Quarta-feira de cinzas

Novo trabalho de Dora Longo Bahia é uma alegoria sombria da crise política brasileira

Paula Alzugaray
Olimpiadas (09/08/2016), de Dora Longo Bahia (Fotos: Edouard Fraipont)
Olimpiadas (09/08/2016), de Dora Longo Bahia (Fotos: Edouard Fraipont)

No sábado em que os jornais amanheceram banhados de sangue, ferimentos e envenenamento com armas químicas, para além das atrocidades de cada dia, a mostra Cinzas, individual de Dora Longo Bahia na galeria Vermelho, chegava ao seu último dia.

“Avançamos vários séculos, mas as imagens de hoje são tão perversas quanto as de Goya”, me comentou certa vez a artista sobre a série de pinturas Desastres da Guerra (2011), em que relacionou fotografias de guerra do século 20 com lâminas do álbum gravado pelo artista espanhol em 1746.

Cinzas (2017), de Dora Longo Bahia

Cinzas (2017), de Dora Longo Bahia

Passados cinco anos, a guerra deixa de ser notícia e passa a ser programação da TV. No cubo da galeria Vermelho, diante das patas cortadas, a cabeça mascarada e decapitada de um cavalo preto, um fulminante dèja vu se instala. Seria a reaparição de um detalhe de alguma imagem específica entre as 82 gravuras de Goya? Ou da série Negra do pintor? Ou das apocalípticas imagens de decapitações transmitidas via internet pelo Estado Islâmico?

Diferentemente de séries anteriores, não há nesta exposição imagens explícitas do sofrimento e da dor alheia. Mas a instalação Cinzas (2017), que deu titulo à sexta individual de Longo Bahia na galeria, guarda algum registro das imagens da violência humana praticada ao longo dos séculos 18, 20 e 21. A monumentalidade frágil do cavalo de papelão com asas de dragão funciona como alegoria sombria do medo, da barbárie e de fatos chocantes cotidianamente fotografados, publicados e compartilhados.

O recurso da alegoria se afirma com força na pesquisa de Dora Longo Bahia na construção em camadas de O Caso Dora (2016). Meta-representação de um pensamento artístico, o filme – e tese de pós-doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – acumula consistentes citações e referências a pesquisas anteriores. Seu modo construtivo remete, por exemplo, aos “escalpos” feitos de pintura descascada.

Em Cinzas, a alegoria se aplica em uma fina camada de tinta acrílica sobre jornal. Mais especificamente em 48 pinturas de faces de palhaços risonhos, abobalhados ou perversos sobre as primeiras páginas dos jornais brasileiros durante as Olimpíadas do Rio. Patéticas alegorias da farsa e do escárnio que se revelou a política brasileira.

Colorida e delicadamente pintadas, essas tristes figuras que espelham a realidade do brasileiro hoje mal recordam os “Escalpos Iraquianos” de outros tempos. O escalpo, essa técnica violenta, segundo a artista apropriada da prática de índios norte-americanos de arrancar a pele do inimigo como troféu, é “uma pintura sem corpo, arrancada de seu corpo original e colocada sobre outro corpo”. Nesta nova exposição, o gesto de violência é outro: acontece em camadas de tinta cinza concreto que cobrem seis trabalhos de diferentes fases da carreira da artista.

Who is Afraid of Red? (1999/2017), de Dora Longo Bahia

Who is Afraid of Red? (1999/2017), de Dora Longo Bahia

 

Quem seria capaz de se esquecer de Who is Afraid of Red? (1999). A pintura, que entrou no portfólio da artista elaborado pela revista seLect nº 8, foi impiedosamente coberta da mesma tinta cinza utilizada pela prefeitura de São Paulo para apagar grafites e pichações dos muros da cidade. O comentário crítico da artista tem o peso do ato autoritário.

No gesto frio e desprendido de apagar as próprias pinturas, Dora Longo Bahia não é a única artista que produz com agilidade uma resposta contundente ao gesto leviano que marcou a primeira ação de marketing da prefeitura João Dória. Mas ela o faz com a singular articulação de uma contumaz pesquisadora da imagem contemporânea.

Ao apagar, Dora Longo Bahia escreve sua crônica da vida brasileira. Seu subtexto se utiliza de fragmentos de carnaval, de espetáculos midiáticos e das ruínas de um carro alegórico para acertar o foco sobre o corrompido caráter de nossa classe política.

Serviço
Cinzas – Dora Longo Bahia
Galeria Vermelho
R. Minas Gerais, 350 – São Paulo
De 9/3 a 8/4
www.galeriavermelho.com.br