Rodrigo Andrade: Bom ou ruim?

Um artista muito habilidoso e nada ingênuo resolve burlar sua própria destreza, suspender o juízo de valor e mergulhar no universo da pintura popular e barata

Márion Strecker
Detalhe da pintura Negra, da série Praça da República, de Rodrigo Andrade (Fotos: Cortesia Rodrigo Andrade e Galeria Estação)

Quer falar mal de um artista em São Paulo? Chame o seu trabalho de pintura de Praça da República. É ali nessa praça que já foi local de touradas, ao lado da Avenida Ipiranga, que acontece desde os anos 1950, sempre aos domingos, uma famosa feira de artesanato. Pinturas, desenhos e esculturas são vendidos a bom preço, ao lado de sandálias de couro, bolsas, bijuterias, incensos, pedras semipreciosas, objetos esotéricos e tapetes de pele de vaca, além de acarajés de baianas vestidas em trajes típicos, entre outras mil e uma coisas.

Pois a pintura da Praça da República, com seus temas mais que batidos, suas fórmulas, sua ingenuidade e seus maneirismos, motivou os 42 trabalhos da mais recente exposição de Rodrigo Andrade (São Paulo, 1962), que ocorreu de novembro passado a janeiro deste ano no Ateliê 397, um espaço independente na Vila Madalena. A exposição teve curadoria de Thais Rivitti e apoio do ProAC, programa do governo do estado de São Paulo. O Ateliê 397 é praticamente vizinho da Galeria Millan, que representa Rodrigo Andrade. Não por acaso, o debate entre artista e curadora que ocorreu no encerramento da exposição teve o seguinte título: “Pintura boa ou pintura ruim?”

Senhor Tuiuiú, da série Praça da República, de Rodrigo Andrade

Senhor Tuiuiú, da série Praça da República, de Rodrigo Andrade

“Entre nós, a gente sempre tratou um tipo de pintura como pintura de Praça da República: uma pintura popular, que talvez seja a última escala dentro de uma escala de diluições, de fórmulas e convenções, que chega a um ponto extremamente saturado e gasto”, comenta Rodrigo Andrade. “Ao mesmo tempo que essas pinturas tinham uma coisa muito careta, um convencionalismo, às vezes vazava outra coisa meio maluca, que vinha da falta de técnica da pessoa que desenhava, da falta de controle, da falta de perspectiva, e que acabava criando soluções meio interessantes. Existem alguns artistas desse âmbito que são geniais, e que ultrapassam, como Rousseau ou Ranchinho, mas não é o caso. O que estava me interessando era esse lado da saturação mesmo”, diz ele a respeito da série.

Ranchinho
A admiração por Ranchinho (1923-2003) já inspirou Andrade a produzir “réplicas” de suas obras, para que fossem expostas lado a lado dos originais, em 2012, na Galeria Estação, espaço especializado em arte popular. Expor em par era fundamental. Vistas de longe, as pinturas pareciam idênticas. Mas, vistas de perto, notava-se o quanto eram diferentes. A exposição chamou-se Jogo dos Sete Erros. Na série Praça da República, entretanto, nenhuma genialidade é exaltada. Ao contrário, o interesse foi despertado pelas figuras gastas.

Preto Velho III, de Rodrigo Andrade

Preto Velho III, de Rodrigo Andrade

Como um pintor talentoso e estudado burla sua própria habilidade, sua capacidade formal e seu juízo de valor? “Foi uma coisa assim: eu vou fazer e não sei se vai ficar bom ou não. Não é essa a questão. Eu vou fazer aqui esse palhaço tal qual eu tenho na mente, gravado, visualizado. Mas para burlar essa destreza, esse espírito autocrítico, adotei alguns procedimentos. Vou fazer um preto velho, então a primeira mão, a primeira vez que ele se configurava, eu deixava tal e qual ele aparecia naquele momento. Às vezes ficava meio canhestro, mas eu não ia lá retocar. O que me interessava era uma espécie de contato com essas imagens arcaicas, essas figuras ultrassaturadas da nossa cultura pictórica em geral.”

Rodrigo Andrade, como tantos de nós que crescemos em São Paulo, teve a infância impregnada com a estética da Praça da República? “Eu era de Pinheiros, não era longe, mas eu não ia sempre”, conta. “Nessa praça tem uma espécie de comunidade, eles têm carteirinha, tem ali uma corporação de pintores da Praça da República, que levam seus trabalhos e vendem superbarato”, continua.

Mas a Praça da República pintada pelo artista contemporâneo (e erudito) tem como modelo “uma Praça da República meio ideal”, que traz à tona imagens antigas, “mais ou menos embaçadas, encardidas na minha própria imaginação”. A Praça da República, para Andrade, possui idealmente uma ligação com alguma origem arcaica do ato de pintar, de criar. Os temas da série remetem a temas da sua infância: o carro de corrida, ou o incêndio na floresta, relacionado por Andrade a uma cena de Bambi, o desenho animado da Disney.

Palhaço II (2015), da série Praça da República, de Rodrigo Andrade

Palhaço II (2015), da série Praça da República, de Rodrigo Andrade

Doce iconoclasta
Outro tema que Andrade enfrentou foi o palhaço que chora. Ele faz questão de mencionar outros artistas contemporâneos que exploraram a figura do palhaço, como Bruce Nauman e Cindy Sherman. “O palhaço é uma figura patética, monstruosa e ultrakitsch, que é feita pra rir, mas dá medo em criança. Nos dois artistas americanos, esse lado iconoclasta ganha uma acidez muito forte. No meu caso, ganha também ares de simpatia. Tem uma violência, mas tem também uma certa doçura, que eu atribuo à nossa cultura brejeira.”

Suspender o juízo de valor foi um ato de libertação para o artista. Não importa se o resultado é bom ou não, ele procura nos dizer. Com pinturas lindas e outras medonhas, a série Praça da República surpreende. É corajosa, provocativa e também engraçada. Nos devolve o imaginário popular e a arte culta, um visto pelo outro, e vice-versa, como num jogo de espelhos sem fim.

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