Um roteiro da documenta 14

Tobi Maier, crítico de arte e curador alemão radicado em São Paulo, recomenda dez obras imperdíveis da documenta 14

Tobi Maier
O crítico de arte e curador Tobi Maier recomenda dez obras imperdíveis da documenta 14 (Foto: Pablo Saborido)

A convite de seLecT, o crítico Tobi Maier filtrou dez obras icônicas da mostra Aprendendo com Atenas, distribuídas ao longo de mais de 30 espaços da cidade de Kassel, na Alemanha. Os trabalhos selecionados de Banu Cennetoğlu, Yorgos Sapountzis, Hans Haacke, Ben Russel, The Society of Friends of Halit, Naeem Mohaiemen, Anna Halprin, Mattin, Michel Auder e Manthia Diawara dissertam sobre migrações, as relações entre Alemanha e Grécia e desenvolvem argumentos críticos sobre a hegemonia europeia. Visite até 17 de setembro.

Trabalho de Banu Cennetoğlu (Foto: Roman März)

 

  1. Na obra de Banu Cennetoğlu se lê Being Safe is Scary e está montada sobre a entrada do Fridericianum. As letras da instituição foram rearranjadas para formar a frase que a artista extraiu de um grafiti na Universidade Técnica de Atenas, em abril deste ano. A frase vira um mantra na visita da documenta 14 em Kassel, especialmente para o espectador alemão, que deixa de pisar terreno familiar. Porém, como o texto do guia explica, refere-se também à trajetória e ao destino trágico de uma guerrilheira curda.

Colagens-pinturas sobre jornais alemães de Yorgos Sapountzis (Foto: Reprodução)

 

  1. Yorgos Sapountzis, artista grego radicado em Berlim, expõe suas obras no Fridericianum onde os curadores decidiram apresentar a coleção do Museu Nacional de Arte Contemporânea (EMST) de Atenas – um gesto mais convincente do que a curadoria propriamente dita. Entre as obras, um filme mostra as experimentações arquitetônicas no estúdio de Sapountzis enquanto as colagens-pinturas sobre jornais alemães discutem as representação da “crise” grega na mídia alemã.

We (All) Are The People (2003/2017), de Hans Haacke (Foto: Cortesia da documenta 14/ Roman März)

 

  1. Hans Haacke, artista alemão radicado em Nova York, mestre da crítica institucional, apresenta uma série de fotografias documentando a sua visita à Documenta 2 (1959), que aconteceu na época em que Haacke estudava em Kassel. Partindo da sua obra no Parlamento em Berlim (Der Bevölkerung [Ao povo], 2000) o artista também apresenta uma série de banners We (All) Are The People (2003/2017) no Friedrichsplatz e em vários lugares ao redor da cidade.

Good Luck (2017), de Ben Russel (Foto: Benjamin Westoby)

 

  1. Ben Russel e sua obra Good Luck (2017) também está sendo apresentada no Fridericianum, porém no porão do prédio, difícil de ser encontrado. Uma instalação de várias projeções em caves diferentes com um sistema de som elaborado, a obra de Russel impressiona pela investigação do trabalho em minas de Suriname e na Sérvia e coloca o espectador diante do trabalho árduo da extração de matérias primas.

Frame do vídeo que reconstrói o dia do assassino de Halit (Foto: Cortesia de Sefa Defterli)

 

  1. The Society of Friends of Halit apresenta uma série de palestras e uma instalação que documenta o assassino de Halit Yozgat num Internet Café de Kassel. Halit foi a nona vítima da violência xenófoba do grupo de extrema-direita NSU, em 2006. A instalação do The Society of Friends of Halit – desenvolvida em colaboração com Forensic Architecture – apresenta na Neue Neue Galerie um vídeo e animações que reconstroem o dia do assassinato de Halit e analisa o possível envolvimento de um agente secreto alemão no ato.

Frames de Two Meetings and a Funeral (2017), de Naeem Mohaiemen (Foto: Cortesia de Naeem Mohaiemen e Experimenter, Kolkata)

 

  1. Naeem Mohaiemen apresenta Two Meetings and a Funeral (2017), videoinstalação em três canais que consiste em material documental do Congresso do Movimento Não-Alinhado (NAM), em Argel (1973), e filmagens do artista. As imagens reúnem figuras icônicas do anti-imperialismo, como Yasser Arafat, em ação no Congresso, com os relatos do protagonista do filme, o historiador marxista indiano Vijay Prashad.

Fotografia de Anna Halprin (Foto: Lawrence Halprin)

 

  1. Na Documenta Halle, Anna Halprin, aos 97 anos, apresenta material de arquivo e fotografias que documentam a sua atividade no Kentfield Dance Deck, na Califórnia (1954-2017), realizado em colaboração com seu marido Lawrence Halprin. Desenvolvendo práticas colaborativas e pensando a performance como um ritual de movimento terapêutico, Halprin tem apresentado no Dance Deck obras suas, além de Trisha Brown, Simone Forti e Yvonne Rainer, entre outros.

Social Dissonance Durational Concert, de Mattin, com Dafni Krazoudi, Ioannis Sarris, Danai Liodaki e Eleni Zervou. Durante 163 dias, em Atenas e Kassel (Foto: Mathias Voelzke)

 

  1. Mattin, artista basco que surgiu da cena da música eletrônica e improvisada de Londres no início dos anos 2000, tende a pensar a exposição como concerto e continua a desenvolver os conceitos de música “noise” e improvisação em termos sócio-politicos. Simultaneamente apresentado em Atenas e Kassel, o concerto como exposição recebeu na Alemanha ordens dos atores em Atenas, revertendo assim a direção da hegemonia europeia (alemã) sobre os procedimentos econômicos na Grécia.

The Course of Empire (2017), de Michel Auder (Foto: Jasper Kettner)

 

  1. Descendo em uma estação de trem abandonada no centro de Kassel, o artista francês Michel Auder, apresenta The Course of Empire (2017) uma instalação de 14 telas que – em esquema digital de mapeamento warburgiano – apresenta textos de Arthur Rimbaud e Donna Haraway em analogia a cenas e manchetes do cenário politico recente nos EUA.

Cartaz do filme An Opera of the World (2017) de Manthia Diawara (Foto: Reprodução)

 

  1. O filme An Opera of the World (2017) de Manthia Diawara, foi produzido em colaboração com a escola de arte MauMaus, de Lisboa, e a televisão 3Sat. Em uma montagem de fontes diversas, Diawara reúne material de uma peça de teatro de Koulsy Lamko, da República do Chade, na África, com imagens que documentam o próprio autor navegando pela costa de Lesbos falando sobre migração, o mar e os seus mitos, quando finalmente também inclui as vozes de pensadores como Fatou Diome, Nicole Lapierre, Richard Sennett e Alexander Kluge, que analisam o estado atual e a história das migrações. Assisti o fascinante filme antes de partir de Kassel, pois a obra está sendo apresentada no cinema BALi, que se encontra dentro da estação de trem Hauptbahnhof.
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