa o que o Metareciclagem faz desde quando conheci o Felipe e o Etienne Delacroix em 2001. Minha pesquisa de doutorado foi sobre resíduos informacionais e espaciais e em 2010, ao ser convidada pelo Pixelache para falar sobre ele, decidi apresentar propostas interessantes que estavam acontecendo no Brasil como o Metarec. A receptividade foi grande e pensamos que desenvolver um nodo do Pixelache no Brasil relacionando pessoas que tivessem a ver com a rede seria algo lógico.

seLecT: De onde surgiu a ideia de fazer um evento desse porte em Ubatuba? Porque não São Paulo ou Rio?

Felipe: Estamos todos cansados de São Paulo e Rio, não é? De minha parte posso falar particularmente sobre Ubatuba. É importante dizer que o Tropixel não é um daqueles eventos que vem pronto de fora, acontece e vai embora. Ubatuba não é somente um cenário (muito) bonito para o festival. Pelo contrário, eu estou pessoalmente empenhado em fazer um evento internacional aqui para trabalhar algumas coisas. Tenho duas questões específicas. Uma delas é que a cidade é recordista em preservação de mata atlântica em SP, mas isso ocasiona uma série de limitações. Uma das principais é que a cidade nunca vai poder optar pelo caminho usual da industrialização como estratégia de desenvolvimento. Eu acho isso uma limitação fantástica, porque se queremos criar alternativas de desenvolvimento vamos precisar encontrar caminhos que não sejam poluentes, que valorizem as populações tradicionais, que criem maneiras de articular os muitos talentos que circulam pela cidade (grande parte deles efêmeros, nomádicos, passageiros). E acho que essa é uma questão importante não só para Ubatuba, mas para o mundo. 

O senso comum aponta para cultura, ciência, educação, setores criativos. Mas queremos pensar como ir por esse caminho sem cair nas armadilhas das indústrias criativas. A outra questão diz respeito à temporalidade de Ubatuba. É comum que as pessoas vejam a cidade como sendo um lugar que está algumas décadas atrasado. Ou então pessoas que imaginam que ela é um lugar atemporal, fora da história. Meu argumento é que nenhuma dessas visões é verdadeira: Ubatuba é uma cidade contemporânea, e os problemas que ela tem são resultado de processos que são totalmente contemporâneos. Afirmar essa contemporaneidade e a partir daí decidir o que fazer a respeito é outra das intenções do Tropixel por aqui.

Raquel: A Arte Digital sempre esteve nos espaços intersticiais onde os eventos e centros de Arte Contemporânea não dominavam. Pense no Ars Electronica em Linz, o ZKM em Karlsruhe, o espaço Laboral em Gijón e toda a movimentação no norte da Inglaterra neste âmbito. O Art.mov aconteceu durante anos em várias cidades pelo Brasil onde SP e Rio não eram necessariamente a etapa principal. Acho que o interessante desta proposta era exatamente isso e pessoalmente fui influenciada e estimulada pela proposta do Rodrigo Minelli, Lucas Bambozzi e Marcus Bastos em colaborativamente propor ou apoiar um hackerspace em Cachoeira, um espaço de arte e tecnologia Rural em Visconde de Mauá e um festival de música eletrônica em Belo Horizonte. O melhor exemplo disso é o LabMóvel do Lucas Bambozzi e Giselle Domschke, também iniciado no contexto do art.mov. 

“Se estamos falando de tecnologia, de redes, manter o formato de concentração em grandes centros seria um paradoxo.” Raquel Rennó

Se estamos falando de tecnologia, de redes, manter o formato de concentração em grandes centros seria um paradoxo. Especificamente no caso do Pixelache a questão do meio ambiente é fundamental. É do meio ambiente que se reflete sobre tecnologia, espaço urbano, sociedade e por isso mesmo as atividades ocorrem em várias cidades ao mesmo tempo ou mesmo dentro de um ferry boat que ia de Helsinki a Tallinn ou uma pequena ilha na Estônia como na edição deste ano. Ubatuba, como o Felipe já colocou, é um espaço de alta biodiversidade, combina comunidades de pescadores, quilombolas com pessoas que sairam da cidade grande em busca de maior qualidade de vida. Mas também estão presentes problemas como o a gestão dos resíduos, o turismo predatório e mesmo a falta de oportunidades profissionais para os jovens de lá. Juiz de Fora é uma cidade de porte médio, mineira mas com uma cultura altamente influenciada pelo Rio de Janeiro (de onde está mais próxima). O histórico da indústria na região é claro (a cidade é conhecida como a Manchester mineira) e isso gera impactos meio ambientais evidentes. O espaço urbano da cidade é um claro exemplo do que ocorre em grande parte do Brasil: embora a cidade esteja cercada de uma grande área verde e muito próxima de um Parque Estadual importante como Ibitipoca, há dentro da cidade pouquíssimos espaços público de convivio, a cidade está construída para os automóveis, o transporte público é precário. No entanto a maioria da população é jovem e os projetos que fazemos com as escolas públicas tem uma resposta incrível. É um compromisso nosso pensar nisso em qualquer proposta que queiramos fazer, ainda mais com o apoio da Capes e da Fapemig (instituições públicas de fomento à pesquisa) que recebemos para o evento.

seLecT: Vocês organizadores têm expectativa de resultados concretos após o evento, algo como um produto, um projeto, uma carta de intenções?

Felipe: Me interessa principalmente tirar as pessoas da zona de conforto. Trazer uma enxurrada de temas, juntar um monte de gente e projetos interessantes, e ver o que acontece. Estou mais interessado em criar um espaço em branco e deixar ele crescer do que em já planejar de antemão algum resultado específico.

Raquel: O(s) projeto(s) de trabalho conjunto já acontecia(m), o Tropixel é só um resultado disso, não o contrário. Dentro da proposta do que nos interessa, e do que o Pixelache propõe, a questão é menos evento-espetáculo e mais espaços de reunião onde podemos nos encontrar pessoalmente, embora sigamos trocando informações, desenvolvendo cosias juntas e brigando online como sempre. Produtos e carta de intenção engessam, além do mais exigem um modo de organização e trabalho que é o oposto do que nos interessa. Fico imaginando que seria como a Madonna cantando Like a Virgin com 60 anos de idade. Não é pra mim não, mas confesso que o Felipe fica muito bem de corset. 

Serviço:

Festival Tropixel – Arte, Ciência, Tecnologia e Sociedade

De 17 a 19 de outubro em Juiz de Fora.

De 21 a 25 de outubro em Ubatuba.

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