Religar e dar a ver

Em ritos performáticos, Ayrson Heráclito age politicamente. Dá alimento às cabeças e faz pensar, na medida em que revela os espaços doentes da história do Brasil

Paula Alzugaray
Fotografia da performance O Sacudimento da Casa da Torre (2015) (Foto: Ayrson Heráclito)
Fotografia da performance O Sacudimento da Casa da Torre (2015) (Foto: Ayrson Heráclito)

Em abril último, Ayrson Heráclito vestiu-se de branco para entrar na Casa da Torre de Garcia D’Ávila, construção de 1550, em Mata de São João, Bahia, sede do que foi o maior latifúndio da história do Brasil, que se estendia da Praia do Forte até o Maranhão. Pisava em terreno que fora o arcabouço da aristocracia baiana e a gênese da sociedade escravocrata brasileira. Portava galhos e folhagens de para-raios, romãzeira, aroeira, espada-de-são-jorge e outras plantas mágicas, a fim de realizar a primeira parte da performance O Sacudimento.

Realizado por iniciados no candomblé jejê, como ritual de cura e limpeza de ambientes domésticos, o “sacudimento” ganha uma dimensão universal na obra de Heráclito. Segundo o artista, a energia quente desprendida das folhas batidas nos cantos da casa-forte de Garcia D’Ávila não era destinada a expulsar os frios “eguns” – espíritos que permanecem entre os vivos, trazendo-lhes infortúnios – de escravos vítimas de torturas e abusos extremos. Heráclito sacudia um único egum que assombraria o local: o senhor de escravos – e a violência infiltrada por ele sobre o antigo sistema social da Bahia e irradiada até os dias de hoje, na pobreza e na desigualdade social distribuídas por todo o País. “Trata-se de um ritual de ativação e apaziguamento de nosso passado colonial”, diz Ayrson Heraclito à seLecT.

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Fotografia da performance O Sacudimento da Maison des Esclaves (2015) (Foto: Ayrson Heráclito)

 

A segunda parte do trabalho foi realizada em meados de maio, na outra margem do Atlântico, mais especificamente na última porta cruzada pelos africanos escravizados e transportados ao Brasil. O Sacudimento da Maison des Esclaves, na Ilha de Gorée, no Senegal, forma com O Sacudimento da Casa da Torre um díptico. As duas casas são conectadas por uma performance que busca religar o que havia sido cindido à força. “Realizei o grande projeto da minha vida, um díptico que promove a reunião das margens do Atlântico por meio da prática da performance”, diz ele. “Tal obra tem como temática central o exorcismo de dois monumentos arquitetônicos ligados ao tráfico Atlântico de escravos e à colonização”. O Sacudimento, o mais recente projeto de Heráclito, foi premiado pela Associação Videobrasil, que propiciou sua residência no Senegal, e pelo Novo Banco Photo 2015, que expõe as fotografias e os vídeos do projeto no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, até outubro.

Alimento para a reflexão
Artista, pesquisador da diáspora africana no Brasil e professor de artes visuais na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Ayrson Heráclito sempre se interessou por materiais “intermediários”, isto é, em estado de transformação física ou simbólica. Tomando como referências conceituais a escultura social de Joseph Beuys e sua pesquisa com a energia da matéria, chegou aos materiais utilizados nos rituais e na culinária afro-baiana. O açúcar, a carne de charque e o azeite de dendê – que substitui o sangue animal nos rituais para Exu e é o material intermediário da obra Divisor – foram os primeiros elementos trabalhados. “Simultaneamente, promovo uma decodificação e uma nova forma de absorção de seu significado usual”, diz ele.

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Fotografias da série Bori (2008-2011), de Ayrson Heráclito (Foto: Ayrson Heráclito)

 

Grãos, frutos e matérias da natureza adquirem aqui um sentido mágico. A rota dos elementos levou o artista a conceber uma performance inspirada na prática de ofertar comidas para a cabeça em cerimônias religiosas. Bori, no idioma ioruba, é a fusão de bó (oferenda) e ori (cabeça). Nesta ação, o artista oferece comidas sacrificiais a 12 cabeças, ritualizando os 12 principais orixás do candomblé, de Ogum a Oxalá. Quiabo para Xangô; milho para Oxóssi; feijão-branco para Oxum; vatapá para Iansã; arroz e favas, simbolizando a espuma do mar e a madrepérola, para Iemanjá.

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Fotografias da série Bori (2008-2011), de Ayrson Heráclito (Foto: Ayrson Heráclito)

 

Em Bori (2008-2011), há também a pipoca (doburu, em ioruba, ou “flor do Velho”), alimento de Obaluaiê. Mas o deus da varíola e das afecções ganhou do artista deferência especial na performance Buru Buru (2010), em que um homem recebe, de braços abertos, uma chuva de flores. Segundo a mítica do candomblé nagô, as flores do doburu representam chagas do corpo doente de Obaluaiê. E seus banhos servem para curar. Com seus ritos performáticos, Ayrson Heráclito age politicamente. Dá alimento para as cabeças e faz pensar, na medida em que dá a ver as feridas dos corpos e revela os espaços doentes e castigados pela história do Brasil.

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