Era uma vez

Como determinar o limite entre realidade e ficção, quando uma notícia pode ser apenas um rumor?

Luana Fortes
Iolanda (2011), fotografia de Philip-Lorca diCorcia (Foto: Cortesia do Artista/David Zwirner, NY, Londres)

O termo PÓS-VERDADE diz respeito às circunstâncias em que o fato objetivo tem menos influência na formação da opinião pública do que o apelo à emoção ou a crenças pessoais. Ralph Keyes, autor de The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life (A Era da Pós-verdade: Desonestidade e Fraude na Vida Contemporânea), acredita que o uso da palavra pós-verdade aumentou, no ano passado, graças a Donald Trump, durante a campanha presidencial norte-americana. “Isso se dá pelo fato de ele ser proeminente e tão indiferente à distinção entre verdade e mentira”, diz Keyes à seLecT. O conceito explica, por exemplo, como Trump poderia alegar que a certidão de nascimento do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama é falsa ou que ele teria fundado o Estado Islâmico.

Que políticos mentem não é novidade. Mas a política da pós-verdade não se baseia exatamente sobre a mentira, e sim sobre a afirmação de uma visão pessoal que, independentemente de ser fato ou não, é percebida e compartilhada como verdade.

Frame do vídeo Operation Atropos (2006), de Coco Fusco (Foto: Reprodução)

 

O ambiente mais propício ao crescimento dessa cultura não poderia deixar de ser as redes sociais. Quando alguém, ao navegar em seu feed do Facebook, se depara com um post que faz uma afirmação, a legitimidade da informação raramente é questionada. “Quanto mais radical a sua crença, esquerda ou direita, mais você acolhe informações que a confirmem, sem levar em conta a sua legitimidade”, diz Keyes.

“Somam-se a isso a falta de verificação de dados, o anonimato da comunicação na internet ou o fato de nos conhecermos tão pouco, que é difícil dizer quando outra pessoa está sendo honesta ou não”, completa Keyes. Assim, rumores proliferam em diversas páginas na internet e, mesmo que existam denúncias e protestos a respeito da veracidade das afirmações, esse movimento apenas contribui para a sua circulação.

Ainda podemos encontrar as fake news, aquelas que de fato foram criadas para ser confundidas com a notícia. Elas enganam justamente por simular fonte confiável, seja por meio de um site bem desenhado, seja por uma linguagem jornalística reconhecível, e são normalmente criadas como isca de clique, com o objetivo de atrair acessos. Como a manchete “WikiLeaks CONFIRMA! Hillary vendeu armas ao ISIS”, publicada por um internauta se passando pelo site de notícias The Political Insider, e que, surpreendentemente, ou não, viralizou na internet.

The Hamptons (2008), fotografia de Philip-Lorca diCorcia (Foto: Cortesia do Artista/David Zwirner, NY, Londres)

 

Quanto disso é ficção?
Em meio a esse cenário, trabalhos de arte que exploram os limites entre realidade e ficção ganham nova dimensão. Foi com isso em mente que David Garcia e Annet Dekker, em parceria com Ian Alan Paul, montaram How much of this is fiction (Quanto disso é ficção). A exposição aconteceu na Fundação de Arte e Tecnologia Criativa (FACT), em Liverpool, e contou com artistas que usam mecanismos para enganar e iludir o público. Para Garcia, curador e professor de Mídias Digitais e Ativismo na Mídia na Universidade de Bournemouth, um mundo em que os tradicionais guardiões de notícias não conseguem mais estabelecer consenso sobre o que constitui um legítimo discurso público é um mundo que clama por um novo nível de alfabetização midiática. “Gosto de pensar que os artistas que escolhemos para essa exposição usam a sátira e a trapaça para realizar essa função”, diz David Garcia à seLecT.

A cubano-americana Coco Fusco foi uma das escolhidas, com o trabalho Operation Atropos (2006), em que mostra o workshop, realizado ao lado de outras seis mulheres, The Prisoner of War Interrogation Resistance Program (Programa de Resistência à Interrogação de Prisioneiros de Guerra). “O vídeo é uma mistura entre verdade e ficção, assim como é uma mistura entre documentário e reality-TV”, conta a artista.

Building (2006), fotografia de Anne Hard (Foto: Cortesia Saatchi Gallery, Londres)

 

Trata-se de uma vivência de quatro dias, em que os participantes aprendem, com verdadeiros interrogadores militares, de que maneira podem sobreviver como prisioneiros de guerra. Apesar de ser um curso, a ficção muitas vezes se confundia com a realidade. “Os homens realmente nos interrogavam e nos agrediam ocasionalmente. Algumas de nós ficamos muito assustadas e abaladas”, completa Coco Fusco.

Essa incerteza também pode ser vista na fotografia, em que o embate entre realidade e ficção acontece de longa data. Ele se dá desde o momento em que se discute se a fotografia pode ser considerada um autêntico registro da verdade. Entre artistas contemporâneos, o debate é fértil. A fotografia do norte-americano Philip-Lorca DiCorcia, por exemplo, simula uma cena possível e espontânea.

No entanto, creditar ao azar a realidade documentada em trabalhos como Iolanda (2011) e The Hamptons (2008) seria ingenuidade. Em ambos os casos, as cenas retratadas são meticulosamente construídas, nada está lá por acaso. Ou você acreditaria se ele te dissesse que realmente viu dois cachorros assistindo a um filme pornô?

Banheiro Rosa com Polvos (2017), pintura de Ana Elisa Egreja (Foto: Filipe Berndt)

 

Esse também é o caso de Anne Hardy. Como um pintor diante de uma tela em branco, ela cria e constrói os cenários para cada uma de suas fotografias. Cada detalhe pensado com cautela leva a crer que a situação é real. Tal qual na política da pós-verdade, o papel de determinar a veracidade da imagem recai nas mãos do espectador. O processo criativo da artista inglesa aproxima-se ao da brasileira Ana Elisa Egreja, que elabora minuciosamente toda e qualquer cena que decide pintar. Na recente série Jacarezinho 92 (2016/2017), orquestrou cenários inteiros. Em uma das pinturas, polvos escapam de uma banheira. Uma imagem implausível, mas pintada com tamanha destreza e detalhes que quase não há lugar para a dúvida. A não ser que ela seja: isso é mesmo real?

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