Entrevista com Solange Farkas

Diretora do Videobrasil fala sobre a baixa presença da África portuguesa no acervo da associação e a inclusão de Portugal no mapa do Sul geopolítico

Paula Alzugaray
Retrato de Solange Farkas (Foto: Camila Butcher)

Por que Portugal passa a ser contemplado dentro dos Panoramas do Sul? Qual seu papel neste mapa?
O mapa do Sul geopolítico é, como todo mapa político, passível de ajustes, movimentações que acompanham as mudanças da distribuição de poder no mundo. Portugal sempre esteve simbolicamente à margem da Europa, digamos, na borda, e, como outros países do continente, passou por uma espécie de downgrade simbólico e social durante a crise econômica, também como consequência das medidas de austeridade impostas. Além disso, era o único país da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa não contemplado pelo edital. Esses fatores, mais o diálogo com interlocutores portugueses – o João Laia, por exemplo, que participa da equipe de curadores desta edição, e que participou da anterior – nos fizeram incluir Portugal no mapa do Sul.

Em sua opinião, a que se deve a baixa presença de artistas da África portuguesa nos Panoramas do Sul do VB?
Acredito que isso se deve a duas questões. Primeiro, isso se deve à história social e econômica das ex-colônias portuguesas. Alguns destes países têm uma história muito recente de conflitos, consequência da também muito recente independência de boa parte deles. Não temos duas gerações que nasceram com esses países independentes e sobretudo sem guerra civil. Isso tudo afeta a infraestrutura do país e também a consolidação de um circuito de artes – o que, diga-se, Portugal, enquanto colonizador, se preocupou menos que outros países em estimular. Moçambique, por exemplo, é um país vibrante, mas isso não se traduz necessariamente em uma produção em vídeo, que foi o foco histórico do Festival. A segunda questão nos diz respeito diretamente e é o fato do Festival não ter chegado a acessar todas cenas locais que gostaríamos e estar continuamente ampliando sua rede de interlocutores. Os países da África portuguesa estão no nosso radar, mas também por exemplo o sudeste da Ásia: Tailândia, Indonésia, Malásia, Filipinas, todos ainda menos representados no Festival do que gostaríamos.

Em conversa com o Ruy Luduvice, pesquisador coordenador do Acervo Histórico Videobrasil, ele me adiantou que a participação africana no festival se dá maioritariamente por artistas brancos (do Magreb e da Africa do Sul) e que a adesão de artistas negros no open call é baixa. Como o VB está lidando com essa realidade?
Como te disse, estamos continuamente ampliando nossos canais de comunicação e intercâmbio com vários países, além de fortalecermos laços que já existem. Mas também não podemos ser ingênuos e desconsiderar que essa realidade é reflexo de séculos de colonialismo europeu na África, um passado que, como aqui Brasil, estende seus reflexos até os nossos dias.

Em que medida a próxima exposição no Galpão VB, “Agora Somos Todos Negrxs?” envolve uma auto-reflexão acerca da instituição?
A exposição Agora somos todxs negrxs? é fruto de um desejo do Videobrasil de contribuir para agitar o debate em torno de questões raciais no campo da arte no Brasil. Para desenvolver curatorialmente o projeto, convidamos o Daniel Lima, artista e ativista que é nosso colaborador de longa data, que por sua vez acionou uma vasta rede de colaboradores e interlocutores dele, e trouxe questionamentos para a instituição que resultaram em ações concretas – como, por exemplo, a inclusão da autodeclaração étnica nas fichas dos artistas no Acervo. Mas é uma autorreflexão que já vem em curso desde a criação do Festival – antes mesmo do racismo ganhar o status que merece como objeto de debate público no Brasil –, que colaborou com alguns dos mais importantes artistas negros do final do século 20 no país, como o Luiz de Abreu, premiado na 18ª edição com uma obra absolutamente contundente que aborda de modo direto o racismo. Não podemos deixar de lembrar que organizei também duas mostras com artistas africanos que, embora não tivessem foco na produção de artistas negros, carregavam inevitavelmente a questão racial no seu bojo. O que é preciso lembrar, hoje mais uma vez, é que a nossa formação social e econômica, como nação, teve o trabalho escravo como elemento central, e isso tem reflexos no nosso cotidiano até hoje. Vale a pena também sempre nos perguntarmos o que fazemos para dialogar, elaborar esse passado, porque, como disse o Dodô Azevedo em um texto curto mas certeiro publicado n’O Globo, o Cais do Valongo é o útero do Brasil.

Poderia nos adiantar quais serão as atrações do 20ª festival que incluem artistas portugueses e africanos? Lembro-me que na reunião vocês mencionaram algo como uma performance de Filipa Cesar a partir de pesquisa em Guiné-Bissau…
De Portugal temos as presenças de Filipa César com o vídeo Transmission from the liberated zones e a performance Luta Ca Caba Inda em parceria com o cineasta Sana N’hada da Guiné Bissau; Pedro Barateiro com a instalação The current situation e a performance The sad savages e Mariana Portela Echeverria com a instalação Orgy mathematics.

Da África temos o artista Emo de Medeiros (Benim), Karo Akpokiere (Nigéria), Monira Al Qadiri (Senegal), Sammy Baloji (Congo), Seydou Cissé  (Mali) e o sul-africano Thando Mama. E como você pode notar, uma participação expressiva de artistas do continente africano.

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